Por um instante, as diferenças foram esquecidas. Diferenças religiosas, diferenças étnicas, diferenças ideológicas, diferenças políticas, diferenças históricas. Nada disso existia. Tudo passou a ser igual. Tudo era Iraque, todos eram iraquianos, independentemente de se xiitas ou sunitas, se árabes ou curdos, se pró ou antidominação norte-americana, se pró ou anti-Sadam Hussein. Não foram políticos, líderes religiosos ou diplomatas os autores da façanha. Foram apenas 11 jogadores de futebol.
O gol de Mahmoud Khalef, aos 28 minutos do segundo tempo da final contra a Arábia Saudita, coroou uma campanha histórica. Comandados pelo brasileiro Jorvan Vieira, que fez sua carreira no Oriente Médio – a ponto de ser casado com uma marroquina e de falar árabe fluentemente – e é desconhecido no Brasil, os iraquianos bateram a Austrália na primeira fase, a tradicional Coréia do Sul nas semifinais e os sauditas na decisão. Uma trajetória de respeito para qualquer equipe asiática. No caso do Iraque, é particularmente significativo.
O time foi montado às pressas. Vieira tinha como ponto de partida o grupo que foi semifinalista (acabou em quarto lugar e sem medalha) nos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004. No entanto, aquela base não funcionava mais. Havia problemas internos e os resultados não eram os melhores possíveis. A solução foi buscar novos talentos, da maneira que fosse possível em um país dividido e sem qualquer instituição decentemente organizada. Inclusive, óbvio, no futebol.
Time formado, Vieira ainda teve de evitar que os conflitos do país se refletisse em um elenco com jogadores xiitas, sunitas, curdos e cristãos. O trabalho era muito mais psicológico e motivacional do que técnico. E o mérito do brasileiro é esse: permitir que os jogadores mostrassem sua capacidade sem interferências externas. De resto, os atletas entenderam seu papel simbólico e se entregaram em campo mesmo diante de prognósticos negativos e, principalmente, de uma preparação canhestra feita na Jordânia (por questão de segurança, a seleção não pôde ficar no Iraque).
Enquanto isso, o país fazia uma estranha mistura entre a alegria do futebol e o cenário caótico em que vive. Ao passar pelas quartas-de-final, vários torcedores comemoraram atirando para o alto e duas pessoas morreram quando as balas caíram. Depois da vitória sobre a Coréia do Sul na semifinal, milhares de pessoas saíram as ruas para comemorar. Um carro-bomba explodiu e matou 50 pessoas.
Para a final, o exército norte-americano que ocupa o país proibiu a circulação de carros para as horas seguintes à decisão com os sauditas. Funcionou. Milhares de iraquianos saíram às ruas à pé. Líderes tribais atiraram para o alto, mas os danos foram menores. Líderes de todos as etnias e religiões parabenizaram a equipe, sem se importar se havia jogadores de grupos rivais. Era o Iraque e isso era o que importava.
O medo da violência doméstica fez que alguns jogadores – sobretudo os que atuam em clubes estrangeiros – e o próprio Jorvan Vieira não quisessem voltar para o Iraque. Talvez tenham razão. De qualquer forma, eles foram os responsáveis por fazerem que seu país, ao menos por uns dias, se sentisse como um só, sem divisões ou diferenças internas.
FICHA TÉCNICA
IRAQUE 1 x 0 ARÁBIA SAUDITA
Final da Copa da Ásia 2007
Data: 29 de julho de 2007
Local: estádio Gelora Bung Karno (Jacarta)
Público: 60 mil
Árbitro: Mark Shield (Austrália)
Iraque: Hassan; Al Hamd, Gatea (Mshehid), Hussain e Rehema; Nashat, Taher, Karrar (Abbas), Ajeel (Ahmed Mohammed) e Aboudy; Mahmoud Khalef. T: Jorvan Vieira
Arábia Saudita: Al Mosailem; Al Bahri (Al Harthi), Hawsawi, Al Mousa e Jahdali; Khariri, Al Thaker, Abdulrahman al Qahtani (Al Mousa) e Yasser al Qahtani; Alhawsawi e Al Jassam (Autef). T: Hélio dos Anjos
Gol: Mahmoud Khalef (28/2º)
Cartões amarelos: Aboudy, Khariri, Karrar, Khalef, Jahdali e Rehema
Ubiratan Leal
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