Muita apreensão. O Brasil enfrentou a Venezuela precisando de uma vitória para se classificar para a Copa do Mundo de 2010. Um empate asseguraria a classificação surpreendente aos venezuelanos e, se o Uruguai batesse a Argentina em Montevidéu, nem para a repescagem a seleção de Abel Braga iria. Uma situação constrangedora, que se construíra desde a época de Dunga, com uma série de cinco partidas sem vitória, e continuara com a troca de técnico.
O jogo começou tenso. Kaká, depois de tabelar com Alexandre Pato, abriu o marcador para a Seleção. Alívio em Fortaleza. No final do primeiro tempo, foi a vez de Ronaldinho, em cobrança de falta, ampliar a vantagem. A classificação parecia assegurada e o clima era de tranqüilidade. O que mudaria rapidamente. Aos cinco minutos do segundo tempo, Urdaneta lançou Arango, que tocou na saída de Gomes. Silêncio no estádio, ainda que a classificação estivesse assegurada. A Venezuela pressionava em busca de sua estréia em Copas do Mundo, mas Juan e Alex tiravam todas as bolas alçadas na área. Até que, aos 40 minutos, Rey acertou um forte chute de fora da área, no ângulo de Gomes. Os vinotintos empataram.
Desespero em todo o Brasil. Contando os acréscimos, foram oito minutos de loucura. Ronaldinho, Kaká, Robinho, Rodrigo Arroz... Todos tentavam, de alguma forma, fazer mais um gol. Toyo defendia todas as bolas e o placar não saía daquele incômodo 2 x 2. Resultado agravado pela vitória uruguaia sobre os argentinos. Quando Óscar Ruiz apitou o final do jogo, ninguém podia acreditar. O Brasil estava, pela primeira vez na história, fora de uma Copa do Mundo.
A notícia era tão forte que o impacto imediato foi quase nulo. No fundo, ninguém conseguia acreditar no que ocorrera e preferia ficar na negação. Alguns diziam ser até bom, porque o país poderia pensar em coisas mais importantes no ano seguinte, como as eleições para a sucessão de Lula na presidência. Outros simplesmente diziam ter torcido contra, porque não era possível o Brasil ser desclassificado da Copa pela Venezuela. Mas nada era veemente. Parecia que o futebol simplesmente deixara de ser um assunto no dia-a-dia do país.
O Campeonato Brasileiro de 2009 já tinha terminado com o título do Figueirense, vice-campeonato do Cruzeiro e tetra-14ª posição do Juventude. Os mais conservadores até comparavam a situação, como se Figueirense e Venezuela simbolizassem a morte da “importância da camisa” no futebol mundial. Para o ano seguinte, a média de público dos campeonatos estaduais foi pífia. Para se ter uma idéia, o jogo com melhor público no Estadual do Rio foi um Flamengo x Botafogo visto por 23 mil pessoas no Engenhão. Isso porque era uma partida especial: a estréia de Romário com a camisa do Alvinegro.
O ápice da crise institucional do esporte foi quando a Globo, mesmo com um Corinthians x São Paulo, perdeu do “Domingo Legal” de Celso Portiolli no domingo à tarde. Foi a gota d’água: duas semanas depois, Luís Fernando Lima, diretor de esportes da Rede Globo, anunciou que a emissora abria mão do direito que comprara de transmitir a Copa do Mundo. Eles estariam à venda para quem desejasse.
Foi um enorme burburinho no meio da comunicação. Record e Bandeirantes formaram um consórcio e compraram a Copa do Mundo. Na TV fechada, Sportv, ESPN Brasil e BandSports fizeram o mesmo. Todos se aproveitavam que, como o Brasil ficara de fora, o preço era baixo. Até a MTV tentou tirar uma casquinha. A emissora convocou uma entrevista coletiva para fazer um grande anúncio. Com todo o mercado publicitário presente, Paulo Bonfá e Marco Bianchi informaram que a MTV iria transmitir a Copa. Mas, por falta de dinheiro, passaria apenas os jogos do Brasil. Nem todos gostaram da piada.
