Era 29 de maio de 1985 e as 58 mil pessoas presentes ao estádio de Heysel, em Bruxelas, esperavam pela final da Copa dos Campeões. O clima não era dos mais amistosos. A torcida do Liverpool ameaçava, avançando em bloco em direção ao setor de juventinos. A prática era comum nos estádios da Inglaterra e, cientes disso, os italianos ignoravam a atitude e a fama de violentos dos reds. Só devolviam os insultos e trocavam cuspes e objetos pequenos. Nada muito mais grave.
Não foi um dos momentos mais agradáveis, mas o jogo rolou nesse clima hostil e a Juventus comemorou seu primeiro título da Copa dos Campeões com um gol de Platini e impediu o bicampeonato do Liverpool. Era o fim da era de domínio – quase monopólio – inglês na Copa dos Campeões.
A conquista bianconera mostrou que a Itália se tornava a grande potência do futebol europeu da segunda metade daquela década. Depois de um longo período de baixa, os italianos se reestruturaram e enriqueceram rapidamente, contratando alguns dos principais jogadores do futebol mundial. Enquanto isso, os ingleses ainda estavam iludidos pelos sete títulos em oito anos (entre 1977 e 1984) e se consideravam imbatíveis. Por isso, mantiveram a política de times basicamente britânicos, com jogadores ingleses, escoceses, irlandeses e galeses.
Isso criou um clima de passividade na Inglaterra, que não viu crescer o hooliganism em seu futebol. Pequenos incidentes continuavam ocorrendo, mas os mais puristas e tradicionalistas argumentavam que os casos de violência eram reflexos da sociedade da época e que não havia motivo para desespero.
Mais atenção chamaram as eliminações prematuras de Everton (1985-86 e 1987-88), Liverpool (1986-87 e 1988-89) na Copa dos Campeões. Nesse período, as únicas boas campanhas inglesas em competições continentais foram do surpreendente Coventry City na Recopa de 1987-88 e do Nottingham Forest na Copa da Uefa de 1988-89. Ambas equipes chegaram às semifinais.
Os quatro anos de más campanhas européias começaram a expor o estado enfermo do futebol inglês. O ápice foi o desastre de Hillsborough, em que 96 torcedores do Liverpool morreram – a maioria esmagada – antes do confronto entre seu time e o Nottingham Forest pela semifinal da Copa da Inglaterra.
As cenas apareceram nas TVs britânicas como se fossem imagens de bombas caindo sobre cidades inglesas. O choque foi tremendo, pois, até aquele momento, a opinião pública acreditava que a ação dos hooligans e a falta de controle dos torcedores não causava grandes riscos para inocentes. A sociedade passou a exigir atitudes drásticas do governo e a imprensa apelou para o sensacionalismo como forma de desviar do fato de que, até então, ela não havia alertado para esse risco.
A soma de todos esses fatores abaixou drasticamente a auto-estima do futebol inglês. Na esteira da crise, o English Team de Bobby Robson foi eliminado por Suécia e Polônia nas Eliminatórias e nem foi ao Mundial da Itália. Nas copas européias, os estádios ingleses foram interditados em competições internacionais a pedido do próprio governo britânico e os clubes tiveram de mandar suas partidas em França ou Bélgica.
Enquanto o governo preparava um pacote de medidas para reduzir a violência dos estádios, os clubes perceberam que havia uma queda abismal no faturamento dos clubes. A audiência na TV caiu devido a um certo enojamento do público e o campeonato de 1990-91 foi medíocre, com o Liverpool ganhando com extrema facilidade diante de equipes desmotivadas.
Nesse cenário, era preciso mudar toda a cara do futebol da Inglaterra. A saída encontrada: criar uma nova liga, com novos parâmetros, nova organização e forte ênfase em medidas que mostrassem um suposto profissionalismo no esporte mais popular do país. Com o surgimento da Premier League, em 1992, os torcedores tinham garantia de segurança e havia inibição da união de potenciais hooligans. O público retornou aos estádios, a audiência na TV aumentou e os clubes voltaram a lucrar.
O problema é que a Inglaterra ainda estava tecnicamente defasada. Os anos de isolamento auto-infligido deixaram os jogadores com falta de experiência recente em jogos de alto nível e as campanhas nas competições internacionais eram pífias. Até porque os próprios ingleses mudaram os planos e decidiram que, em um primeiro momento, era mais importante cuidar da própria casa e nem a classificação para a Copa do Mundo de 1994 era secundária.
Apenas na segunda metade da década de 1990 a Inglaterra se recolocou na elite européia. Os clubes, que se reestruturaram e enriqueceram gradualmente já tinham condições de concorrer com centros como Itália e Espanha pelos melhores jogadores do mundo. A seleção inglesa também aproveitou o surgimento de uma nova geração e, em 1998, fez uma campanha digna na Copa do Mundo da França.
Nesse processo, a organização da Eurocopa de 1996 foi fundamental. O torneio foi organizado com muito cuidado por governo, federação inglesa e clubes. Foi a oportunidade de mostrar uma nova face do futebol da Inglaterra, com estádios seguros e torcedores alegres e pacíficos. Mesmo com a eliminação contra a Espanha nas quartas-de-final, aquele torneio até hoje é lembrado com carinho pelos ingleses, pois provou que o país estava recuperado de sua mais profunda crise.
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Pauta sugerida por Brunny Calejón.
Ubiratan Leal
Obs.: Esse “artigo” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levado a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.
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