Junho de 1989. Francesco Totti era apenas um jovem de 13 anos. Um promissor meio-campista de técnica apurada, belos dribles e uma habilidade muito acima da média das camadas inferiores da Lodigiani (atual Cisco Roma). Torcedor giallorosso, era considerada questão de tempo uma transferência para seu clube do coração. Mas a primeira grande proposta à Lodigiani veio da Lazio, que apostou na lapidação desse jovem diamante. A Roma também lutou por Francesco e achou que a coração pesaria mais na hora de decidir seu futuro.
Ledo engano, pois a proposta da Lazio era melhor. Totti decidiu deixar de lado o sonho de jogar ao lado dos ídolos Giannini e Conti em favor de uma maior tranqüilidade financeira no clube rival, recém-promovido da Série B, ao lado de Di Canio e Rubén Sosa. A saída de Calleri da presidência em meados de 1992, porém, mostrou-se um golpe nos objetivos pessoais do jovem meia-atacante. Em seu lugar assumiu Sergio Cragnotti, com a promessa de montar um time para a disputa imediata do scudetto – algo que parecia cada vez mais distante na gerência anterior.
No início da temporada 1992-93, Cragnotti protagonizou alguns dos maiores golpes de mercado da janela de verão. A Lazio conseguiu trazer para suas fileiras Signori e Favalli, jovens revelações disputadas pelos gigantes italianos, e ainda Fuser, Cravero e Gascoigne, jogadores mais renomados que vinham para obter lugar entre os titulares. Totti, que com seus tenros dezesseis anos já treinava esporadicamente junto dos profissionais graças às suas belas apresentações pela base e pela nazionale sub-17, acabou não estreando naquela temporada. A concorrência era implacável, já que além dos novos contratados, o forte elenco biancoceleste ainda contava com nomes do nível de Riedle, Doll e Winter.
Novos horizontes pareciam estar abertos a Francesco no início da temporada 1993-94. Doll havia saído, e Gascoigne e Signori lutavam contra lesões na pré-temporada, o que garantiu a Totti a titularidade em dois amistosos. O jovem traçava planos mais ambiciosos, mas não parecia encantar Zoff, que exigiu a contratação de Casiraghi. Por outro lado, Berlusconi enxergava em Totti um grande potencial desperdiçado e fez uma proposta logo descartada por Cragnotti. Ainda dividido entre as categorias juvenis e a profissional, Totti fez apenas duas partidas pela Série A, e outras duas pela Copa da Itália. Temperamental, Francesco desentendeu-se com Zoff no fim da temporada, e acertou seu empréstimo para a Sampdoria na temporada seguinte.
Aos 18 anos, tudo parecia conspirar a seu favor. Em Gênova, chegou com alta responsabilidade, porém menos pressão. A Sampdoria vinha fazendo boas campanhas, e havia erguido a Copa da Itália na última temporada. E Francesco já estreou logo no primeiro jogo da temporada: a decisão da Supercopa. Jogando ao lado de Lombardo e Mancini, viu Gullit abrir o placar para o Milan no San Siro, mas cavou a falta que originou o gol do também estreante Mihajlovic. Converteu o seu na disputa de pênaltis, mas não evitou a derrota do time.
Um dos poucos vértices funcionais de uma Sampdoria instável, tornou-se peça fundamental da equipe mesmo com várias partidas da seleção sub-21 e algumas pequenas lesões. O futebol convincente de Gênova fez com que Zeman resolvesse testá-lo na capital. Francesco então foi chamado de volta à Lazio e um bom recomeço já na temporada 1996-97 era questão de honra para o jovem Totti. Torna-se peça central do 4-3-3 do técnico e logo em sua primeira partida como titular marcou o gol da vitória contra a Juventus no Olímpico. O time encerrou sua participação em quarto na Série A e outra mudança logo marcaria os rumos aquilotti. No Europeu Sub-21, marcou o gol que garantiu o empate à Itália na final contra a Espanha. Nos pênaltis, vitória azzurra por 5 a 4.
