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18/06/07

E se...

E se a Holanda não tivesse Cruyff?

Holanda_Cruyff.jpg

1974. Após eliminatórias duríssimas, com a classificação sendo obtida após um empate sem gols contra a Bélgica, em Bruxelas, a Holanda voltava a uma Copa do Mundo após um hiato de 36 anos. Prestigiado pela façanha, o tcheco Frantisek Fadrhonc foi confirmado como técnico da Laranja na Alemanha, embora muitos pedissem por Rinus Michels, que vinha fazendo bom papel no Barcelona, embora sem títulos.

Entretanto, Fadrhonc tinha um problema no fato de não possuir um jogador decisivo. Alguém que chamasse a responsabilidade para si nos momentos de decisão. E não era só um problema que se via na seleção batava: os clubes holandeses, embora viessem fazendo boas campanhas na Copa dos Campeões, não tinham jogadores preparados para suportar a pressão que crescia nos momentos finais de uma competição. Isso era uma plausível justificativa para o fato de haver uma sucessão de vices naquele torneio: Feijenoord, em 1970, e o Ajax, nos três anos seguintes.

Sendo assim, Fadrhonc decidiu que inventaria o mínimo possível na hora de convocar os 22 jogadores que iriam ao Mundial e na hora de formar o time titular. Priorizaria o conjunto ao invés das individualidades, chamando os melhores do país em cada posição, na busca de que formassem um time coeso. E não admitiria questionamentos a essa forma de dirigir o time. A mania de planejamento era tanta que se estendia até às coisas mais comezinhas, como o número da camisa dos jogadores. Os goleiros usariam 1, 12 e 22; os zagueiros iriam de 2, 3, 4, 6, 13, 14 e 16; e assim por diante.

Alegres só com o fato de voltarem à Copa, os holandeses não questionaram muito a convocação de Fadrhonc, que foi ajudado pela ausência de contusões no time convocado, bem como pela rápida recuperação daqueles que estavam machucados. Isso resultou na chamada de bons jogadores, como Jan van Beveren, goleiro de performances seguras no PSV, ou de uma dupla de zaga experiente, com Barry Hulshoff e Wim Suurbier, entrosados pelos quatro anos juntos no Ajax. Mesmo os reservas tinham boa qualidade, como Rinus Israel, zagueiro que impunha respeito no Feyenoord, ou Gerrie Mühren, meia habilidoso do Ajax.

Para se ter uma idéia da importância dada pela comissão técnica ao torneio, a federação diminuiu para dez o número de clubes no campeonato daquele ano, de modo a diminuir o número de jogos e deixar dois meses apenas para os treinos com vistas à Copa. Mais surpreendente, os oito clubes retirados do campeonato com a canetada não reclamaram, pela consciência de que o sacrifício valeria a pena. E, com a chegada à Alemanha, o treinador conseguiu, nas semanas de treino, fazer com que os jogadores formassem um time solidário, em que os jogadores tentariam se ater às suas posições dentro de campo, sem muitas invencionices, em busca de formar um todo bem armado.

Enfim chegou o dia da estréia, contra o Uruguai. O time que iria a campo era: Van Beveren; Krol, Hulshoff, Suurbier e Jansen; Haan, De Jong, Rensenbrink e Van Hanegem; Neeskens e Rep. O jogo em Hannover teve um início violento, inclusive com a expulsão de Forlán, que causou uma perda considerável nos planos holandeses, tirando Rensenbrink do jogo com apenas 15 minutos, graças a um carrinho na altura do joelho. Entretanto, os charrúas foram sendo superados aos poucos pelos holandeses, mais habilidosos e com a intenção de resolver o jogo no primeiro tempo. Com o impressionante faro de gol de Rep, não foi difícil chegar ao intervalo com um 3 x 0 no placar, com dois de Rep e um contra de Jauregui. Prejudicada pela atuação opaca de Pedro Rocha, a Celeste Olímpica não conseguiu perturbar Van Beveren. E o jogo ficou nos 3 x 0 mesmo.

Entusiasmados pela boa atuação do jogo de estréia, os jogadores da Holanda se aplicaram ainda mais aos treinamentos, auxiliando-se mutuamente. Essa união se estendia à concentração, na qual os jogadores conviviam amistosamente, sem nenhum entrevero, chegando ao ponto de receber da imprensa holandesa o apelido de “Família Fadrhonc”.