Enquanto isso, a Seleção se arrastava. Com craques consagrados internacionalmente como Ronaldinho, Kaká, Alexandre Pato, Sandro Goiano e Lulinha no elenco, era o adversário ideal para qualquer equipe que quisesse se preparar para a Copa do Mundo. Assim, todos os favoritos ao Mundial – Alemanha, Itália, França, Inglaterra e Portugal – marcaram amistosos com o Brasil. Claro, todos os jogos em Londres, exceto o da Inglaterra, realizado em Estocolmo.
No entanto, não havia comando algum. Ricardo Teixeira tentava se desvincular daquele time e se licenciara da presidência da CBF para cuidar da organização da Copa do Mundo de 2014. José Maria Marin assumiu em seu lugar, mas não sabia direito o que fazer e preferiu manter Abel Braga no cargo de treinador. Desmotivado pela iminente demissão, o técnico também não conseguia imaginar esquemas diferentes para uma equipe sem objetivo. O Brasil perdeu de todos os adversários.
Os resultados nos amistosos tiraram ainda mais a vontade da população de ver a Copa. Todos preferiam ver a seleção de Bernardinho no Mundial de vôlei masculino ou torcer por Nelsinho Piquet na luta pelo título da Fórmula 1 contra Sebastian Vettel e Fernando Alonso.
Além da Copa do Mundo, a Globo desistiu de transmitir o Brasileirão, aumentando o espaço do “Domingão do Lucianão”, de Luciano Huck, na grade dominicial. Galvão Bueno se sentiu desprestigiado, voltou a brigar com Luis Fernando Lima e acabou saindo. Foi contratado pela Record, que apostava no narrador para alavancar a audiência. O problema é que, sem o ufanismo para se apoiar, todos perceberam como Galvão Bueno era um narrador chato e a Bandeirantes acabou tendo mais sorte.
A mobilização para o Mundial até que foi decente. Juntas, Record e Bandeirantes tiveram audiência média de 30% nos jogos mais importantes. Os brasileiros se mobilizaram para torcer pelos países mais simpáticos, como Portugal, Camarões, Angola e Itália. No Rio Grande do Sul, a preferência era pela Espanha de Luis Felipe Scolari. Nesse ponto de vista, aliás, até que alguns brasileiros vibraram um pouco, pois Felipão conseguiu o milagre de levar à Espanha ao título, vencendo a Alemanha na final por 3 x 1, gols de Fernando Torres (2) e Puyol.
O Mundial foi um período melancólico no futebol brasileiro, sobretudo porque o campeonato nacional não parou em junho. Com a imagem em baixa, os países europeus foram buscar reforços em outros mercados, como Venezuela e Equador, após a Copa. Desse modo, os clubes brasileiros conseguiam a façanha de terminar a temporada praticamente com o mesmo elenco com que a iniciara.
No final, Palmeiras, São Paulo e Figueirense disputaram o título até a última rodada. Os estádios encheram para acompanhar a corrida pela liderança e a Rede TV bateu seu recorde histórico de audiência com Juventude 1 x 1 Palmeiras, jogo que deu o título aos paulistas e o penta-14º lugar aos gaúchos. São Paulo, Figueirense, Internacional e Marília (esse último pela Copa do Brasil), tinham as vagas na Libertadores.
A Globo repensou seu plano. Era a quinta vez que ela desprezara o futebol – as outras foram o Brasileirão 1990, Copa Libertadores 1992, Copa do Brasil 1995 e Mundial de Clubes 2000 – e a quinta em que um grande paulista levava o título e batia recordes de audiência em São Paulo. Assim, a emissora carioca recomprou os direitos do Brasileirão e do Paulistão. No entanto, Galvão Bueno não tinha mais espaço depois da briga com a direção da empresa. Resultado: Cléber Machado foi promovido a narrador principal e Galvão dividia Terceiro Tempo e Debate Bola com Milton Neves.
Na Seleção, Paulo Autuori acabou contratado como técnico. A CBF tinha medo de esse momento de baixa do futebol afetar os planos para a organização da Copa do Mundo de 2014. O vexame da Seleção fez a entidade perdera força política para chantagear o governo, ainda mais porque todos os candidatos a presidência e a governos estaduais fizeram populismo com a má fase do futebol, prometendo fiscalizar as ações da cartolagem para que novas humilhações não se repetissem.
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Pauta sugerida por um leitor anônimo (caso se identifique, será citado aqui).
Ubiratan Leal
Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.