Obrigada a casar com Paris, Julieta toma uma poção para simular sua morte e criar uma situação em que conseguiria fugir com seu amado Romeu. Por um problema de comunicação, o filho dos Montecchi crê que sua amante está realmente morta e ingere um veneno mortal. Quando acorda, Julieta vê Romeu morto e se suicida com um punhal. É o fim para o casal, mas a morte de seus filhos faz que as nobres e rivais famílias Montecchio e Capuleto acertem as pazes.
O final de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, simboliza dos amores impossíveis e dos desencontros da vida e valeu à cidade de Verona boa parte de sua projeção internacional. E permite uma metáfora oportuna para a atual fase do futebol da cidade, que viu o Chievo cair para a Serie B e, uma semana depois, chorou a queda do Hellas Verona para a C1. Como se ambos não pudessem se reencontrar para protagonizar um dérbi que poderia reanimar o calcio scaligero.
O tom de decadência pode soar exagerado, mas o Chievo caiu para a Serie B após seis temporadas de futebol digno com recursos escassos. A sensação é de que os clivensi terão muita dificuldade para retornar à elite. Enquanto isso, o Verona caiu para a terceira divisão pela primeira vez em 64 anos e tenta se reconstruir administrativamente. Nunca o clima esteve tão nebuloso para os torcedores da segunda maior cidade do Vêneto.
As duas torcidas sofrem com a falta de apoio para seus times. No caso do Chievo, Luca Campedelli tem todos os méritos pelo sistema gerencial que implantou no clube, mas ele sempre deixou claro que separaria o futebol da Paluani, empresa do setor alimentício da qual é dono.
A situação do Verona é um pouco diferente. O clube foi controlado pela família Pastorello (cujo principal negócio é empresariar jogadores) por anos e afastou investidores, incluindo uma proposta da cervejaria mexicana Corona. O conde Pietro Arvedi – ex-sócio minoritário – comprou todas as ações e mantém o clube em pé, mas não chega a ser um Roman Abramovich e precisa de ajuda para reforçar o elenco de modo a recolocar os gialloblù na elite italiana. Aí, o problema é encontrar alguém disposto a patrocinar um clube com fama de ter torcida racista.
Essa situação é ruim para o futebol italiano porque os dois times foram, nos últimos anos, alguns dos que mais ajudaram a amadurecer talentos emergentes. Da Itália campeã do mundo em 2006, quatro jogaram por times scaligeri: Perrotta (Chievo), Oddo, Camoranesi e Gilardino (Verona). Além desses, também passaram por lá Peruzzi, Filippo Inzaghi, Corradi, Frey, Mutu, Semioli, Amauri, Barzagli, Almirón, Laursen, Legrottaglie, Cassetti, Luciano/Eriberto, Marazzina e Pellissier.
Pelo potencial econômico e a tradição esportiva de Verona, é possível o futebol da cidade se reerguer. No entanto, o cenário é mais favorável para as vizinhas Vicenza e Venezia. O que não ajuda em nada, pois, como disse Romeu ao ser expulso de Verona na obra de Shakespeare, “para fora dos muros de Verona o mundo não existe! Somente existe o purgatório, a tortura, o próprio inferno”.

O Balípodo estava na última edição do derby scaligero, em março de 2002. Deu Chievo: 2 x 1 de virada
*
Aliás, a má fase de Verona é apenas o aspecto mais evidente do mau momento de todo o futebol do Vêneto. Pela primeira vez desde 1994-95, não há clube da região na Serie A. Chievo, Vicenza e Treviso estão na Serie B, enquanto que Verona, Venezia, Padova e Cittadella jogarão a C1 na próxima temporada.
Ubiratan Leal
Textos relacionados
Os burros continuam voando
O milagre faz 20 anos