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29/08/07

O mundo não é uma bola...

Serenidade diante da dor

Sevilla_Puerta.jpg

“Fallece Puerta.” Lá penas 15h (horário espanhol, 11h horário de Brasília) do último 28 de agosto, quase todos os sites de notícias da Espanha foram uníssonos em suas chamadas principais. Caso raro em que Madri, Barcelona, Galícia, País Basco e Andaluzia voltavam suas atenções para o mesmo fato, deixando o olhar regionalista de lado. Só se falava “morre Puerta”. Simples, direto e com um leve, mas indisfarçável, toque de perplexidade.

Dois dias antes, o lateral-esquerdo do Sevilla caíra em campo no primeiro tempo do jogo contra o Getafe pela primeira rodada do Campeonato Espanhol. O jogador foi atendido no gramado, acordou e saiu de campo andando. No entanto, teve outras paradas cardiorrespiratórias – em total de nove – no vestiário e foi levado ao hospital em estado grave. Desde aquele momento, os relatórios dos médicos deixavam evidente que o estado era gravíssimo. O que se confirmou com a notícia da morte do atleta.

A reação dos espanhóis diante do fato lembra um pouco a dos brasileiros imediatamente após a morte do zagueiro Serginho durante um São Paulo x São Caetano no Brasileirão de 2004. Torcedores e imprensa misturam a tristeza pelo falecimento de um jogador pela sensação de perda da inocência. Como uma criança que se esbalda de uma brincadeira e, de repente, se machuca e percebe que a realidade pode ser mais complexa do que imaginava.

Por isso, todo o futebol espanhol parou para chorar. Algumas das maiores demonstrações de tristeza vieram do Betis, que protagoniza com o Sevilla a rivalidade mais ferrenha (e com mais ódio) do país na atualidade. Milhares de torcedores béticos foram ao hospital Virgen del Rocio prestar homenagens a Puerta. A diretoria do Betis também foi rápida em dar apoio à congênere hispalense e se colocou à disposição para qualquer ajuda.

Manifestações vieram de toda a Europa. A maior parte em mensagens de pesar. Mas houve fatos concretos. O AEK tinha jogo marcado com o Sevilla justamente para a terça pela fase preliminar da Liga dos Campeões. A pedido do clube espanhol, o jogo foi adiado para 3 de setembro (detalhe: dias antes, os atenienses haviam pedido adiamento devido à onda de incêndios que assola a Grécia, mas a Uefa negou). O jogo dos sevillistas contra o Milan na próxima sexta, pela Supercopa da Europa, foi mantido, mas os italianos disseram que aceitam um adiamento se os andaluzes considerarem necessário.

Na Espanha, a rodada do próximo final de semana terá luto em todas as partidas. O Real Madrid ainda cancelou a edição 2007 do Torneio Santiago Bernabéu, amistoso que organiza todo ano pouco antes do início da temporada (neste ano, o adversário era o Sporting). O Barcelona não fez o mesmo com seu Torneio Joan Gamper (também um amistoso de pré-temporada) em que enfrenta a Internazionale, mas cancelou as festas pré-partida e ainda prometeu destinar 10% da renda do jogo à pesquisa contra doenças cardiovasculares.

As atitudes, sobretudo a do Real Madrid, podem parecer exageradas, mas refletem o baque psicológico que foi a morte de Puerta. O fato de o lateral do Sevilla sair de campo andando deu a falsa sensação de que seu problema era contornável. Ledo engano. A situação era grave e já havia precedentes. Segundo o companheiro de time Luís Fabiano, Puerta desmaiou duas vezes durante treinos. Os médicos nada detectaram na oportunidade, mas ficou evidente que o lateral não estava bem.

Por enquanto, não há clima de caça às bruxas. A morte será investigada, mas não há um clamor da opinião pública por punições ao clube ou a seus médicos como ocorreu no caso Serginho. O caso particular de Puerta pode levar à conclusão – os relatórios iniciais apontam para isso – de que o problema era de difícil diagnóstico e que os médicos do Sevilla não são culpáveis. Se for identificada alguma responsabilidade, os envolvidos devem ser punidos, claro, mas é preciso ir mais longe, olhar de modo mais amplo.

São cada vez mais comuns os casos de jogadores morrendo de ataque cardíaco em partidas ou treinos. Os mais conhecidos são os de Puerta, Serginho, o camaronês Foé, o brasileiro Cristiano Júnior (que defendia o Dempo, da Índia) e o húngaro Fehér (do Benfica). Todos esses nos últimos quatro anos. Ainda houve vários outros em times de divisões inferiores ou em categorias de base.

Não era assim há alguns anos e fica difícil crer que se trata apenas de “coincidência”. Fifa, confederações continentais e federações nacionais deveriam levar mais a sério esse fenômeno e realizar pesquisas aprofundadas para o motivo de tantas mortes. Pode ser estresse, excesso de jogos e efeitos colaterais de suplementos, entre outras explicações possíveis, que agravam a situação de jogadores que problemas cardíacos que seriam inofensivos em outro cenário.

Enquanto isso não ocorre, resta ao futebol ver mais um jogador morrer de forma difícil de aceitar. Com apenas 22 anos, uma partida pela seleção espanhola e esposa grávida de seu primeiro filho, a carreira e a vida pessoal de Puerta apenas começavam. Subitamente, tudo isso acabou. Como acabou – ao menos temporariamente – a vontade de os espanhóis encararem o futebol apenas como uma brincadeira divertida e inocente.

Ubiratan Leal

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