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« Chutômetro 61 (médio) | Página inicial | Trombetas de 28 de maio »

28/05/07

E se...

E se Valdívia e Matigol jogassem a Copa de 98?

Primeiro de maio de 1998. O cenário é a sala de imprensa da ANFP (federação chilena). O evento, a convocação para a Copa do Mundo na França. O personagem principal, Nelson Acosta, treinador uruguaio que se naturalizou chileno. Entre as expectativas, poucas possibilidades de surpresas: raros os jogadores do país com experiência no futebol europeu e, entre os badalados, Iván Zamorano e Marcelo Salas, avantes de primeira linha internacional.

Na população chilena, entretanto, o consenso geral era o de que o setor de criação dos rojos era o que mais deixava a desejar. José Luis Sierra, 29 anos e com passagem pelo São Paulo, não jogava em alto nível há muito tempo. Seu companheiro de setor, Fabián Estay, se resumia a um jogador de muita transpiração e pouca técnica.

Nelson Acosta se deu conta disso. Em uma jogada de total ousadia, levou dois garotos como apostas. O primeiro, Jorge Valdívia, apenas 19 anos e um estilo absolutamente irreverente. Para completar a lista, Acosta ainda chamou Matías “Matigol” Fernández, mais novo ainda, 17 anos, e dotado de uma enorme visão periféria para um quase juvenil.

Com uma defesa fortíssima, onde Tapia, Margas, Rojas e Reyes davam forte respaldo, o raciocínio de Acosta até que fazia sentido. Afinal, com essa espinha dorsal na retaguarda e dois atacantes poderosos, ter dois jogadores talentosos como aposta no meio, faz todo sentido, afinal Sierra e Estay, em tese, pouco poderiam contribuir tecnicamente.

Fase de grupos
Lá se foram os chilenos para Bordeaux, 11 de junho, estréia na Copa. Para o primeiro duelo, um embate com a Itália. Havia 16 anos que La Roja não jogava um mundial. Para o primeiro jogo, Acosta optou por uma formação cautelosa. No meio-campo, montou um ferrolho capaz de causar inveja aos..... próprios italianos! Com Vega, Musrri e Acuña, jogou também Estay. No banco, os garotos Fernández e Valdivia estavam com Sierra.

O 0 x 0 perdurou durante os 90 minutos, embora os melhores momentos chilenos tenham sido com Matías Fernández, que entrou em campo aos 35 do segundo tempo. Estay, que era o mais valente dos chilenos em campo, sofreu uma fratura no tornozelo e, a partir dali, já não jogaria mais o Mundial. Sair com um ponto contra o adversário mais forte da chave, àquele momento, estava de ótimo tamanho para o Chile.

No jogo seguinte, o duelo frente aos austríacos era importantíssimo. Com uma vitória, a classificação estaria muito mais próxima. Acosta, fez o óbvio: mandou Matías Fernández para o time titular. Com 17 anos, Matigol era um dos jogadores mais jovens daquela Copa. E também foi dos mais abusados. De seus pés, saíram duas assistências para gols de Marcelo Salas, na vitória tranqüila por 2 x 0.

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Contra Camarões, terceira e decisiva rodada do Grupo B, bastava um empate aos chilenos. Matigol, com dois amarelos, começou o jogo no banco. Acosta imaginou que, em um jogo tenso como prometia, era melhor ter Sierra em campo. O ex-meia do São Paulo, entretanto, fez um primeiro tempo fraquíssimo. Parecia disperso. Ainda assim, o Chile vencia com gol de Zamorano em bela jogada individual.

Faltando meia hora de jogo, e com a classificação ainda mais segura pois a Itália vencia a Áustria, o treinador chileno resolveu mexer. Era a estréia de Jorge Valdivia. O meia, aliás, esteve cotado pelo Palmeiras. Salvador Hugo Palaia, dirigente do clube, disse observar um jogador sul-americano que estava em ação na Copa. Ao contrário do que sugeriam os boatos, o clube paulista contratou o veterano uruguaio Matosas, que sequer tinha ido ao Mundial. El Mago jogou bem, mas o jogo ficou em 1 a 0. O Brasil era o próximo adversário. E Palaia, folclórico, ficou marcado.

