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20/07/07

Histórias

Faz 70 anos, e o reconhecimento não vem

Levante 1937.jpg

O Levante é um clube de poucas alegrias. Ofuscado pelo vizinho Valencia, suas participações na primeira divisão são tão raras quanto sofridas. Até porque o destino invariavelmente é lutar para fugir do rebaixamento. Enquanto isso, sua única glória real faz 70 anos e, apesar dos vários pedidos de reconhecimento, até hoje não é considerada oficial. Por motivos mais políticos do que esportivos.

Na década de 1930, a Espanha vivia uma violenta guerra civil, em que republicanos combateram contra militares nacionalistas que, liderados pelo general Francisco Franco, haviam tomado o poder em um golpe de Estado em 1936. À medida que os combates seguiam, o país era dividido entre os territórios dominados por nacionalistas e republicanos.

Claro que isso afetou o futebol. Em um cenário desse, não era possível realizar o Campeonato Espanhol. Assim, o lado republicano tratou de realizar seus torneios, contando apenas com os clubes que estivessem sob seus domínios (basicamente, os da costa sul). Duas competições regionais já existentes na região, os campeonatos de Catalunha e Levante (Valencia e Murcia), não foram interrompidas.

No entanto, esses eram dois torneios pequenos. O principal, que supostamente substituía o Campeonato Espanhol, era a Liga do Mediterrâneo. A competição foi disputada por Athletic Castellón, Barcelona, Espanyol, Gimnástico de Valencia, Girona, Granollers, Levante e Valencia. As equipes se confrontaram em pontos corridos, sendo que os quatro primeiros teriam direito a disputar a Copa de la España Libre, também chamada de Trofeo Presidente de la República e Copa de la Republica, no que seria uma versão republicana da Copa do Presidente (nome da Copa da Espanha antes da Guerra Civil).

O Barcelona confirmou seu favoritismo e ganhou a Liga do Mediterrâneo com folga. Os blaugranas perderam apenas uma partida (0 x 2 contra o Girona) e fizeram 20 pontos, um a mais que o rival Espanyol. Girona e Valencia terminaram com 17 e o Levante, com 16. Gimnástico, Granollers e Athletic Castellón ficaram com as três últimas posições.

Desse modo, Barcelona, Espanyol, Girona e Valencia conquistaram as vagas para a Copa da Espanha Livre. Seria mais um dos infortúnios do Levante se o Barça não tivesse outros planos. Ao invés de disputar a copa da Espanha republicana, os blaugranas decidiram excursionar por México e Estados Unidos. O motivo era nobre: o dinheiro arrecadado nos amistoso seria destinado às tropas republicanas, como os bascos também faziam.

Com a desistência barcelonista, a Copa da Espanha Livre abriu espaço para o Levante, quinto colocado na Liga do Mediterrâneo. Na primeira rodada, o Valencia surpreendeu o Espanyol em Barcelona, enquanto que Levante e Girona ficaram no empate. Em seguida, os espanyolistas golearam no duelo catalão com o Girona (6 x 3), enquanto que o Levante fazia algo parecido com o Valencia (4 x 0).

A goleada no dérbi valenciano deu ânimo aos azulgranas. Nas três rodadas seguintes, os levantistas golearam duas vezes (4 x 1 no Espanyol e 5 x 2 no Valencia) e empataram com o Girona. Com isso, asseguraram a vaga na final (reservada aos dois primeiros colocados) com uma partida de antecipação. O adversário foi o Valencia, que terminou com melhor saldo e gols que o Espanyol.

Levante_logo.jpg

Apesar de a decisão reunir duas equipes de Valência, o jogo estava programado para Barcelona em 18 de julho de 1937. Em campo neutro, o Levante manteve a boa fase diante do rival e venceu o dérbi valenciano (1 x 0) pela terceira vez em pouco mais de um mês. Mesmo entrando no torneio por desistência de outro participante, o Levante conquistava seu único título até hoje.

A festa foi grande em Valencia. Para que o Levante pudesse comemorar diante de sua torcida, o Valencia aceitou realizar um amistoso em seu estádio. Mais uma vitória granota por 1 x 0. Uma última alegria antes de o sofrimento da guerra se agravar.

Nos meses seguintes, as tropas nacionalistas ganharam mais espaço e se tornou impossível continuar com torneios de futebol por todo o sul da Espanha. A Liga do Mediterrâneo e a Copa da Espanha Livre não tiveram continuidade e, em 1939, a Guerra Civil Espanhola terminou com vitória dos franquistas.

Como era de se esperar, o novo governo não fez a menor questão de reconhecer os torneios disputados pelo lado republicano. Até poder-se-ia argumentar que não dá para conceder valor nacional a um título que teve times de uma região. No entanto, o Troféu do Generalíssimo de 1939 não contou com equipes de Astúrias, Castela, Catalunha, Extremadura, Ilhas Canárias, León, Murcia e Valencia e seu campeão (Sevilla) é reconhecido como o primeiro vencedor da Copa da Espanha (atual Copa do Rei) após a Guerra Civil. Outro argumento dos granotas é que a Liga do Mediterrâneo tinha as melhores equipes de um Estado constituído legitimamente. Por mais debilitado que estivesse.

Uma discussão dessa natureza rapidamente deixou de ser esportiva. O reconhecimento do título do Levante se tornou uma forma de manifestar repúdio ao franquismo. Partidos de esquerda entraram com pedido no Congresso para que a Copa da Espanha Livre fosse reconhecida como a Copa da Espanha de 1937. Ainda não obtiveram resposta. A RFEF (federação espanhola) se cala, até porque é sabida a ligação de sua direção com o franquismo.

Enquanto isso, resta à torcida granota levar faixas ao estádio Ciutat de Valencia e protestar. Afinal, são poucas as glórias do clube que nenhuma pode ser esquecida. Mesmo as não-oficiais.

Ubiratan Leal

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