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6/06/07

Histórias

O futebol segundo os fascistas

Italia_Volata.jpg

Augusto Turati ainda era jovem quando começou a trabalhar no jornal Provincia di Brescia, em que chegou ao cargo de editor. Em 1915, com 27 anos, se alistou no exército para combater pela Itália na Primeira Guerra Mundial. Com o fim dos combates, voltou para Brescia condecorado e começou sua atividade política. Em 1921, entrou no PNF (Partito Nazionale Fascista) e rapidamente se tornou líder na região de Brescia. Cinco anos depois, se tornou secretário nacional do partido e usou al influência para entrar gradualmente no mundo do esporte, justificando sua presença neste texto.

No início, Turati tinha ligações com a esgrima – modalidade na qual chegou a competir –, tênis e atletismo. Foi, inclusive, dirigente das federações italianas desses três esportes. Em 1928, assumiu a presidência do Coni (Comitê Olímpico Italiano, entidade que praticamente rege o esporte na Bota) e, dois anos depois, foi membro do COI.

Uma biografia como essa era perfeita para um projeto inusitado do governo fascista. Mussolini via com contrariedade a rapidez com que o futebol crescia na Itália. Como em boa parte do mundo, a Bota foi apresentada ao esporte pelos ingleses que viviam ou passavam pelo país. Tanto que os primeiros clubes tinham nomes ingleses e eram ligados a comunidade britânica, casos de Genoa e Milan.

Esse fenômeno não ajudava a espalhar a ideologia nacionalista radical de nazistas e fascistas, apesar de ter sido usado. O líder alemão Adolf Hitler não gostava de futebol, mas reconheceu a capacidade de angariar politicamente com o jogo inglês. O espanhol Francisco Franco era adepto do esporte e se aproximou bastante da federação espanhola e do Real Madrid.

Isso não ocorria com Mussolini. O regime fascista usava o passado do Império Romano e o poderio das cidades italianas na Idade Média como se fosse a Itália-nação. Aí, seria inadmissível para Il Duce ver um esporte inglês crescendo no local em que foram criadas modalidades parecidas, como o harpastum (romanos) e calcio fiorentino (Florença medieval).

O governo italiano estava decidido a mudar esse cenário e, no final da década de 1920, chamou Turati. Sua tarefa: criar um tipo de futebol com características mais puras da história italiana, usando características do harpastum e do calcio fiorentino. Assim, o jornalista veterano de guerra criou a volata (“vôo” em português).

O esporte parecia uma mistura de futebol com handebol europeu (jogado em gramado, diferente do handebol de quadra). Cada time tinha oito jogadores, sendo um goleiro. Como no futebol, o objetivo era marcar gols, mas os jogadores de linha podiam pegar a bola com as mãos, desde que não a segurassem por mais de três segundos.

Com a propaganda intensiva do governo, a modalidade teve um rápido crescimento. Em poucos anos, já tinha 100 clubes filiados à liga nacional. No entanto, foi apenas uma moda passageira que jamais conseguiu se tornar uma alternativa viável ao futebol. Na verdade, a volata acabou prejudicando mais o rúgbi (que já era um esporte secundário).

Sem consolidar sua modalidade diante do público, os fascistas abandonaram o apoio oficial à volata em 1933. O novo projeto era explorar politicamente o futebol “normal”, ainda mais porque a Copa do Mundo do ano seguinte seria na Itália e um título ajudaria muito a validar o regime diante da população. Em 1939, o campeonato de volata deixou de ser disputado e o esporte caiu no ostracismo. Como o governo fascista.

*

Depois da passagem por Coni e PNF, Turati gradualmente se afastou do fascismo. Em 1931, ele deixou o partido para assumir a editoria do La Stampa, principal jornal de Turim. Contrário a algumas medidas do governo, o jornalista acabou preso na ilha de Rodes (atual Grécia, mas possessão italiana na época). Voltou a seu país em 1938, abandonando a carreira política para advogar. Mesmo se manifestando contrário à entrada da Itália na Segunda Guerra Mundial, Turati foi julgado depois da guerra. Foi condenado em um primeiro momento, mas recebeu anistia. O criador da volata morreu em 1955, em Roma.

Ubiratan Leal

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