Semana de 9 de julho faz algumas pessoas se lembrarem de que o Estado de São Paulo entrou em conflito armado com o resto do Brasil. E, agora, faz 75 anos da Revolução Constitucionalista. Um conflito de motivações político-econômicas, mas até hoje é vista por muitos como uma suposta tentativa de independência dos paulistas. Polêmicas históricas à parte, o que aconteceria com o futebol se São Paulo se separasse do Brasil?
Como o futebol brasileiro era concentrado em Rio de Janeiro e São Paulo, a força se dividiu pela metade. Para a Copa do Mundo de 1934, isso prejudicou a campanha da seleção brasileira, que, sem os paulistas, perdeu – e foi eliminada – logo na estréia contra a Espanha. São Paulo não participou do torneio, pois estava se recuperando do conflito armado de dois anos antes.
Em 1938, o Brasil já tinha uma seleção mais forte, com destaque para Leônidas. O atacante se tornou artilheiro da competição e os brasileiros chegaram às semifinais, quando perderam da Itália. São Paulo, mais uma vez, ficou de fora.

A rivalidade começou a crescer a partir da década de 1940. Os paulistas, com a profissionalização do esporte e um campeonato nacional forte, ganhavam espaço. Como em outros países sul-americanos, a concentração de clubes na capital do país era grande, com Corinthians, São Paulo, Palestra Itália, Portuguesa, Juventus, São Paulo Railway, Comercial e Ypiranga. Ainda assim, o interior começou a ganhar força, sobretudo as capitais de províncias Campinas, Santos, Ribeirão Preto, Sorocaba e Araraquara.
No Brasil, não havia condições econômicas para organizar um torneio verdadeiramente nacional. Assim, surgiu o torneio Rio-Minas entre as maiores equipes dos dois Estados. Bahia e Pernambuco eram forças secundárias, enquanto que Rio Grande do Sul e Paraná despertavam desconfiança pela proximidade cultural com os “italianos” de São Paulo.
Para 1950, São Paulo entrou na disputa com Argentina e Brasil para sediar a Copa do Mundo. Os brasileiros venceram a concorrência e organizaram o evento. Por despeito, argentinos e paulistas decidiram boicotar o torneio.
O Brasil teve problemas internos na Copa. Os mineiros acusaram a CBD de montar uma seleção carioca, sem dar espaço a jogadores do como Zé do Monte, Carlyle e Kafunga, todos do Atlético. Tanto que o único resultado ruim do Brasil na primeira fase foi contra a Suíça, justamente a partida disputada no Mineirão, estádio construído em Belo Horizonte especificamente para o Mundial.
Na fase final, toda ela no Maracanã, o Brasil deslanchou. Venceu Espanha e Suécia e só precisava de um empate contra o Uruguai para ficar com o título. No entanto, perdeu por 2 x 1. O jogo até hoje é lembrado pelos brasileiros com tristeza, que pensam que, se tivessem um goleiro como o paulista Barbosa, não teriam sofrido o segundo gol uruguaio.
O estágio técnico do futebol de São Paulo era uma incógnita. Imaginava-se que seria bom, pois era competitivo com o brasileiro antes da independência e havia nomes de talento em clubes como Corinthians, São Paulo, Palestra Itália e Santos. A primeira competição internacional dos paulistas foi o Sul-Americano de 1955 no Chile.
São Paulo contava com talentos como Juninho Botelho, Baltazar, Cláudio, Luizinho, Coutinho, Dino Sani, De Sordi, Roberto Belangero, Bauer, Djalma Santos e Barbosa. Os bandeirantes fizeram uma grande campanha, empatando com a Argentina e vencendo Peru, Uruguai, Paraguai e Equador. Uma vitória sobre o Chile na última rodada daria o título a São Paulo, mas os chilenos fizeram valer o mando de campo e venceram por 1 x 0, dando o título aos argentinos.
O esperado primeiro confronto futebolístico entre paulistas e brasileiros só ocorreu no Sul-Americano de 1957. Com uma base mais sólida e uma preparação mais adequada, os paulistas venceram por 3 x 2 em um jogo bastante aguerrido e até violento. Foi o impulso necessário para dar confiança a São Paulo, que conseguiu passar por Uruguai e Paraguai nas Eliminatórias da Copa de 1958, assegurando sua estréia no cenário mundial.
