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5/04/07

Histórias

O Pequeno Brasil da Itália

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Lucchese e Mantova iam a campo em Lucca e ninguém viu muita razão para dar importância àquele jogo. Era apenas mais uma partida do Grupo A da Serie C italiana na temporada 1958-59. Com um futebol ofensivo e insinuante, o Mantova dominou completamente o time toscano e venceu por 2 x 0, confirmando o favoritismo de uma equipe que tinha melhor campanha. Pois esse jogo obscuro deu início de uma mística em torno de um pequeno clube do interior da Lombardia, que até hoje se identifica com o Brasil.

A história começou em 1955. O Mantova estava em séria crise financeira e, depois de várias campanhas fracassadas, estava na quarta divisão italiana. Sem muitas opções, a diretoria decidiu apostar nas soluções mais baratas possíveis. Convidou Edmondo Fabbri, obscuro ex-jogador de Internazionale, Sampdoria, Atalante a Parma, para ser o técnico da equipe. Detalhe: Fabbri nunca comandara nenhuma equipe. Além disso, o clube selecionou jogadores jovens em Mântua e região – casos de Negri, Veneri, Paccini e Longhi – para compor o elenco.

Não havia grande expectativa em cima dessa equipe e o mau início de campanha surpreendeu poucos. No entanto, o time se encontrou aos poucos e, no final do campeonato, já empolgava. Não foi o suficiente para subir de divisão, mas o terceiro lugar em sua chave regional indicava que os virgiliani estavam no caminho certo.

Na temporada seguinte, o clube recebeu o apoio da Ozo, empresa de derivados de petróleo mantovana, e passou a se chamar Ozo Mantova. O time manteve o ritmo do final do ano anterior e terminou em segundo lugar em seu grupo, o que garantiu a permanência na quarta divisão (o torneio foi remodelado e apenas os melhores de cada região não seria rebaixados).

Em 1957-58, a diretoria do Mantova resolveu investir em reforços. À base caseira se juntaram jogadores experientes como Giagnoni, Fantini, Bibolini, Cuighi, Vaccari e Giavara. Fabbri soube aproveitar as novas peças e criou uma equipe extremamente competitiva, que venceu a quarta divisão com apenas duas derrotas. O Mantova já tinha o que potencialmente era seu melhor time em todos os tempos.

Os biancorossi não se intimidaram com a Serie C e jogaram com a imponência de um favorito, não um caçula. O Ozo Mantova apresentava um futebol irresistível, em que a superioridade técnica era facilmente transformada em gols. Inclusive fora de casa. Assim, o time conseguiu resultados como 8 x 0 no Legnano, 3 x 0 no Pro Vercelli e 3 x 1 em Piacenza e Cremonese. Apenas o primeiro desses resultados foi em Mântua.

Até que veio o jogo contra a Lucchese. A vitória foi tão contundente que os jornais de Lucca, no dia seguinte, chamaram o Ozo Mantova de “Piccolo Brasile”, pois seu estilo de jogo se assemelhava ao da seleção que conquistara a Copa do Mundo meses antes. Nascia a mística do “Pequeno Brasil".

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Os virgiliani continuaram em ritmo acelerado e terminaram a competição dividindo a liderança com o Siena. Como apenas uma equipe era promovida, foi necessário um jogo extra no campo neutro de Gênova. Mesmo com um jogador a menos – Cadè saiu de campo machucado no início da partida (foto) e não havia substituições –, o Ozo Mantova segurou o adversário e conseguiu um gol no final com Fantini. O clube estava de volta à Serie B.

O bom futebol do Piccolo Brasile chamou a atenção de clubes mais ricos, que levaram boa parte da base mantovana. Antes mesmo da temporada seguinte, Fantini, Micheli, Recagni, Bibolini e Turatti deixaram os biancorossi. Obrigado a formar um novo time, o clube não manteve o mesmo desempenho. Ainda assim, o estilo de jogo e o apelido permaneciam os mesmos e a equipe terminou a Segundona em uma honrosa quinta posição, atrás apenas de Torino, Lecco, Catania e Triestina. No ano seguinte, com o grupo mais consolidado, os mantovanos ascenderam pela primeira vez à elite do futebol italiano.

Em 1961-62, a trajetória biancorossa chegou a seu ápice. O Mantova fez uma campanha mais que digna na Serie A, terminando em nono lugar (a melhor posição de sua história). No caminho, conseguiu resultados como 1 x 1 com a Juventus em Turim, 1 x 1 com a Internazionale, 0 x 0 com a Fiorentina e 2 x 1 na Roma.

Depois de sete anos, Edmondo Fabbri tirou o Ozo Mantova da quarta divisão e o levou à elite do futebol italiano sem grandes recursos. Além disso, montou um dos times mais admirados da Itália. Tal trabalho foi reconhecido e, em julho de 1962, o treinador foi convidado para substituir a dupla Giovanni Ferrari e Paolo Mazza após o insucesso da Azzurra na Copa do Mundo do Chile. O Mantova contratou Nándor Hidekguti – ex-meia da seleção húngara vice-campeã mundial de 1954 – para o lugar de Fabbri.

Historicamente, era o fim do Piccolo Brasile. No entanto, a marca daquela equipe permaneceu muito forte no clube lombardo. Até hoje, aquele período é exaltado pelos torcedores virgiliani. Por esse motivo, o terceiro uniforme da equipe foge do padrão alvirrubro tradicional da equipe. O clube usa a camisa verde-amarela, uma forma de lembrar o passado de futebol bonito e vencedor do Mantova.

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O verde-amarelo do uniforme 3 do Mantova não é invencionice de algum fabricante de material esportivo. É parte da história do clube

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Edmondo Fabbri não teve muita sorte fora de Mantova. Ele ficou no comando da seleção italiana até a derrota para a Coréia do Norte na Copa de 1966. A vexatória eliminação ficou marcada na carreira do técnico, que não teve oportunidades em grandes clubes. Seus principais títulos foram duas Copas da Itália, por Torino e Bologna.

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O Mantova também não se deu muito bem depois da saída de Fabbri. Em 1964-65, o time foi rebaixado à Serie B, mas retornou à elite em um ano. Depois de um curto período de sobe-e-desce, o clube caiu para a Serie C em 1973. Desde então, os biancorossi passearam entre terceira, quarta e até quinta divisões. Apenas em 2005 o clube conseguiu retornar à Segundona. Na atual temporada, foi o responsável por quebrar a invencibilidade da Juventus na Serie B e tem lutado por uma vaga no playoff de promoção.

Ubiratan Leal

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