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12/06/07

Histórias

Copa América 2004

A Copa América do Peru foi originalmente programada para 2003. No entanto, os peruanos pediram mais um ano para se prepararem, no que foram atendidos. Com isso, foi a primeira edição da história da competição sul-americana a ser disputada no mesmo ano de uma Eurocopa, o que permitiu inevitáveis comparações no nível técnico dos dois torneios.

Ao contrário do que ocorrera três anos antes, não houve desistências desta vez. A Argentina reapareceu e os dois países convidados foram México e Costa Rica. O nível técnico melhorou em relação à edição anterior, mas o fato de ser disputado no meio das Eliminatórias para a Copa do Mundo, mais uma vez, prejudicou um pouco. A maior parte das seleções levou seus principais jogadores para ganhar entrosamento, mas Brasil e Argentina – mais o primeiro que o segundo – alinharam reservas para serem testados.

Isso fica claro ao ver alguns dos nomes chamados por Carlos Alberto Parreira. Muitos confirmaram as expectativas e foram para o Mundial. Outros sumiram. Os goleiros foram Júlio César (Flamengo) e Fábio (Vasco). Nas laterais, Mancini (Roma-ITA), Gustavo Nery (São Paulo), Maicon (Monaco-FRA) e Adriano (Coritiba) foram convocados. O miolo de zaga tinha Luisão (Benfica-POR), Juan (Bayer Leverkusen-ALE), Bordon (Stuttgart-ALE) e Cris (Cruzeiro). O meio-campo contava com os volantes Renato (Santos), Kléberson (Manchester United-ING), Edu (Arsenal-ING) e Dudu Cearense (Kashiwa Reysol-JAP) e os meias Alex (Cruzeiro), Júlio Baptista (Sevilla-ESP), Diego (Santos) e Felipe (Flamengo). O quarteto de atacantes foi composto por Adriano (Internazionale-ITA), Luís Fabiano (São Paulo), Ricardo Oliveira (Valencia-ESP) e Vágner Love (Palmeiras).

O Peru entrou na competição se considerando favorito. Era claramente a seleção que levava a competição mais a sério, tinha o apoio da torcida e contava com uma tabela favorável, em que só pegaria Brasil ou Argentina na final (caso as três equipes fossem primeiras em suas chaves). Nada disso aconteceu e a Copa América foi um grande fiasco para os peruanos, agravando a crise da equipe rojiblanca.

Logo na estréia, o Peru precisou de um gol de Palacios aos 41 minutos do segundo tempo para arrancar um sofrido empate em 2 x 2 contra a Bolívia. Os anfitriões só mostraram um futebol convincente na segunda rodada, com vitória por 3 x 1 sobre a Venezuela.

No final da primeira fase, reverteram a derrota por 2 x 0 contra a Colômbia para empatar em 2 x 2. No final da partida, os rojiblancos ainda pressionaram pela vitória, mas tiveram de se contentar com a igualdade e a segunda posição na chave. Os colombianos, que haviam vencido venezuelanos e bolivianos, ficaram na liderança. A Venezuela foi a decepção, terminando na última posição e mostrando um futebol fraco para quem fazia uma boa campanha nas Eliminatórias.

O Grupo B era o mais forte da competição, com as tradicionais forças Argentina, Uruguai e México e o ascendente Equador. No entanto, os equatorianos surpreenderam negativamente e perderam todas as suas partidas. Assim, a disputa realmente ficou entre os demais participantes.

O Uruguai, que se reconstruía sob o comando de Jorge Fossati, contava com um time organizado e de algum talento, apesar de instável. Na estréia, quase venceram o México, sofrendo o gol de empate nos 2 x 2 a três minutos do final. O resultado uruguaio foi mais valorizado depois que os mexicanos venceram a Argentina por 1 x 0, gol de Ramón Morales.

O jogo decisivo da chave foi um dos mais emocionantes e de melhor nível técnico da competição. A Argentina, mesmo com a derrota para o México, tinha o futebol mais ofensivo e envolvente da Copa América. O Uruguai contava com sua raça para tentar a primeira posição da chave.

Logo aos 8 minutos de jogo, Estoyanoff abriu o placar para o Uruguai. Mas não demorou para a maré se voltar a favor da Argentina. Kily González e Lucho Figueroa viraram o marcador e o uruguaio Bizera foi expulso. Mesmo com um jogador a menos, a Celeste conseguiu novo empate, com Vicente Sánchez. Tudo no primeiro tempo.

No segundo tempo, os argentinos pressionaram em busca da vitória, mas a defesa uruguaia se mantinha firme. Apenas nos últimos dez minutos, quando o desgaste dos celestes já era grande, é que a Argentina confirmou sua vitória, com gols de Ayala e Lucho Figueroa.

O terceiro grupo tinha Brasil, Chile, Costa Rica e Paraguai. Com um time novo, sem o menor entrosamento e estranhando a altitude de Arequipa, a Seleção teve um futebol pálido e inconstante. Na estréia, uma vitória por 1 x 0 sobre o Chile (gol de Luis Fabiano nos acréscimos, sendo que os chilenos haviam desperdiçado um pênalti) em uma partida tecnicamente tenebrosa. Depois, goleada (4 x 1) sobre uma Costa Rica entregue em campo e derrota para o time olímpico do Paraguai (1 x 2).

