A quatro meses do início dos Jogos Pan-Americanos, pipocam na imprensa denúncias de erros administrativos, nepotismo e mau uso dos recursos. