Trinidad e Tobago foi uma das boas surpresas da Copa do Mundo. Não fez um gol sequer, mas empatou com a Suécia e deu uma canseira enorme na Inglaterra. Para quem era visto como um saco de pancadas em potencial, voltar da Alemanha com um ponto e nenhuma goleada no currículo está mais que bom. Muitos acharam que a Concacaf passaria a ter uma força secundária vinda do Caribe. Uma expectativa que não durou nem um mês, já que os Soca Warriors foram atropelados por outra seleção caribenha. O Haiti.
O maior sinal de que há um fenômeno no ocidente da ilha Hispaniola foi a Copa Caribenha de 2007. Depois de uma trajetória errática e alguns tropeços tolos, o Haiti embalou e chegou à fase decisiva, em Trinidad e Tobago. Os haitianos se estabilizaram e chegaram à decisão contra os favoritíssimos anfitriões. Aí, a surpresa: o Haiti fez 2 a 1 (gols de Boucicaut e Ficien) e ficou com o título do Caribe pela primeira vez.
Pode-se argumentar – com razão – que os trinitários estavam desfalcados dos jogadores que atuam na Europa. No entanto, o Haiti continuou dando sinais de que sua evolução é real. Na última semana, os haitianos fizeram dois amistosos de preparação para a Copa Ouro: venceram os tradicionais El Salvador e Honduras por 1 a 0 e 3 a 1 respectivamente. As duas partidas foram na casa do adversário. No início do mês, os haitianos já haviam, ao lado dos hondurenhos, desclassificado o poderoso México na Copa da Concacaf Sub-17.
Tal crescimento não é fortuito. Em 2001, o Haiti foi um dos países escolhidos pela Fifa para fazer parte do Projeto Gol. Em abril de 2002, foi inaugurado um centro de treinamento em Croix-des-Bouquets, região metropolitana de Porto Príncipe. Com acomodações, escritórios e campo de jogo, tudo novo, o local permitiu que as seleções do Haiti (considerando também as categorias de base) pudessem desenvolver seu trabalho. O projeto também inclui investimento nas equipes, na liga nacional e na troca de experiência com profissionais de outros países.
Não há dúvidas que o Haiti é um dos países que mais precisavam da verba da Fifa. Afinal, o país até tem uma história razoável no futebol (chegou a participar de uma Copa do Mundo, em 1974), mas sucumbiu diante da guerra civil na última década. No entanto, é importante lembrar que os haitianos são aliados históricos do trinitário Jack Warner, presidente da Concacaf que nunca teve pudor em favorecer seus amigos na administração da entidade. O Haiti, inclusive, foi representado por um compatriota de Warner na eleição da Fifa que levou Joseph Blatter ao poder, em 1998.
De qualquer maneira, a construção de um centro de treinamento, somada à redução (apenas redução, não término completo) dos conflitos no país, permitiu que o futebol se reestruturasse. Para melhorar ainda mais o cenário, a Digicel (empresa irlandesa de telefonia) assinou um contrato de patrocínio por quatro anos com a federação, ajudando a bancar a seleção nacional e os 16 clubes da liga haitiana (oficialmente chamada Les Championnats de Digicel Division One).
Os jogadores podem entrar em campo com mais regularidade e desenvolver seu talento. Do time atual, alguns já atuam fora do país, como Fénélon, Guillaume e Jamil Jean-Jacques (todos no Miami FC, time norte-americano que teve Romário em 2006), Mayard (Pors Grenland-NOR) e Jeobam (Paris). As duas estrelas são Peguero, atacante do Brondby, e Jena Jacques Pierre, meia do Nantes. Além disso, foi criada a “Seleção da Diáspora Haitiana”, formada por haitianos que imigraram para os Estados Unidos e fazem amistosos no país mais rico do mundo para arrecadar fundos para a federação.
Ainda é cedo para esperar grandes resultados do Haiti no cenário internacional. Na Copa Ouro, os haitianos têm condições de passar para as quartas-de-final em um grupo com Costa Rica, Canadá e Guadalupe. No entanto, ainda é pouco para encararem México, Estados Unidos e Costa Rica nas fases mais avançadas da competição.
O mais importante é ficar de olho para os anos seguintes. O lema dessa nova fase é “De Volta à África”. A idéia remete à origem africana do país - que teve independência após uma revolta de escravos e cuja larga maioria (90%) da população é negra - e lembra que a próxima Copa do Mundo será no continente negro. Como se os haitianos estivessem voltando às suas origens por meio do futebol.
Ubiratan Leal
Obs.: texto originalmente publicado no site Trivela