Havia uma grande expectativa a respeito das campanhas de Brasil e São Paulo. As torcidas dos dois países queriam superar o rival e impuseram pressão sobre os jogadores. O Brasil ficou no grupo com União Soviética, Áustria e Inglaterra. São Paulo tinha pela frente França, Iugoslávia e Escócia.

Os paulistas sentiram a falta de experiência internacional. Mesmo com um time de talento – a base de 1955 com os acréscimos de Pepe, Bellini, Zito, Gilmar e Mazzola –, os alvinegros perderam para a França devido a desatenções pontuais. Assim, a vitória sobre a Escócia e o empate contra a Iugoslávia não foram suficientes para o time de Vicente Feola passar às quartas-de-final.
O destino do Brasil foi outro. A delegação não estava organizada, mas sobrava talento. Os destaques no início da campanha eram Dida, Castilho, Nilton Santos e Zizinho. Durante a competição, porém, surgiram outras duas estrelas, ambas alvinegras: Garrincha, ponta do Botafogo, e o jovem Pelé, revelação do Atlético-MG. A dupla esteve em estado de graça e conduziu o Brasil a um inédito título mundial sobre a Suécia.
Quatro anos mais tarde, o cenário mudou. Garrincha estava em seu melhor momento, mas Pelé se contundiu logo no segundo jogo. Amarildo foi um grande substituto, mas a equipe não tinha mais o mesmo brilho.
Entre os paulistas, a situação era diferente. Paulo Machado de Carvalho fez um planejamento detalhado para São Paulo chegar ao Chile com chances de título. Entre 1960 e 1962, os bandeirantes fizeram várias excursões à Europa, ganhando experiência internacional. Isso fez diferença na primeira fase, em que São Paulo ficou à frente de Uruguai e Iugoslávia.
Nas quartas-de-final, o Brasil venceu a Inglaterra em grande atuação de Garrincha, enquanto que os paulistas passaram pela Alemanha Ocidental com gols dos santistas Pepe e Coutinho. Pela primeira vez na história, havia três sul-americanos nas semifinais da Copa.
O Brasil assegurou seu lugar na decisão após vencer o Chile com dificuldade: 2 x 1. São Paulo tinha a forte Tchecoslováquia pela frente e só passou (1 x 0 na prorrogação) devido a um gol nos minutos finais de Jair da Costa. Esse resultado colocou os paulistas de vez como uma das potências da América do Sul.
Seria a terceira final sul-americana na história dos Mundiais. Essa, como a de 1930 entre Argentina e Uruguai, tinha grande rivalidade das duas equipes. A imprensa falava em duelos por posições, comparando os dois times. Castilho x Gilmar. Mauro x Bellini. Vavá x Coutinho. Zagallo x Pepe. Garrincha x Julinho não ocorreu, pois o botafoguense foi expulso contra o Chile e Paulo Machado de Carvalho atravessou a manobra de bastidores que absolveria o ponta e o daria condições de jogo para a final.
O encontro começou muito nervoso. Os brasileiros confiavam na presença de Garrincha e sentiram a ausência do jogador. Como Zagallo fora anulado por Djalma Santos, Amarildo e Vavá concentraram as ações ofensivas e, em uma tabela de ambos, abriram o marcador. Pouco depois, os paulistas empataram com um chute de longa distância de Pepe. O empate seguiu até os 40 minutos do segundo tempo, quando Pepe, grande destaque da partida, fez lançamento preciso para Julinho, que recebeu na direita, fechou pelo meio e fez o gol do título de São Paulo.
A derrota para o principal rival provocou uma grande crise no futebol brasileiro. Naquele momento, Minas Gerais ganhava importância, sobretudo com o Atlético de Pelé – campeão mundial de 1963 – e o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e Piazza. O Botafogo era o único clube carioca a evitar uma total hegemonia dos mineiros.
Para a Copa de 1966, a briga política entre mineiros e cariocas atrapalhou toda a preparação. Aymoré Moreira convocou mais de 40 jogadores, formando seleções alternativas. Nessa confusão, o Brasil não passou pelo Uruguai de Mazurkiewicz e Pedro Rocha nas Eliminatórias. Os paulistas, atuais campeões, foram para o Mundial da Inglaterra como favoritos. No entanto, o time já era veterano e a renovação não fora bem feita. Assim, caíram na primeira fase diante de Hungria e Portugal.
O insucesso no Mundial fez as competições continentais ganharem importância. Santos e Palestra Itália passaram a adotar a mesma estratégia de uruguaios e argentinos, tratando a Libertadores como prioridade na temporada. O Palestra Itália foi campeão em 1968 e o Santos em 1970.