O clima ajudou na performance mais confiante que se observou na segunda partida do grupo, contra a Suécia. Mesmo com o primeiro tempo terminando sem gols, Fadrhonc não se enervou, confiando que o time já ganhara confiança suficiente para conseguir ganhar o jogo no segundo tempo. A confiança deu resultado. Os escandinavos pressionaram muito, mas Van Beveren estava preparado e fez dois milagres. Aí, foi a hora de a Holanda mostrar rapidez no contra-ataque, graças à velocidade de Neeskens, que saiu do próprio campo sozinho, aproveitando um tiro de meta, driblou Hellstroem e fez o gol da vitória, aos 40 do segundo tempo. Festa nas arquibancadas, festa em Amsterdã.

Holanda 1974.jpg

A Holanda conseguia a classificação antecipada para a segunda fase. Mas a abnegação dos atletas era tamanha que nenhum dos titulares aceitou ficar de fora da partida contra a Bulgária. Os reservas aceitaram amistosamente tal fato. Com um ambiente leve, a Laranja viu alguns jogadores crescerem de produção, como Haan, de aplicação férrea na proteção à defesa e habilidade na saída de bola, ou Van Hanegem, com passes milimétricos e classe na armação. Some-se a isso a falta de ambição dos já eliminados búlgaros e o resultado foi um jogo fácil, com um 2 x 0 conseguido tranqüilamente, só não ampliado pela quantidade de chances perdidas e por um certo medo de desestruturar o esquema por parte dos jogadores batavos.

Uma possível resposta para a boa campanha até então estava no ambiente cada vez mais ameno que se observava: titulares e reservas convivendo harmoniosamente, nenhum problema disciplinar e uma encantadora humildade. Após os treinos, os jogadores ficavam disponíveis o tempo que fosse necessário para que os torcedores pegassem autógrafos e tirassem fotos. Nenhum aficionado saía do centro de treinamento sem pelo menos um autógrafo ou até mesmo uma camisa. Mesmo a federação estava impressionada: o assunto das premiações foi resolvido numa reunião de apenas cinco minutos, na qual os atletas disseram que aceitariam a quantia que lhes fosse oferecida. Com isso, o mundo inteiro ganhava simpatia pelos holandeses.

Nem isso evitou que o esquema engessasse mais e mais o estilo de jogo holandês. A estréia contra a Alemanha Oriental foi o chamado jogo duro de se assistir. A Laranja sucumbiu à retranca armada pelos jogadores do lado comunista do muro de Berlim, ao mesmo tempo em que o medo de bagunçar o esquema mostrou uma falta de inventividade assustadora por parte dos holandeses. A previsibilidade chegava ao ponto de já se saber de cor e salteado os jogadores que estariam envolvidos num ataque. A bola começava com Haan, que passava para De Jong, que ia para Rensenbrink, que passava para Van Hanegem, daí para Neeskens... Exasperado com a falta de variações, Fadrhonc trocou Rensenbrink por Willy van der Kerkhof e, aproveitando a habilidade de Krol, adiantou-o para auxiliar Haan no meio, colocando De Jong na lateral. Nada aconteceu. Pior: Krol insistiu em ir para a defesa, alterando o 4-4-2 para um 5-3-2, acabando de vez com a chance de haver algum gol na partida. O empate sem gols até hoje é reconhecido como o pior jogo daquela Copa.

Na partida contra a Argentina, como que castigando a falta de ambição do time, o técnico colocou Rijsbergen – que só tinha dois jogos até então pela Holanda – no lugar de Suurbier e tornou os irmãos Van der Kerkhof, Willy e René, os armadores do time. Mas o burocratismo já vitimara boa parte da delegação. A sorte holandesa foi que os portenhos estavam fragilizados emocionalmente, por causa da morte do presidente Juan Domingo Perón. Só por isso, conseguiram uma goleada: 4 x 0, dois de Rep e dois de Neeskens. Mas o que ficou marcado foi a falta de graça no time. A ponto de ter ficado famosa uma cena, na qual, mesmo após uma falta que os albicelestes cobraram na barreira, os holandeses esperaram, sem marcação, que os sul-americanos recuperassem a bola e chegassem às proximidades da área para só então marcar.

