A temporada 2006-07 foi uma tragédia para o Bayern de Munique. A queda nas quartas-de-final da Liga dos Campeões até que foi um resultado decente, mas nada pode diminuir o impacto negativo da péssima campanha no Campeonato Alemão. Para um clube que havia ganhado sete títulos nacionais nos dez anos anteriores, ficar impotente na quarta posição é algo muito abaixo da média. Mas o pior ainda está por vir: a ausência da Liga dos Campeões.
Tecnicamente, ficar de fora da competição de elite do futebol europeu obrigará o clube a olhar para a temporada de forma diferente. Sobretudo na hora de realizar o planejamento de elenco, já que algumas atitudes comuns no clube teriam de ser reavaliadas. Por exemplo, depois de um ano tão fraco, a obrigação na Säbener-Strasse é ganhar tudo o que aparecer pela frente. Um clube que se considera tão poderoso e acima dos demais não admitirá outra hipótese.
Outro problema é que os roten se acostumaram a ter elencos numerosos, com vários jogadores para cada posição, para adotar indiscriminadamente a política de rodízio de elenco. Sem a Liga dos Campeões, a diretoria e o técnico Ottmar Hitzfeld terão de convencer os jogadores teoricamente reservas que ser usado prioritariamente na Copa da Uefa e na Copa da Alemanha é algo abonador. Ainda mais em um elenco que será profundamente reformulado e que aparecerão vários jogadores novos, sedentos por espaço nos jogos mais importantes da equipe.
No entanto, o ponto mais delicado é administrativo-financeiro. Por ser o único representante competitivo da maior economia da Europa, o Bayern é o clube que mais fatura em direitos de transmissão da Liga dos Campeões. Os € 40 milhões anuais – valor médio, pois a quantia exata varia de acordo com o desempenho do time na competição – dos bávaros são superiores às arrecadações de potências continentais muito mais esbanjadoras como Manchester United, Real Madrid, Milan ou Barcelona.
Fora da Liga dos Campeões, o Bayern terá de se virar com os ganhos da Copa da Uefa, muito menos significativos. O clube faz contas e tenta se convencer que o revés não é tão grande. Se fosse o terceiro colocado na Bundesliga, a cota do Bayern na LC seria de cerca de € 19,5 milhões, um valor que a diretoria dos roten considera possível igualar com a Copa da Uefa. O discurso simplesmente ignora o fato que o Bayern nunca pensou em ser terceiro no Campeonato Alemão, mas em ficar com o título.
De qualquer forma, o diretor do clube, o ex-atacante Karl-Heinz Rummenigge, terá de ser hábil. O trunfo do Bayern é que, na Copa da Uefa, cada clube é dono dos direitos de transmissão de seus jogos (na LC a negociação é em bloco). Assim, a esperança dos roten é forçar nas negociações para usar o apelo popular do time – o mais popular da Alemanha – e conseguir um valor mais alto que o normal para a segunda competição de clubes da Europa.
Tudo isso ocorrerá justamente em uma temporada em que o clube gastará mais do que o normal. O Bayern investiu pesado em 2003, mas preferiu fechar o bolso e manter a base nas duas últimas temporadas. Como os títulos e as classificações na Liga dos Campeões vieram do mesmo jeito, o clube faturou muito e gastou pouco, enchendo o caixa. Pelo visto, é hora de gastar um pouco disso com reforços de peso, mas sem abusar para continuar com margem de manobra financeira. Caso contrário, pode ter uma instabilidade financeira fazendo companhia à instabilidade técnica que já mora no maior clube da Alemanha.
Ubiratan Leal
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