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12/04/07

Histórias

Depois de 105 anos, o futebol voltou ao Croker

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Na Europa, é comum uma seleção nacional ter seu estádio. Casos de Wembley, Millenium, Stade de France e Hampden Park. Na Irlanda, a casa da seleção local sempre foi o Lansdowne Road. No entanto, o estádio entrou em reforma no final de 2006 para aumentar sua capacidade de 36 mil para 50 mil torcedores e os Boys in Green ficaram desabrigados. O que acabou provocando a quebra de uma larga tradição do esporte na Irlanda.

O único grande estádio irlandês além do Lansdowne Road é o Croke Park, também em Dublin. Aliás, o Croker é muito maior que o estádio pertencente à federação de rúgbi do país, pois tem capacidade para 82,5 mil pessoas. O problema é que era proibido seu uso para jogos de futebol.

O Croke Park – também chamado pelo nome em irlandês Páirc an Chrócaigh – tem íntima ligação com os ideais nacionalistas da Irlanda. No século XIX, um terreno na Jones Road começou a ser utilizado para várias partidas de futebol gaélico e hurling. Em 1908, o jornalista Frank Dineen, dirigente da GAA (Associação Atlética Gaélica), comprou o campo para transformar ali na casa dos esportes tradicionais da Irlanda. Em 1913, a própria GAA comprou o local e deu o nome de Croke Park em homenagem a Thomas Croke, arcebispo e patrono da entidade.

Aos poucos foram construídas as primeiras arquibancadas. O estádio continuou crescendo em importância, mesmo depois do fatídico 21 de novembro de 1920 (em plena Guerra da Independência da Irlanda), quando a política britânica invadiu o local atirando durante um jogo de futebol gaélico entre Dublin e Tipperary. Foram mortas 14 pessoas, incluindo o jogador Michael Hogan. Depois, as autoridades britânicas ainda trocaram tiros pela capital irlandesa, matando mais rebeldes. Aquele dia ficou conhecido como Bloody Sunday (Domingo Sangrento).

O vínculo entre o nacionalismo irlandês e o Croke Park estava selado. Uma das arquibancadas, inclusive, recebeu o nome de Hogan Stand em homenagem ao jogador morto em 1920. O que praticamente tornou inviável a prática do futebol no maior estádio da Irlanda. Ainda mais porque a GAA construiu todo o estádio, bancando suas ampliações e reformas sem ajuda do governo ou de empresas.

Irlanda_Hurling.jpg

Para os irlandeses, o futebol é um esporte estrangeiro, criado pelos rivais ingleses. A GAA tinha por objetivo justamente promover modalidades 100% irlandesas. Até a década de 1970, uma determinação da entidade previa que um membro seria expulso se fosse pego jogando futebol, críquete ou rúgbi. Essa regra caiu, mas outra impedia o uso de propriedade da GAA para a prática de modalidades que entrassem em conflito com os interesses da associação. E, no caso, futebol, críquete e rúgbi eram vistos como concorrentes de futebol gaélico e hurling.

Curiosamente, o primeiro esporte de origem não-irlandesa disputado no Croke Park foi o futebol americano. Como essa modalidade não representava um risco à popularidade dos jogos da GAA, foram organizados duas partidas em 1996 e 1997. A primeira foi entre Notre Dame (universidade ligada à comunidade irlandesa em Indiana) e Navy (universidade da marinha norte-americana), com vitória dos Fighting Irish por 54 x 27.

Ficava evidente que a ortodoxia da GAA deixava de fazer sentido. Os esportes “ingleses” já haviam se consolidado na sociedade irlandesa e isso não impediu a sobrevivência das modalidades gaélicas. Assim, o veto do Croker soava como uma atitude antipática e que limitava o uso do que deveria ser o estádio nacional da Irlanda.

Em abril de 2005, a GAA teve de reunir para analisar o pedido de liberar o Croke Park para jogos de futebol e rúgbi. As seleções irlandesas dos dois esportes ficariam desabrigadas com a reforma de Lansdowne Road e a melhor opção era realmente a casa dos esportes gaélicos. A proposta foi aprovada por 227 x 97 (11 votos a mais que o mínimo exigido) e a regra que impedia a entrada do futebol e do rúgbi foi flexibilizada temporariamente. Até 2009.

Na estréia no Croke Park, a seleção irlandesa de rúgbi perdeu para a França por 20 x 17 no Seis Nações 2007. A segunda partida foi a que representou maior choque: Irlanda x Inglaterra. Desde a independência da Irlanda, o hino inglês só foi tocado no local em que ocorrera o Bloody Sunday uma vez, na cerimônia de abertura dos Jogos Especiais em 2002, e a Union Jack (bandeira do Reino Unido) só fora mostrada em um show de rock em 1986. Inspirados, os irlandeses fizeram uma grande partida e venceram por 43 x 13, a maior “goleada” de sua história sobre a Inglaterra no rúgbi.

No futebol, as primeiras partidas ocorreram no final de março. A Irlanda venceu Gales (outro país de origem céltica) e Eslováquia por 1 x 0. Contra os galeses, 72,5 mil pessoas praticamente lotaram o estádio para a primeira partida de futebol no local desde 1901, na época em que ainda era um campo na Jones Road sem ligação com a GAA. Foi um momento histórico, em que o futebol conseguiu, depois de mais de um século, entrar no maior estádio da Irlanda sem que isso soasse como invasão ou perigo aos esportes gaélicos.

*

Pauta sugerida por Roberto Piantino.

Ubiratan Leal

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