Ao vencer a República Tcheca na final do Mundial Sub-20, a Argentina chegou ao quinto título nas últimas sete edições do torneio. De todos esses times campeões, o de 2007 é potencialmente o mais fraco. Enquanto o Brasil, que caiu nas oitavas-de-final, tinha uma de suas gerações mais promissoras, com jogadores como Alexandre Pato, Renato Augusto, Carlos Eduardo, Willian, Marcelo, Jô, Luisão, Eduardo Ratinho e Cássio. Sinal de como a fórmula de contar só com o talento não é suficiente.
Nas categorias de base, os jogadores ainda não lapidaram completamente suas noções táticas e técnicas. Muitas vezes falta o jogador veterano que comanda e dá ritmo ao time e as defesas são mais frágeis pela falta de experiência de defensores e goleiros, muitas vezes precipitados ou mal posicionados. Desse modo, a habilidade acaba tendo um peso mais forte do que em jogos adultos.
Por isso, o Brasil sempre teve grande sucesso nos Mundiais Sub-20 e Sub-17. Mesmo quando coletivamente a equipe tinha problemas, a capacidade individual de cada jogador compensava e a Seleção se tornou uma potência também nessas categorias. Tudo ótimo, mas o futebol evolui e a CBF involui.
Até a década de 1990, as seleções sub-20 e sub-17 ainda contavam com treinadores minimamente experientes no futebol. Ou no profissional, ou no trabalho em categorias de base. Esse técnico certamente tinha condições de identificar o potencial dos atletas e montar um time minimamente organizado para que as individualidades se sobressaíssem.
Isso não ocorre mais. Nos últimos anos, torno-se regra o comandante de equipes de base do Brasil serem desconhecidos. Os motivos de tais escolhas nunca são muito claros, mas quase sempre tais técnicos estão ligados a membros da direção da CBF. Um fenômeno que ficou patente em 2007. O Brasil ganhou o Sul-Americano Sub-20, mas apresentou um futebol capenga e completamente irregular, com atuações pífias em alguns momentos. No Sul-Americano Sub-17, a situação foi ainda mais drástica, com classificação na primeira fase apenas no saldo de gols e arrancada no final.
Era difícil imaginar que uma equipe sem a menor lógica coletiva pudesse ir longe no Mundial Sub-20. O grande leque de talentos era mal aproveitado, com alguns jogadores inexplicavelmente no banco de reservas e indefinição sobre quais os 11 titulares. Para piorar, as seleções de outros países já mostram mais preparo e maturidade tática. Jogadores que sabem onde devem ficar em campo, jogadas ensaiadas, troca de posições, marcação pensada de modo que anule o adversário... Estados Unidos e Espanha ganharam do Brasil principalmente por isso.
A Argentina, mesmo tendo em Agüero talvez o único jogador que possa virar craque, conseguiu se organizar entre o fraco Sul-Americano Sub-20 que fez em janeiro e o Mundial da categoria em julho. Fez o que a CBF jamais pensou, ainda mais considerando que o projeto argentino foi implantado há mais de uma década, ainda com José Pekerman de técnico.
No final das contas, o Brasil continuará revelando jogadores. A geração atual é bastante talentosa e tem totais condições de estourar nos próximos anos. Mas, se a Seleção quiser ser uma força em torneios de base, precisa levá-los a sério.
Ubiratan Leal