Vôlei, basquete, atletismo, natação, judô, beisebol e até nado sincronizado. Nas duas semanas de Jogos Pan-Americanos, não faltarão opções de esportes para o torcedor que ficar diante da TV (ou, para os cariocas, o torcedor que decidir ver os eventos ao vivo). No meio de tantas modalidades, há espaço até para o futebol. E, claro, haverá uma cobrança pela medalha de ouro. De fato, o Brasil tem boas chances no masculino e no feminino. A prioridade, porém, é outra. Para as duas equipes.
Ricardo Teixeira e Carlos Arthur Nuzman nunca foram grandes amigos. De certa forma, eles se consideram concorrentes. Ambos tentam usar o poder e influência que o esporte propicia para organizarem grandes eventos (Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos) e ganharem mais poder, influência e dinheiro. E, na cabeça de ambos, se um tem sucesso, acaba ganhando as atenções – e recursos – que naturalmente iriam para o outro.
Assim, Nuzman não morre de amores pela idéia de o Brasil organizar a Copa do Mundo de 2014. O torneio de futebol exigiria muitos recursos financeiros e dificilmente haveria investidores – privados ou públicos – dispostos a bancar os Jogos Olímpicos de 2016, sonho do presidente do COB. O oposto vale para Teixeira. O presidente da CBF vê o Pan como meio de legitimação das pretensões olímpicas do Rio de Janeiro e um eventual sucesso do evento continental faria o governo ter de se dividir entre Copa 2014 e Olimpíadas 2016.
Desse modo, um faz o possível para atrapalhar a vida do outro. Por exemplo, o Co-Rio (Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos de 2007, uma extensão do COB e também presidido por Nuzman) não teve o menor pudor de pedir o Maracanã com semanas de antecipação para os ensaios da cerimônia de abertura. Com isso, atrapalhou o andamento do Campeonato Brasileiro.
A CBF também fez das suas. No torneio de futebol, a confederação adiou a definição de que seleções participariam da competição, que correu o risco de ser vexatoriamente cancelada. Enfim, a entidade aceitou montar uma seleção para o Pan. Mas apenas uma sub-17, sem nenhum jogador de destaque. Além disso, fez que as outras seleções da Conmebol enviassem também times sub-17 e os da Concacaf disputassem com sub-20. No feminino foi a equipe principal.
As escolhas evidenciaram que, para a CBF, o Pan-Americano só tem uma função do ponto de vista técnico: preparar a seleção masculina sub-17 e a feminina principal para os importantes torneios que participarão em breve. No caso, o Mundial Sub-17 da Coréia do Sul (18 de agosto a 9 de setembro) e a Copa do Mundo Feminina da China (10 a 30 de setembro). Nesse aspecto, o Pan veio a calhar. De resto, não há, por parte da CBF, compromisso real com a medalha de ouro.
O engraçado é que o Brasil tem boas chances de levar dois ouros no futebol pan-americano. A seleção masculina, apesar de estranhamente só ter um não-carioca no elenco (o corintiano Lulinha), tem talento de sobra para encarar até os sub-20 da Concacaf. Até porque o México, supostamente o principal adversário, separou sua seleção sub-20 principal para o Mundial do Canadá. No feminino, os Estados Unidos estão com o time B no Rio de Janeiro, pois o principal já se prepara para a Copa do Mundo. Assim, como ocorreu em Santo Domingo 2003, o Canadá fica como principal concorrente ao título brasileiro.
Deixando de lado o orgulho nacional de ter um ou outro ouro a mais no quadro de medalhas, o título no futebol é secundário. Os mundiais femininos e o sub-17 masculino são realmente mais importantes e eventuais derrotas não serão cobradas. Até porque competições como Jogos Olímpicos e Pan-Americanos servem também para que a mídia e os torcedores finjam que se importam com os esportes amadores.
Ubiratan Leal
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