Há alguns anos, José Trajano, diretor de jornalismo da ESPN Brasil, disse que o jornalismo esportivo brasileiro precisava de seu equivalente à Semana de Arte Moderna de 1922. Simplificadamente, ele falava da necessidade de se recomeçar tudo, criando um novo jornalismo esportivo com base em outros parâmetros. Pode parecer um exagero, mas é uma idéia a ser levada em consideração.
Sendo realista, imaginar uma renovação total dos parâmetros do jornalismo esportivo é inviável. Até porque dependeria muito de o público estar preparado para consumi-lo. E, convenhamos, o torcedor brasileiro mal consegue absorver o pouco que há de jornalismo esportivo hoje no país. Então, talvez fosse o caso de imaginar algo mais simples. Como projetos experimentais.
Dois exemplos aparecem bem claros. O primeiro, menos conhecido do grande público, é o “Dogma 95”. Trata-se de um movimento cinematográfico lançado na Dinamarca em 1995. A proposta dos criadores é fazer um cinema mais puro, sem tripés, sons adicionados em pós-produção, cenografia, iluminação especial ou truques fotográficos, entre outras restrições. Desse movimento saiu o premiado filme “Festa de Família” e o diretor Lars von Trier (de “Dogville” e “Manderlay”).

O segundo caso é bem vivo para o brasileiro: o Quadrante. Simplificando, esse projeto prevê a criação de uma nova linha para a dramaturgia cinematográfica brasileira, com resgate de elementos culturais e uso de mão-de-obra (de atores a ajudantes na montagem de cenários) vindos do local onde se passa a história. A Rede Globo faz parte do projeto e veiculará quatro mini-séries do Quadrante. A primeira, transmitida nesta semana, é “Pedra do Reino”, baseada em obra de Ariano Suassuna.
É óbvio que os dois movimentos não mudarão todo o cinema ou a cinematografia brasileira. Mas projetos como esses permitem experimentalismos, busca de novas linguagens e abordagens para algo que já existia. E isso seria viável para a imprensa esportiva. Bastaria algum grande veículo ter boa vontade para bancar a realização de algo diferente.
O que há no momento são espasmos, pequenas tentativas. A Globo é responsável por boa parte delas, como em séries de reportagens como “Andarilhos da Bola”, em que retrata a carreira de jogadores veteranos que já passaram por grandes clubes e continuam na ativa, mesmo em divisões menores, e “Órfãos da Arquibancada”, que retrata a situação dos torcedores de times falidos.
Algumas reportagens do “Esporte Espetacular” e de programas de Sportv e ESPN Brasil também entram nessa linha. Na imprensa escrita, Folha de São Paulo e Placar fizeram coisas nessa linha na década passada, mas mudaram de linha editorial nos últimos anos.
São exemplos mais que válidos. Reportagens diferentes, que buscam abordagens fora do cotidiano (cobertura de treino de grande clube). Pena que ainda são iniciativas isoladas. Seria interessante se surgisse um programa mais duradouro com esse princípio. Algo consistente o suficiente para deixar um legado e se transformar em modelo para parte da imprensa e para as novas gerações de jornalistas. A mesmice atual já cansou.
Ubiratan Leal