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6/07/07

Histórias

Muitos sonhos, pouca coisa concreta

Clube dos 13_logo.jpg

A CBF estava em profunda crise financeira e institucional no primeiro semestre de 1987. Octávio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid brigavam pelo poder da entidade e confusões no Brasileirão de 1986, com posterior disputa judicial com o CND (Conselho Nacional de Deportos) enfraqueceram a confederação. A saída, desesperada, foi abdicar da organização da Copa Brasil (nome do Campeonato Brasileiro na época) daquele ano. Era o que faltava para os clubes se unirem definitivamente e criarem sua associação: o Clube dos 13, que completa 20 anos neste mês.

O processo que levou ao surgimento do grupo é mais longo do que a possibilidade de não haver Brasileirão em 1987. Naquela época, o Brasil vivia a expectativa da elaboração de uma nova Constituição. Assim, todos os setores se organizavam, aprontando seus lobbies para terem força na Assembléia Constituinte que promulgaria a Carta Magna no ano seguinte. Não foi diferente com os clubes.

A principal reivindicação dos cartolas era ter mais autonomia. Na época, a Constituição definia como deveria ser a composição diretiva de todos os clubes, incluindo a relação de sócios, conselho e presidente. Essa lei não reconhecia as diferentes realidades de clubes com grandes times de futebol e outros, pequenos, puramente sociais. Os dirigentes atingiram seus objetivos em Brasília e a idéia de que, unidos, os clubes teriam força ficou mais clara.

Ainda no primeiro semestre de 1987, a CBF acertou uma excursão da Seleção à Europa, onde enfrentaria Inglaterra, Irlanda, Escócia, Finlândia e Israel. Seriam os primeiros jogos do Brasil desde a eliminação da Copa de 1986. O Flamengo de Márcio Braga e o São Paulo de Carlos Miguel Aidar não gostaram da possibilidade de perderem seus principais jogadores por duas semanas no meio da temporada.

Rubro-negros e tricolores pediram ao CND que revogasse a convocação. Mais uma vez, os clubes tiveram sucesso. Márcio Braga não teve pudor em desafiar a CBF, saindo da reunião afirmando que era o fim do autoritarismo no futebol brasileiro. De fato, o flamenguista manteve sua posição. O São Paulo acabou cedendo Nelsinho, Silas e Müller para os jogos do Brasil.

Tudo mostrava aos clubes que era viável se unir. Assim, quando a CBF desistiu de organizar a Copa Brasil, a reação imediata das equipes foi buscar suas próprias soluções. Carlos Miguel Aidar conversou com Márcio Braga e outros dirigentes para propor a criação de uma associação de clubes.

A proposta foi de formar uma espécie de liga, apenas com times de apelo popular. Os escolhidos foram os grandes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Aidar consultou Manuel Tubino – presidente do CND e entusiasta da idéia –, que sugeriu o convite a um clube nordestino para que a nova entidade não ficasse com a imagem de elitista.

Clube dos 13_fundacao.jpg

Estava formada a União dos Grandes Clubes Brasileiros. A missão da entidade era bem ampla: entender e tratar o futebol como atividade econômica; valorizar o produto futebol; intercambiar experiências com entidades desportivas internacionais; resgatar e promover a paixão/cultura do futebol; melhorar a imagem dos dirigentes de futebol; transformar as competições em espetáculo de alto nível; fazer do futebol a referência de paixão e lazer da população; buscar novas receitas para os clubes; formar parcerias que contribuam para a manutenção e desenvolvimento dos clubes; participar de todos os foros institucionais onde se busquem novos caminhos para o futebol brasileiro; promover e coordenar atividades que estimulem o aprimoramento organizacional dos seus filiados; e criar e integrar movimentos de relevante interesse social da população brasileira, como foi a Campanha Nacional Anti-Drogas.

O objetivo imediato da entidade era organizar o Brasileirão de 1987. pela primeira vez (talvez única), o torneio foi tratado como produto, com licenciamento da marca e cuidado para promover cada rodada como se fossem grandes eventos. Houve problemas, como a exclusão de equipes que mereciam ter lugar por critérios técnicos e a disputa judicial com a CBF pelo reconhecimento do Módulo Amarelo. E, no surgimento de atritos, a entidade começou a se perder.

Em 1988, a Copa União já tinha a marca da CBF. Aos poucos, o Clube dos 13 perdeu a filosofia revolucionária e tratou apenas de atender a necessidades menos nobres de seus filiados. Ao invés de defender a profissionalização do futebol, a associação lutou apenas pela negociação de direitos de transmissão e eventual lobby por viradas de mesa. Ainda que tivesse aumentado de tamanho – Atlético-PR, Coritiba, Goiás, Guarani, Portuguesa, Sport e Vitória foram admitidos na década de 1990 –, o Clube dos 13 parece cada vez mais um coadjuvante. Sinal de como, em 20 anos, uma boa idéia foi estragada.

Ubiratan Leal

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