Os paraguaios ficaram com a primeira posição do grupo, seguido pelos brasileiros. A terceira posição foi decidida no Chile x Costa Rica da última rodada, em um duelo que envolveu três países. Olarra abriu o marcador para o Chile aos 40 minutos do primeiro tempo, dando a temporária classificação para sua equipe. A Costa Rica empatou aos 14 minutos do segundo tempo com Wright. Aí, quem se classificaria era a Bolívia como segunda melhor terceira colocada. Os bolivianos comemoravam até os 47 minutos, quando Herrón virou o marcador e deu a vaga nas quartas-de-final aos centroamericanos.

Com Brasil, Peru e Argentina terminando na segunda posição de suas chaves, caiu por terra o plano dos anfitriões de se livrarem das potências. Logo nas quartas-de-final, os peruanos tiveram de encontrar os argentinos. Apesar do apoio da torcida e de uma pressão rojiblanca nos minutos finais, os albicelestes impuseram sua superioridade para vencer por 1 x 0.

De fato, a tradição prevaleceu nas quartas-de-final. Sem altitude, o Brasil fez uma grande apresentação – sobretudo o atacante Adriano – e goleou o México por 4 x 0 (um resultado raro nos últimos anos, em que s mexicanos têm conseguido bons resultados contra a Seleção). A Colômbia passou pela Costa Rica sem dificuldades (2 x 0) e o Uruguai virou diante de um Paraguai desconcentrado (3 x 1).

O bom futebol argentino continuou dando o tom nas semifinais. Com grande atuação de Tevez, Sorín e Lucho Figueroa, o time de Marcelo Bielsa fez 3 x 0 na Colômbia com assombrosa facilidade.

Um dia depois, o Brasil precisou de grande atuação do goleiro Júlio César para superar o Uruguai. Os celestes abriram o marcador com uma falha do goleiro flamenguista, mas Adriano empatou no início do segundo tempo. A partida foi bastante equilibrada, com os charrúas se entregando em campo e compensando a inferioridade técnica. Júlio César fez duas boas defesas para impedir a vitória uruguaia e levar a partida para os pênaltis. Com mais uma defesa do goleiro brasileiro, a seleção de Parreira foi para a decisão com vitória por 5 x 3.

Na decisão do terceiro lugar, o Uruguai venceu a Colômbia por 2 x 1 em um jogo aberto de duas equipes despretensiosas. Clima muito diferente do que se esperava para o clássico Brasil x Argentina da final.

A final foi bastante aguerrida, mas os argentinos sempre tomaram a iniciativa. Mais entrosados e confiantes, os albicelestes dominaram o meio-campo e encurralaram o Brasil. As chances se sucediam e Kily González abriu o marcador aos 21 minutos, de pênalti. Os brasileiros não tinham respostas às ações argentinas, mas empataram no final do primeiro tempo em uma jogada fortuita. Após cruzamento de Alex em cobrança de falta, Luisão desviou de cabeça e tirou Abbondanzieri da jogada.

O ritmo continuou o mesmo após o intervalo. A Argentina dominava, enquanto que o Brasil tentava suportar o assédio adversário. Toda a defesa brasileira fazia uma grande partida ao impedir que os albicelestes se recolocassem em vantagem. A estratégia tinha sucesso até os 42 minutos do segundo tempo. Em uma jogada rápida, a defesa deixou Delgado livre para chutar forte, no canto de Júlio César.

O título argentino era iminente. Tevez tentou segurar a bola no ataque e foi acusado de zombar dos brasileiros (acabou substituído para evitar mais problemas). No último ataque, já no desespero, o Brasil jogou a bola na área. Depois da rebatida da defesa, Adriano pegou a sobra, dominou e, de virada, chutou no canto de Abbondanzieri. Era o empate que levaria a decisão para os pênaltis.

No desempate, os argentinos falharam duas cobranças (D’Alessandro e Heinze), facilitando a vitória brasileira por 4 x 2. Artilheiro da competição com sete gols, Adriano praticamente assegurou seu lugar na Copa do Mundo de 2006. O mesmo ocorreu com Luisão, Júlio César e Juan. Isso quase ocorreu com Gustavo Nery e Ricardo Oliveira. Por outro lado, Luís Fabiano e Alex perderam definitivamente seu espaço.

Brasil 2004.jpg

FICHA TÉCNICA
Argentina 2 x 2 Brasil (2 x 4 nos pênaltis)
Final da Copa América 2004
Data:
25 de julho de 2004
Local: estádio Nacional (Lima)
Público: 45 mil pagantes
Árbitro: Carlos Amarilla (Paraguai)
Argentina: Abbondanzieri; Coloccini, Ayala e Heinze; Zanetti, Lucho González (D’Alessandro), Mascherano, Kily González e Sorín; Rosales (Delgado) e Tévez (Quiroga). T: Marcelo Bielsa
Brasil: Júlio César; Maicon, Luisão (Cris), Juan e Gustavo Nery; Kléberson (Diego), Renato, Edu e Alex (Felipe); Adriano e Luís Fabiano. T: Carlos Alberto Parreira
Gols: Kily González (21/1º de pênalti), Luisão (46/1º), Delgado (42/2º) e Adriano (27/2º)
Pênaltis: D’Alessandro (defesa), Adriano (gol), Heinze (fora), Edu (g), Kily González (g), Diego (g), Sorín (g) e Juan (g)
Cartões amarelos: Sorín, Edu, Luisão, Mascherano, Delgado e Adriano

Ubiratan Leal

Obs.: esse texto é atualização da série "A história da Copa América"

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