No Brasil, o desenvolvimento do Campeonato Brasileiro – criado em 1964 – fez surgir forças regionais como Internacional, Grêmio, Coritiba e Bahia. Os clubes se tornaram mais fortes, mas ficava mais difícil se concentrar em apenas uma competição. Os resultados continentais não foram dos melhores, mas ajudou a formar uma talentosa geração para a Copa de 1970. Para deleite da torcida brasileira, os paulistas não conseguiram levar o sucesso clubístico à seleção e foram desclassificados pelo Uruguai nas Eliminatórias do Mundial do México.

Com Pelé, Tostão, Jairzinho e Gérson, o Brasil mostrou um jogo de beleza e competitividade. Na final, diante da Itália, os brasileiros venceram por 4 x 0 – maior goleada de uma final de Copa – e ficaram com o título. Até hoje, muitos consideram aquela a melhor equipe de futebol de todos os tempos.
Em 1974, os paulistas novamente ficaram de fora da Copa do Mundo, perdendo a classificação para o Chile. Os insucessos da seleção ofuscaram os títulos entre os clubes, ainda mais depois que o São Paulo também se tornou um campeão sul-americano. O governo militar que comandava São Paulo não gostou da idéia, pois pretendia usar o esporte como forma de desviar a atenção da população.
Assim, São Paulo lançou a candidatura para o país organizar a Copa do Mundo de 1986. Indicando São Paulo, Santos, Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Taubaté, Piracicaba, Sorocaba, Araraquara, Marília e Bauru como sedes, os bandeirantes venceram a concorrência colombiana e foram confirmados como sede do evento. Para o comando técnico, os paulistas contrataram Telê Santana, que montara o Brasil que encantara o mundo (mas perdera para a Itália, que conquistara o tri e, conseqüentemente, a Taça Jules Rimet) em 1982. Foi o primeiro brasileiro a treinar São Paulo.
O problema é que a geração não era das melhores e, à exceção de Careca, Carlos, Casagrande e Silas, não havia grandes talentos na equipe. Foi o suficiente para passar por México, Bélgica e Iraque na primeira fase e pela Bulgária nas oitavas-de-final. No entanto, São Paulo perdeu da Alemanha Ocidental nas quartas-de-final.
O Brasil teve sorte um pouco melhor. O técnico Rubens Minelli manteve a base da Copa de 1982, com Falcão, Zico e Sócrates. Além disso, tinha em Renato Gaúcho um atacante jovem e bastante insinuante pela direita. Além disso, os brasileiros contavam com o apoio da torcida. Tanto que escolheram São José dos Campos como cidade-sede, contando com os cariocas que poderiam atravessar a fronteira para empurrar a Seleção.
Na primeira fase, os brasileiros empataram com a Espanha, mas venceram Argélia e Irlanda do Norte. Depois, passaram pela Polônia em um jogo fácil. Para o duelo contra a França, nas oitavas-de-final, mais de 45 mil brasileiros lotaram o estádio Martins Pereira. Outros 20 mil ainda ficaram do lado de fora. O Brasil saiu na frente com Renato Gaúcho, mas sofreu a virada com gols de Platini e Rocheteau. No final das contas, a Copa do Mundo paulista serviu para consagrar outro país sul-americano: a Argentina de Maradona.
Os títulos mundiais só voltaram na década seguinte. Em 1994, São Paulo montou um time bastante pragmático – os destaques foram Cafu, Zetti, César Sampaio, Neto, Roberto Carlos, Mauro Silva e Márcio Santos – e conquistou seu bicampeonato mundial, colocando as quatro forças sul-americanas (Brasil, Argentina, São Paulo e Uruguai) com dois títulos. Os brasileiros retomaram a hegemonia continental em 2002, com Ronaldo e Rivaldo conduzindo a equipe de Felipão ao tricampeonato.
No âmbito continental, as forças continuaram equilibradas. O Brasil superava os rivais em Copas América (5x2). No entanto, os paulistas tinham mais sucesso na Libertadores, com São Paulo (quatro títulos), Santos (três), Palestra Itália (três), Corinthians (um) e Guarani (um) superando Atlético-MG (2), Cruzeiro (2), Grêmio (2), Internacional (1), Vasco (1) e Flamengo (1).
Para os olhos do mundo, sempre ficou a sensação de que, se os dois países se reunificassem, seria a maior força do futebol mundial. Talvez fosse mesmo.
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Pauta sugerida por Kennito.
Ubiratan Leal
Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.
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