Cragnotti apostou alto nas temporadas seguintes, e logo em 1997 trouxe os badalados Almeyda, Pancaro e Salas. Parecia ser mais um ano de perspectivas frustradas para um Totti que vinha rendendo cada vez mais, mas na lista de contratações apareceram também Eriksson e Mancini, bons parceiros dos tempos de Sampdoria. A Lazio lutou pelo scudetto boa parte do campeonato, mas deu preferência à Copa da Uefa e acabou perdendo as duas competições. Os reservas não mantiveram a forma na Serie A e Totti, suspenso após agressão em Caminero nas semifinais da Copa da Uefa contra o Atlético de Madrid, acabou fazendo muita falta na final contra a Internazionale. O time ainda se sagra campeão da Copa da Itália contra o Milan em pleno San Siro. Totti, Gottardi e Nesta marcaram na vitória decisiva por 3-1 e deixam um gosto amargo na boca dos biancocelesti.
A temporada 1998-99 começou bem para Totti, logo com uma vitória no Estádio dos Alpes contra a Juventus pela Supercopa Italiana, conquista inédita. Para a defesa inconstante, chegam Fernando Couto e Mihajlovic. A Lazio manteve-se na liderança até a 29ª rodada, quando uma derrota para a Juventus de Henry e Amoruso a colocou na posição de perseguidora o Milan nas últimas rodadas, num emocionante embate pelo scudetto. O quadrado formado por Nedved, Mancini, Totti e Stankovic fez um fim de campeonato sensacional, mas o time acabou mesmo com o vice-campeonato. Bierhoff não deixou os laziali se aproximarem, marcando sete gols nos últimos seis jogos do torneio. Uma semana antes do fim da Serie A, no entanto, garantiu o título da última Recopa Européia, contra o Mallorca em Birmingham, mais uma vez com gol de Totti, cada vez mais decisivo. E agora atleta da Azzurra.
Uma equipe ainda mais consistente era o que aguardava a Lazio na temporada seguinte. A defesa, ainda vulnerável, foi reforçada pelos argentinos Sensini e Simeone. Já o ataque funcional, carente após a saída de um Vieri que não aceitava a reserva, foi reforçado pelo já campeão Lombardo. Eriksson tinha o time na mão em seu volúvel 4-4-2, e Totti parecia mais inspirado do que nunca. Il bimbo celeste era unanimidade entre italianos, mesmo sem convencer na seleção italiana. As apresentações de pouco brilho no selecionado nacional contrastavam com as dos campos italianos. Aos 24 anos, Francesco Totti era campeão italiano e eleito o melhor jogador do campeonato. A Lazio do scudetto alinhava com Marchegiani; Negro, Mihajlovic, Nesta e Favalli; Simeone, Stankovic, Nedved e Totti; Fuser, Rambaudi e Nedved; Mancini e Boksic. E ainda se dava ao luxo de ter no banco atletas do nível de Almeyda, Verón, Lombardo, Sensini e Marcelo Salas.
O verão de 2000 foi controverso. O interesse de diversos clubes em seu futebol fomentava as especulações sobre sua saída, e a saúde financeira da Lazio já não era a mesma de antes. Antes de negociações, a Eurocopa a ser disputada na Holanda e na Bélgica. Com Del Piero no banco, as apostas de Zoff recaíam sobre a dupla Totti e Inzaghi. As três vitórias da primeira fase pareciam promissoras para o selecionado e a aposta nos dois pareciam cada vez mais acertadas. A vitória nas quartas-de-final contra a Romênia, com um gol de cada, só transparecia o óbvio. E Francesco foi mais do que decisivo na semifinal contra a Holanda, onde converteu o seu na disputa de pênaltis batendo Van der Sar. A decepção só veio na final contra a França, quando a Azzurra acabou sendo derrotada de virada, com um gol de ouro de Trezeguet na prorrogação. Totti mostrou um bom futebol na final, mas não foi poupado de críticas na Itália. Principalmente por ter deixado Del Piero no banco.