Chegou, então, o maior desafio daquela Copa. A Holanda tinha a chance de chegar à final, mas teria de vencer o atual campeão, o Brasil. Cada vez mais convencido do erro que cometera ao tolher mudanças táticas e individualidades nos treinamentos (chegava a parar os treinos para bronquear com algum zagueiro que fosse tentar a sorte num escanteio ou mesmo que passasse da linha divisória durante um coletivo), pela primeira vez Frantisek Fadrhonc alterou o time titular. E alterou muito: colocou cinco jogadores de uma só vez para enfrentar o time de Zagallo. O time que iniciaria a partida em Dortmund seria: Treytel (terceiro goleiro, só colocado em campo por ter uma leve habilidade no jogo com os pés); Krol, Israel, Hulshoff e Strik; Haan, Van Ierssel, Rensenbrink e Van Hanegem; Keizer e Rep.

Porém, o Brasil vinha, junto da Alemanha Ocidental, mostrando o melhor futebol daquela Copa. Não era revolucionário taticamente, mas se valia da técnica apurada, tendo feito das triangulações entre Rivellino, Paulo César e Jairzinho sua jogada mortal. Sem esquema especial para enfrentar a Holanda, o Brasil apostaria no seu trio de ataque, sendo que Zagallo colocara o time num 4-3-3 (Leão; Nelinho, Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas; Dudu, Ademir da Guia e Rivellino; Paulo César, Jairzinho e Leivinha) ofensivo.

O resultado foi um massacre brasileiro. A inventividade dos jogadores conseguiu vencer facilmente a falta de imaginação dos holandeses. O primeiro tempo terminaria 3 x 0. Como na brincadeira de rua, virou três e acabou seis: 6 x 0. Ademir da Guia se comportou como deveria, sendo o homem que ditava o ritmo do time. Jairzinho e Leivinha se comportaram com oportunismo, marcando duas vezes e trocando as posições no ataque, atormentando a vida de Israel e Hulshoff, que, na tentativa de acompanhar o ritmo brasileiro, acabaram trombando três vezes durante o jogo, causando risos na torcida. Rivellino foi infernal, armando todas as jogadas dos seis gols brasileiros. E Dudu deu tranqüilidade à defesa, repelindo tranqüilamente as tentativas flamengas. Além de tudo, Marinho Chagas se afirmou como um dos melhores laterais daquela Copa, conseguindo se equilibrar perfeitamente entre apoio e marcação. Tanto que, apitado o fim da partida, foi abraçado por Leão, que dizia “eu te amo, eu te amo”.

O massacre foi tanto que os sempre cavalheirescos holandeses perderam a cabeça incontáveis vezes durante o jogo. Keizer, o mais velho daquele time – 31 anos – deu uma cotovelada que tirou dois dentes de Paulo César. Suurbier deu um soco que deixou Dudu desacordado por cinco minutos. E, finalmente, Rijsbergen, que entrou no lugar de Krol, durou apenas dois minutos em campo, sendo expulso após uma voadora em Rivellino. Conscientes da violência demonstrada, os holandeses se desculparam, em entrevistas sinceras (Rijsbergen chegou a chorar numa entrevista ao pedir desculpas a Rivellino), o que aumentou a simpatia com que eram vistos.

O Brasil seguiu para a final contra os donos da casa, que conseguiriam neutralizar as triangulações brasileiras, vencendo por 2 x 0 e conquistando o bi. Já os holandeses terminaram uma campanha que iniciara promissora sofrendo outro 2 x 0, para a Polônia. O trauma daquela campanha persegue até hoje os holandeses, que, com o estilo de jogo manjado pelos adversários, sempre sucumbem nas Eliminatórias, desde então, embora sendo reconhecidos como a seleção mais simpática do mundo, pela educação dos jogadores e pelo espírito esportivo que demonstram em campo. Mas, com relação ao estilo de jogo, o time é conhecido até hoje como “Laranja Robótica”, tal é a falta de criatividade em detrimento do esquema.

Felipe dos Santos Souza (colaboração especial)

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