A Sportv abriu três canais quase que exclusivos para a cobertura dos Jogos Pan-Americanos. A ESPN Brasil tinha toda sua grade dedicada ao evento, além de alguns horários na ESPN (ex-ESPN Internacional). A Bandeirantes tem seu espaço na TV aberta e a BandSports. Nem assim, com canais alternativos, a televisão sai do dogmatismo e das estratégias mais fáceis na cobertura do Pan. Assim, a cobertura é repetitiva, com os mesmos eventos em vários canais e pouca oportunidade de ver algo realmente diferente.
O caso mais absurdo é o das entregas de medalhas aos atletas brasileiros. Em alguns casos, os três canais da Sportv as estavam transmitindo. Então, qual o objetivo de ter os três canais? Não era justamente para poder mostrar coisas diferentes ao mesmo tempo? Seria aceitável se fosse um caso isolado. Mas não. E a emissora esportiva da Globosat não é a única pecadora.
Quando a Bandeirantes transmitia um evento ao vivo, a BandSports poderia aproveitar para apresentar outro. De preferência, algum esporte inusitado que o telespectador raramente tem oportunidade de ver e seria atraído pela curiosidade. E não faltam modalidades interessantes nessa categoria, como ciclismo, esgrima, luta e badminton. O mesmo vale para a ESPN Brasil.
Esses esportes raramente têm espaço na mídia. Com alguma razão, pois não são populares no Brasil e o público rapidamente mudariam de canal se houvesse a transmissão de alguma competição deles. No entanto, Jogos Olímpicos e Jogos Pan-Americanos mudam essa lógica. O fato de haver alguém bem identificado para torcer (o atleta ou time brasileiro) e o próprio “clima olímpico” deixam o telespectador mais flexível e com boa vontade para aprender coisas diferentes.
Claro que os eventos que envolvem equipes ou atletas brasileiros em futebol, futsal, basquete, vôlei, natação e atletismo devam ter preferência. Ainda assim, sobram vários “buracos” na programação, horários em que nenhuma dessas modalidades apresentam algo interessante para ser transmitido. E é aí que entrariam os esportes alternativos.
Para piorar, a transmissão dos esportes tradicionais nem é feita de modo completo. O oba-oba em cima dos braisileiros levam a situações surreais, como comparar Thiago Pereira (um grande nadador sem dúvida) com Mark Spitz (um mito da modalidade). Nem o brasileiro tem essa pretensão e ele sabe que só ultrapassou o norte-americano em ouros pan-americanos, não em conquistas no geral. Ou seja, informações fundamentais para entender o real nível técnico da competição ou valorizar os atletas de outros países rareiam.
Paciência. Por falta de boa vontade ou de planejamento, uma boa oportunidade está sendo desperdiçada. E o público, mesmo sem perceber, limita sua cultura esportiva um pouco mais.
Ubiratan Leal