Foi patético. Depois de anunciar os convocados para os amistosos contra Inglaterra e Turquia, Dunga concedeu a tradicional entrevista do técnico da Seleção. E o tema dominante foi o pedido de dispensa de Kaká e Ronaldinho da Copa América. Esse único assunto monopolizou a coletiva de modo tão patente que ficou evidente que foi mais do que simples perguntas de quem quer saber uma opinião.
Para entender melhor o contexto, é preciso voltar um pouco no tempo, até o amistoso do Brasil com o Chile em março. Durante a transmissão, Galvão Bueno disse várias vezes que Dunga chamou todos os jogadores e desafiou qualquer m que não quisesse jogar a Copa América a se manifestar. Diante de situação tão constrangedora e intimidadora, é óbvio que houve um enorme silêncio.
O narrador número 1 da Globo não contou essa história gratuitamente. Claramente, ele estava passando para o público um recado da CBF: a Seleção pretende tratar a Copa América com um mínimo de seriedade. É assim que muitas coisas acontecem na confederação. Muitos jornalistas – de pequenos jornais regionais à emissoras nacionais – fazem o jogo da entidade em troca de benefícios futuros, como facilitações ou informações em primeira mão.
Isso se manifestou novamente na entrevista coletiva pós-anúncio de convocados. Kaká e Ronaldinho, com toda a razão do mundo, pediram dispensa da Copa América. Nada mais justo, pois ambos defenderam a Seleção em dois verões seguidos (Copa das Confederações de 2005 e Copa do Mundo de 2006) e tiveram férias prejudicadas. Como a competição continental deste ano não é das mais importantes para o Brasil, faz todo o sentido aproveitar a oportunidade para descansar e estar em forma na próxima temporada, em que haverá Elimiantórias para o Mundial.
A CBF e Dunga não tiveram coragem de trombar diretamente com os dois, pois sabem que a Seleção precisa de ambos. Assim, só foi preciso acionar a imprensa para ela fazer o trabalho sujo de criticar os dois meias.
Todas as perguntas – preciosidades como “Dunga, você já rejeitou alguma convocação da Seleção?” – foram feitas de modo que o técnico nem precisaria se esforçar para cutucar Kaká e Ronaldinho. Para piorar, alguns comentaristas ainda tentaram “desmascarar” a dupla, dizendo que ambos sempre tiveram seus 30 dias de férias preservados. Como se não soubessem que esticar uma temporada aumenta o desgaste e atrasa o retorno das férias, fazendo que a pré-temporada seja inadequada. Os dois fatores dificultam a recuperação no ano seguinte.
O massacre aos dois era tamanho que parecia que o pedido de dispensa havia provocado, nos dias anteriores, uma mobilização nacional contra os meias. Nada! Parte da torcida até discordou, mas a média da opinião pública ignorou o caso, como se fosse algo menor e irrelevante.
Quando a imprensa deixa de lado o interesse do torcedor, ela está errada. Mas isso fica ainda pior quando o público é preterido em favor dos interesses da CBF.
Ubiratan Leal
Imagem: CBF News