Um time teve todo o dinheiro que quis para se reforçar indiscriminadamente. O outro tem apenas um jogador realmente acima da média e contou com a conexão de seu técnico com a Espanha para montar parte do elenco. E, em três Ligas dos Campeões seguidas, a equipe de investimento discreto e vários espanhóis sem grande projeção se deu melhor no confronto direto com o adversário endinheirado. Prova de que o Liverpool de Rafa Benítez tem muito mais que sorte quando enfrenta o Chelsea de Roman Abramovich.
O mais notável no time de Merseyside é a solidez coletiva. A equipe está tão compacta que sabe absorver eventuais ausências de um ou outro jogador sem haver queda no desempenho. Os movimentos dos jogadores são tão orgânicos e naturais que, mesmo para um estrelado – e também bem treinado – Chelsea, é difícil superar os reds em um jogo decisivo.
Isso ficou muito evidente no duelo pela semifinal desta Liga dos Campeões. No jogo de ida, o Chelsea dominou e mereceu a vitória. Ainda assim, o Liverpool tinha uma defesa bem montada e que confiava no seguro Reina para perder de pouco e manter a classificação acessível para o jogo de volta. Foi o que ocorreu e o gol de Joe Cole, o único da partida no Stamford Bridge, foi arrancado a fórceps.
Para o confronto em Anfield, o Liverpool sabia o que fazer para superar a desvantagem no marcador, mesmo tecnicamente inferior ao oponente. Sem a bola, a linha defensiva se fechava e contava com a proteção providencial de Mascherano, um gigante desde que deixou o West Ham para reforçar os reds. Quando atacava, Gerrard organizava o jogo, Crouch fazia seu subestimado papel de pivô na frente, Kuyt era o jogador mais móvel do ataque e até os laterais Riise e Finnan se sentiam seguros para apoiar quando necessário. Tudo parecia tão certinho que até Zenden jogou bem.
O gol veio em jogada ensaiada, aproveitando Agger como elemento-surpresa em arremate de fora da área. Um lance que ninguém no Chelsea seria capaz de prever e, claro, evitar. Depois, o jogo seguiu equilibrado e, mesmo sem conseguir ampliar a vantagem e evitar a prorrogação (e os pênaltis posteriormente), teve condições de assimilar sem sustos o assédio londrino em todo o segundo tempo.
Considerando que Gerrard continua com o mesmo futebol de 2005, Mascherano chegou, Crouch cresceu (em futebol, não em tamanho) e Kuyt vive melhor momento do que vivia Morientes e Cissé há dois anos, fica evidente como o Liverpool melhora gradualmente ano a ano. Nada assustador, mas é um crescimento sustentável, comandado por inteligência e sem gastança por Rafa Benítez.
Desse modo, o Liverpool não é favorito para a final contra o Milan. Ainda assim, fica provado novamente como o futebol, mesmo na rica Europa, precisa muito mais de inteligência do que de dinheiro. Ainda bem.
Ubiratan Leal