Decepcionado, Totti acabou acertando com o Real Madrid. Francesco, por € 45 milhões, se tornou a primeira contratação merengue e aportou em Madri ao lado de grandes nomes, como Figo, Makélélé, Flávio Conceição e Solari. A eliminação precoce na Copa do Rei pelo Toledo, a derrota no Mundial Interclubes pelo o Boca, e a traumatizante saída nas semifinais da Liga dos Campeões, protagonizada pelo Bayern, acabaram colocando de lado a bela campanha do time que foi campeão na Liga Espanhola com três rodadas de antecedência. Com a lesão de Morientes, Del Bosque improvisou Totti no ataque e obteve bons resultados. A dupla com Raúl fez sucesso e o italiano acabou com a vice-artilharia do certame, fora os belíssimos gols colecionados durante as competições.
Para a temporada 2001-02, as ambições madrilenas eram ainda maiores. O ano do centenário exigia bons resultados, principalmente após os resultados da sessão anterior. E nada era mais importante do que voltar a vencer a Liga dos Campeões para recuperar a hegemonia continental. Com a chegada de Zidane, a LC transformou-se em obrigação, mesmo que a Liga Espanhola precisasse ser posta de lado. Se no campeonato nacional as derrotas para Celta, Las Palmas e Málaga manchavam o percurso do clube, na Liga dos Campeões o sucesso voltava a fazer parte do quotidiano do Real Madrid. Vitórias sobre Roma e Porto, fora de casa, nas fases de grupos, deram moral ao time. Totti vinha muito bem, marcando gols e sendo decisivo em ambas competições. E com isso acabou sendo eleito o melhor jogador do mundo, à frente de Beckham e Figo. A seguir, uma vingança pessoal contra o Bayern de Munique nas quartas e uma atuação de gala no clássico contra o Barcelona da semifinal tiveram uma repercussão dantesca perto da grande final. Contra o ascendente Bayer Leverkusen de Lúcio, Ballack e Schneider os espanhóis fizeram valer o favoritismo e garantiram o nono título da Liga na história do clube. Na final, o Real alinhou com César; Salgado, Hierro, Helguera e Roberto Carlos; Makélélé; Figo, Zidane e Solari; Raúl e Totti. Totti foi o artilheiro da competição.
Na Copa do Mundo de 2002, o madridista formou dupla com Vieri à frente de um time muito mais preocupado com a retaguarda. Trapattoni optou por um time defensivo e os resultados na primeira fase não se mostraram muito promissores. Totti também não mostrava bom futebol e o encontro nas oitavas-de-final contra a anfitriã Coréia do Sul era considerado um jogo de risco. Uma bela jogada de Totti logo no início de jogo, servindo Vieri, parecia garantir o resultado do jogo até o final. Mas numa partida tensa, o árbitro Byron Moreno acabou por expulsar Francesco no início do segundo tempo em jogada discutível. A Coréia do Sul encontrou o empate com Seol Ki-Hyeon e Ahn Jung-Hwan decidiu a partida para os donos da casa no final da prorrogação.
Deixar de lado o mau futebol a Copa do Mundo seria a missão de Totti na temporada 2002-03. E se já não fosse suficientemente difícil fazer isso no time vencedor da Liga dos Campeões, a contratação de Ronaldo tinha tudo para melar as perspectivas. Taticamente vulnerável, o Real garantiu o título da Liga Espanhola e da Copa do Rei muito por causa de suas goleadas sobre times mais fracos. Ao alinhar com Figo, Zidane, Totti, Ronaldo e Raúl, a defesa mostrava-se muito mais suscetível a contra-ataques e passava a ser mais questionada. Após um sufoco contra o Manchester United nas quartas-de-final da Liga dos Campeões, o time foi eliminado pela Juventus logo na fase seguinte. No âmbito nacional, o título nacional só foi conquistado graças a um tropeço na penúltima rodada da Real Sociedad, no Balaídos.
