Cada história sempre tem várias versões, mas invariavelmente a que se eterniza é a dos vencedores. No caso da Copa América 2007, a brasileira. Mais que isso, a de Dunga e dos jogadores que vestiram a camisa verde-amarela na Venezuela. Se for para ser assim, a campanha do Brasil foi ótima, com uma derrota na primeira partida e o time melhorando a medida em que alterações foram realizadas e os jogadores ganharam ritmo. O processo culminou com uma gloriosa vitória por 3 x 0 sobre a Argentina, mostrando que, na “hora H”, o Brasil é maior que todos. Muitos aceitaram essa versão e ficarão felizes com ela.
No entanto, a realidade foi outra. O Brasil começou a Copa América sem esquema tático e preparo físico. Não havia criatividade e os atacantes não funcionaram. Dunga tentou trocar de jogadores, mas claramente o problema não eram os nomes. Diego e Anderson, não fazia diferença quem armava. Afonso Alves e Vágner Love, também era indiferente o centroavante (infelizmente, o melhor atacante que o Brasil levou à Venezuela, Fred, se machucou em um treino). O erro estava no esquema.
Esse equívoco não é perdoável. O Brasil teve 10 dias em Teresópolis, mais alguns em Puerto La Cruz e uma série de amistosos desde o empate com a Noruega na estréia de Dunga, para acostumar o time a jogar no 4-5-1, com dois meias abertos caindo pelas pontas. Esse tempo também serviria para recuperar um pouco da forma física de jogadores que já estavam descansando pelo fim da temporada européia, como Alex, Juan, Doni e Júlio Baptista.
Nada disso aconteceu. O time andou em campo contra o México, vencia o Chile em um sofrido 1 x 0 até Robinho falsear a realidade com dois gols no final e bateu o desmotivado Equador com uma apresentação sofrível. O Brasil passou de fase, mas não deixara nenhum legado. No máximo, o fato de jogadores como Diego e Anderson estarem injusta e precipitadamente queimados com Dunga.
Contra o Chile, nas quartas-de-final, o Brasil convenceu. Ainda que os chilenos claramente estivessem fora de sintonia pela gandaia da noite anterior, uma vitória de 6 x 1 sempre tem algum mérito. No caso, o de Júlio Baptista ter conseguido conectar meio-campo e ataque.
Ainda assim, a Seleção voltou a apresentar problemas contra o Uruguai. Nâo conseguiu impor seu ritmo e se viu encurralada muitas vezes pela correria e determinação charrúa. Os brasileiros só passaram porque Pablo García desperdiçou um pênalti decisivo. O que acaba com qualquer argumento de quem ache que o Dunga planejou arrancar no final, porque não dá para imaginar que o técnico programou que o volante celeste acertaria a trave na cobrança de pênalti que eliminaria o Brasil.
O cenário mudou completamente na decisão. O Brasil voltou a se posicionar de modo mais ofensivo (Júlio Baptista à frente e Elano como meia) e o time se soltou. Aí, sim, conseguiu uma vitória sem contestações sobre um adversário qualificado. A superioridade brasileira foi tamanha que a Argentina sequer conseguiu lutar. O time esteve apático diante da marcação brasileira, aceitando a derrota como algo inevitável diante do cenário que se apresentara.
A vitória na final foi brilhante, mas não deve apagar os erros durante boa parte da trajetória brasileira, e sim, mostrar que sempre é possível melhorar e buscar o rumo correto. Se o Brasil se cegar, pode ser como o título da Copa América de 1989, conquistado com campanha empolgante no final, mas que obstruiu a visão de todos para os erros daquele projeto que culminou com o vexame na Copa do Mundo do ano seguinte. Com derrota para a própria Argentina.
Ubiratan Leal