A Eurocopa não é uma Copa do Mundo, mas tem lá sua grandeza. Para se ter uma idéia, a edição de 2004 foi responsável por aumentar em cerca de 1% o PIB de Portugal naquele ano. Esse é um dos motivos pelos quais receber o evento é objetivo de tantos países. Para a Itália, porém, organizar o Euro 2012 era muito mais importante do que simplesmente ganhar dinheiro. Era reconstruir toda sua estrutura. Por isso, a perda da competição para Polônia e Ucrânia é um revés enorme para o futebol italiano.
É difícil imaginar um pior momento para o calcio. Com o Calciocaos (que, na verdade, foi o maior e mais midiático de uma série de escândalos), o público perdeu completamente a fé no esporte. A crise institucional fez que as autoridades não tivessem mais poder para conter o crescimento dos ultras, que estão influentes – e violentos – como raramente estiveram. Assim, a média de público é muito baixa para um torneio tão importante e, à exceção dos três grandes (Juventus, Milan e Internazionale) e talvez Fiorentina e Roma, as demais equipes italianas não têm condição de competir financeiramente com equipes do mesmo nível em ligas como a espanhola e a inglesa.
Há uma vontade muito grande de mudar o cenário com atitudes mais contundentes diante dos problemas que se apresentam, mas as forças que lutam por um arrefecimento dos ânimos – e conseqüente atenuação das medidas punitivas – são igualmente fortes. Essa queda de braço dificulta a efetivação de ações que atingissem a raiz do problema, que é toda a estrutura do futebol italiano. Tudo fica no superficial.
Os italianos contam com um fato novo, poderoso o suficiente para desestabilizar essa relação de forças. Esperavam que a organização da Eurocopa se tornasse esse fator indutor de mudanças.
Um dos principais pontos delicados do futebol italiano é o sucateamento dos estádios. Depois da morte de um policial antes de Catania x Palermo, o governo passou a cumprir a lei que exige condições mínimas de segurança nos estádios. Os que não estivessem enquadrados na regulamentação passaram ou estão passando por reformas para serem reabertos completamente.
Ainda não é o suficiente. Tais intervenções dizem respeito a câmeras de vigilância, acessos, assentos e outras exigências que garantam um mínimo de segurança e conforto. Os estádios continuariam obsoletos. Para mudar, é preciso reformá-los por completo.
O modelo italiano nesse setor é péssimo. Um sinal inequívoco disso é que as 12 cidades indicadas para a Eurocopa 2012 são as mesmas da Copa do Mundo de 1990. No projeto, todos os estádios seriam profundamente modificados. Admissão total da incompetência que envelheceu estádios em apenas 16 anos.
O problema começa já na propriedade dos estádios, quase todos nas mãos do governo. As prefeituras deixam na mão dos clubes, que alegam nada poder fazer com a propriedade dos outros. Assim, quase todos os grandes estádios italianos têm pista de atletismo porque o poder público considera igualitário deixar que todas as modalidades possam usar o local, mas, de fato, raramente há eventos que justifiquem sua manutenção.
Enquanto isso, cresce na Europa a tendência de construir estádios específicos para futebol, com muito mais conforto para torcedores e jogadores. Para remediar isso, em alguns estádios – como o Sant’Elia, em Cagliari – foram construídas arquibancadas metálicas tubulares próximas do gramado, no espaço da pista de atletismo. A torcida pode ter gostado, mas esse “puxadinho” é visualmente feio e denota um improviso incabível.
Em Turim e Milão, isso já foi percebido e os clubes assumiram a administração dos estádios para poderem modernizá-los. Mas Juventus, Internazionale e Milan são ricos e podem arcar com isso. As demais equipes mal têm dinheiro para sustentarem seus elencos, quanto mais para reconstruírem estádios. Com a Eurocopa, o governo teria um bom pretexto para ajudar, ou com empréstimo ou com facilitação de financiamento.
A modernização dos estádios faz parte da “britanização” que os italianos pretendem promover em seu futebol. Com casas mais modernas e confortáveis, seria mais fácil implementar o projeto dos ingleses para erradicar o hooliganismo. Seria o ponto de partida para a reestruturação dos clubes e das autoridades futebolísticas da Bota. Com a derrota surpreendente – e algo vexatória – para Polônia e Ucrânia, o plano terá de ser repensado. Uma pena para os italianos, mas, diante da bagunça que vive o calcio, não dá para tirar a razão em quem votou na candidatura conjunta de polonenses e ucranianos.
Ubiratan Leal