Sem exibir o mesmo futebol da temporada anterior, os bastidores de Chamartín pegaram fogo. Del Bosque não aceitou a contratação de Beckham, e não teve seu contrato renovado. Disputas internas ainda forçaram as saídas de Hierro e Morientes. Roman Abramovich, que havia adquirido o Chelsea, aproveitou do clima de instabilidade na Espanha para trazer a dupla Makélélé e Totti, insatisfeita com os rumos que estavam sendo tomados em Madrid. Totti, por sua vez, teria uma missão ainda maior em seus três anos de contrato: substituir Gianfranco Zola, um dos maiores ídolos da história do clube. Além dos dois, em Stamford Bridge também desembarcaram Joe Cole, Mutu, Duff, Verón e Crespo. Recuado para o meio de campo, Totti não rendeu o esperado e passou no banco grande parte do segundo turno, no qual o Chelsea foi coadjuvante no título invicto do Arsenal. Manteve sua má fase na Eurocopa de 2004 e ainda arranha sua imagem ao cuspir em Poulsen logo na estréia.
Totti voltou para a Inglaterra, mas por pouco tempo. Barrado por Mourinho, acabou negociando um retorno para a Itália. Mais uma vez negou a proposta do Milan para desembarcar em uma instável Roma para a temporada 2004-05. Finalmente em seu clube do coração, Francesco recuperou o bom futebol para ao lado de Montella e Mancini salvar a Roma do rebaixamento. Mesmo com quatro técnicos durante a sessão, Totti marca 20 gols e se tornou vice-artilheiro da Série A. Ainda conseguiu classificar a Roma para a Copa da UEFA da temporada seguinte e marcou em seu retorno à seleção italiana. As boas exibições, contudo, não convencem José Mourinho, e Totti foi reemprestado à Roma. Agora com Spaletti, Totti manteve o bom nível da temporada anterior e tornou-se peça chave do time. Antes contestado pela torcida por seu passado laziale, agora era um dos grandes nomes que recolocavam a Roma em posição de destaque ao conquistar a seqüência recorde de onze vitórias consecutivas na Série A. Mas uma lesão na fíbula esquerda no encontro contra o Empoli, em fevereiro de 2006, põe em xeque toda a recuperação - e talvez a última chance de se mostrar em âmbito internacional, numa Copa do Mundo.
Com a confiança de Lippi, porém, Totti foi convocado. Mesmo em más condições físicas, tornou-se o trequartista titular do esquema azzurro e peça fundamental para a conquista do tetracampeonato. Três assistências em seus três primeiros jogos lhe valeram a confiança do país que apostava em sua recuperação. Visivelmente fora de forma, só entrou no segundo tempo das oitavas-de-final e marcou o gol da classificação contra a Austrália. Nas quartas, um toque de letra para Zambrotta abriu a vitória frente à Ucrânia, fechada com um cruzamento na medida para Toni. Na semifinal contra a Alemanha armou o contra-ataque que fulminou as chances germânicas, com o segundo gol italiano, e contra a França saiu no intervalo após participar intensamente do jogo.
Aos 29 anos, campeão do mundo, de alma lavada e sem contrato. Essa era a condição de Francesco Totti em julho de 2006. Propostas milionárias não faltavam, sua vontade ficou acima dos contratos milionários: fechou com a Roma, para dar prosseguimento ao projeto de Spaletti, Pradè e Conti. Para 2006-07, se o dinheiro faltava, sobrava vontade ao elenco. O segundo lugar no Campeonato Italiano apenas sublinhava a estratosférica diferença de investimentos entre Internazionale e Roma. Totti, artilheiro do campeonato, mostrava seu futebol em alto nível. A chegada até as quartas-de-final da Liga dos Campeões, onde ocorreu a histórica eliminação contra o Manchester United, ainda era um avanço para um clube saneado. E para Totti, mais um momento de questionamentos.
Braitner Moreira (colaboração especial)