Brasil x Chile
Com sete pontos, mas superado pela Itália nos critérios de desempate, o Chile não tinha outro adversário mais duro para enfrentar. O Brasil, comandado por Rivaldo e Ronaldinho, vinha forte e era o atual campeão, mesmo que sem Romário. Nelson Acosta, satisfeito pelo desempenho de Valdívia no jogo anterior, barrou Matigol, para desespero dos chilenos que adoravam o caçula.

Zagallo elegeu Dunga, que era seu capitão, como o principal marcador de Valdívia. Com apenas um chileno no setor de criação do meio, César Sampaio saía bem para o jogo e sempre aparecia como arma surpresa. Em duas bolas aéreas, quase fez para o Brasil, mas parou em Tapia. Em apenas meia hora de jogo, Valdívia quase levou seu marcador à loucura. Especialista em cavar faltas, o meia rojo provocava o camisa oito brasileiro, que foi para o intervalo pendurado com um cartão amarelo. O placar, era de 0 x 0, e o jogo, absolutamente tenso.

Logo que o árbitro apitou o início da etapa seguinte, o inferno astral de Dunga recomeçou. Após uma dividida, Valdívia foi ao chão e pediu o vermelho. O capitão brasileiro, visivelmente perturbado, acertou uma cabeçada no habilidoso meia chileno e foi para o chuveiro. Curiosamente, com o ato violento, repetia o mesmo gesto agressivo de dois jogos antes, contra Marrocos, quando o volante também deu com a cabeça em Bebeto.

Com um a menos, o Brasil se viu pressionado quando Nelson Acosta arrojou ao colocar Matías Fernández em campo no lugar do volante Acosta. Zagallo, por sua vez, não mudou o sistema defensivo e sofreu uma avalanche digna daquelas que ocorrem na Cordilheira dos Andes. Em 30 minutos, Salas e Zamorano fizeram um gol cada em assistências de Fernández, estrela da classificação chilena.

A precoce eliminação do Brasil causou estragos. A despedida internacional de Dunga, eleito por todos o vilão da derrota, foi trágica. O ex-capitão, revoltado pelo tratamento da mídia e população em geral, foi morar em Pescara, na Itália. Zagallo, também crucificado, foi despedido pela CBF ainda na França, tendo seu passado vitorioso descartado. Enquanto isso, o Chile seguia.

Chile x Dinamarca
Valia vaga na semifinal. Entre os quatro melhores, somente em 1962 o Chile havia chegado. Pela frente, os dinamarqueses comandados por Michael Laudrup, escrevendo ali as últimas páginas de sua carreira. Apostando em um jogo aberto, Nelson Acosta resolveu lançar os dois menudos desde o início. Desta forma, os rojos tinham o que foi chamado por todos de “O quadrado mágico”. Aliás, tinham até ‘El Mago’ Valdívia.

Porém quando a bola rolou, havia um pitbull na Dinamáquina. Era Thomas Gravesen, principal marcador no meio-campo de Bo Johansson. Em menos de 20 minutos, o volantão havia tirado Valdívia de campo, vítima de duas entradas criminosas. Peter Schmeichel, para muitos o melhor goleiro do mundo, fechou o gol durante o primeiro tempo. Michael Laudrup, em uma tabelinha primorosa com o irmão Brian, abriu o marcador.

Desesperado já na segunda etapa, Nelson Acosta colocou Sierra em campo. Era a última cartada para buscar o empate a 20 minutos do fim. Marcelo Salas, forte no jogo aéreo, cabeceou duas vezes a bola na trave. Zamorano, mesmo bem marcado, perdeu outra chance clara. Sierra, porém, decepcionou novamente em momentos decisivos. Ao tentar afastar uma bola em bicicleta espalhafatosa, entregou o segundo gol nos pés de Brian Laudrup, que obviamente não desperdiçou o que selaria a ida da Dinamarca para a fase semifinal. Acosta, acabou criticadíssimo pelo tal “quadrado mágico”.

Nos anos seguintes, o Chile não conseguiu voltar às Copas do Mundo. Boa parte da geração de 1998, envelhecida, já não mostrava o mesmo futebol. Valdívia e Fernández, os mais jovens, não vingaram. Matigol, jamais se firmou como jogador de nível internacional e perambulou por equipes menores do futebol chileno. El Mago, após passagens ruins por Rayo Vallecano, Hércules e mundo árabe, jogou por clubes brasileiros e, por fim, encerrou a carreira no XV de Piracicaba, disputando a Série A3 do Campeonato Paulista.

Dassler Marques (colaboração especial)

Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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