Nenhum clube, no futebol brasileiro de hoje, tem um ataque que se movimenta de modo tão insinuante como o Botafogo. Zé Roberto, Dodô e Jorge Henrique trocam de posição com fluência em um sistema de jogo alucinante. Sempre há um recebendo a bola e tocando de primeira para outro que já abriu espaço pela ponta ou tentou infiltrar. Um pouco mais atrás, Lúcio Flávio organiza as ações, tratando de cadenciar o jogo quando a velocidade se torna excessiva e nociva. Assim, o Alvinegro carioca tem um dos mais produtivos setores ofensivos do país neste início de ano.
Isso ficou evidente no primeiro tempo do empate em 2 x 2 contra o Flamengo, na partida de ida da final do Estadual do Rio de Janeiro. Ney Franco já previa dificuldades e colocou o time em um 3-6-1, com trio defensivo ajudado por dois volantes, Paulinho e Claiton, encarregados de marcar, pela ordem, Zé Roberto e Lúcio Flávio. Acreditava o técnico rubro-negro que isso interromperia o toque de bola do ataque botafoguense. Não foi o que se viu.
A troca de posições é tão constante que a dupla de volantes ficou perdida. Lúcio Flávio e Zé Roberto tinham constantemente condição para criar jogadas e o Botafogo dominou completamente o Flamengo até o intervalo. Aos 31 minutos, Zé Roberto abriu pela esquerda, fugindo de Paulinho e cruzando rasteiro para Dodô, entrando por trás da defesa flamenguista, completar de carrinho.
As chances só não eram mais numerosas porque, quando um time joga no 3-6-1, é inevitável que sua área fique congestionada e, por questão de física, não há tanto espaço para o adversário criar e/ou finalizar. Isso ficou claro no segundo gol alvinegro. Aos 41 minutos. Lúcio Flávio sofreu falta e fingiu estar contundido. O árbitro não caiu na simulação e o meia botafoguense logo se levantou, avançou, recebeu a bola na corrida, passou em velocidade pelos zagueiros – ainda imaginando se a falta havia sido efetivamente cobrada – e tocou na saída de Bruno. Tudo isso em um impulso, aproveitando a desconcentração da defesa do Flamengo. Botafogo 2 x 0 com sobras.
Essa foi a face positiva do Botafogo de Cuca. Um time de vocação ofensiva, que joga em velocidade e não tem medo de tomar a iniciativa. O problema é que, quando o Flamengo se acertou ligeiramente na volta do intervalo, os pontos fracos botafoguenses foram evidenciados.
O Flamengo apertou a marcação no meio-campo e deu mais espaço para os alas avançarem. Com isso, o Botafogo viu-se na necessidade de segurar o jogo, coisa que não sabe fazer direito. Não apenas por ter jogadores medianos na defesa, mas porque a vocação é ofensiva e o time se sente desconfortável quando não está atacando. Assim, acaba avançando mesmo quando não precisa e, mesmo com dois gols de vantagem no placar, dá oportunidade de o adversário usar os contra-ataques.
Foi assim que Souza encontrou Renato livre para sofrer pênalti de Júlio César, de onde saiu o primeiro gol rubro-negro. Para colocar o goleiro reserva, Cuca cometeu o erro de tirar Lúcio Flávio, o melhor jogador em campo. E os problemas botafoguenses ficaram ainda mais agudos.
Sem um jogador que pense as jogadas com calma, o Botafogo não consegue usar adequadamente a principal virtude de seus atacantes, a velocidade na movimentação. Sem manter a bola na frente, o Alvinegro permitia que o Flamengo controlasse o meio-campo e acabasse empatando o jogo após falha de Max. Aí, também se percebe outro problema do time de General Severiano: a falta de um elenco mais profundo, com opções confiáveis no banco de reservas. Não apenas para o gol, mas também para o quarteto ofensivo que dá tanta força à equipe.
Se o Botafogo mantiver essa base, com esse sistema de jogo, tem condições de fazer um belo Campeonato Brasileiro. No entanto, as atuações devem ser instáveis como foi o desempenho contra o Flamengo. Nos bons momentos, é um dos times mais perigosos do país. Nos maus, é frágil e atingível. Cuca precisa pensar em algo para que o primeiro tempo contra o Flamengo seja um retrato mais fiel do Botafogo no Brasileirão do que o segundo.
Ubiratan Leal
Imagem: Fernando Soutello/Profotto