O lema já diz muito sobre a “When Saturday Comes”: “the half decent football magazine”. É assim, sendo apenas “meio decente”, que essa revista inglesa construiu sua reputação entre torcedores de futebol na Inglaterra e até pelo resto da Europa. Sem medo de tirar sarro dos fatos do dia-a-dia, sem medo de fugir do convencional e sabendo identificar o modo como os fenômenos sociais refletem no esporte mais popular do mundo. Bom sinal de que, em algum lugar que seja, abordagens alternativas e menos sisudas também podem ter espaço no mercado editorial.
A capa, por exemplo, é uma grande charge, com uma foto e balõezinhos de diálogo ironizando alguma situação do futebol inglês. As chamadas ficam no alto e em baixo, como detalhes. Uma abordagem certamente estranha, mas bastante interessante para quem não se leva a sério desde o primeiro momento.
As surpresas continuam na pauta. A cultura do futebol é preponderante, mostrando sempre a relação de torcedores com seus clubes, a realidade de equipes da non-league (amadores, abaixo da quinta divisão do futebol inglês) e histórias curiosas mostrando a relação do futebol com a sociedade que o cerca. Mas sem academicismos, e sim, com textos bem humorados e besuntados com a típica ironia britânica.
Tamanho desprendimento editorial é conseqüência da própria história da revista. A “WSC” surgiu como um fanzine em 1986. A idéia dos criadores era dar um tratamento diferente ao futebol, com mais inteligência e reflexão, sem abusar da sisudez. Importante lembrar que a Inglaterra vivia o auge do hooliganismo. Aos poucos, a publicação cresceu e se tornou profissional. Ou quase.
O fato de manter até hoje esse espírito é um aspecto elogiável da revista. Por isso, também, ela tem tanta maleabilidade de pautas, criatividade na linguagem e seguidores. Pode-se dizer, sem medo, que é uma das mais importantes revistas cult sobre futebol. Uma coisa que só é possível em um mercado tão maduro e consistente como o inglês.
Claro que nem tudo é uma maravilha. A diagramação segue a tradição inglesa, com muito espaço para texto e pouca valorização de imagens. Além disso, a revista tem abordagem tão particular do futebol que nem todo mundo consegue entrar no espírito da publicação, que pode ser vista como desinteressante. Outro problema é que, naturalmente, a “WSC” enfoca mais a realidade e cultura inglesa e nem todos podem se interessar por isso.
Para quem gosta de cultura do futebol, ler ao menos uma edição da “When Saturday Comes” é obrigatório. Talvez a também inglesa “FourFourTwo”, a francesa “So Foot” ou a alemã “Elf Freunde” agradem mais. No entanto, é uma experiência necessária.
Mais informações
É difícil achar exemplares da “When Saturday Comes” em bancas brasileiras, mas pode-se assinar no site da revista.
Ubiratan Leal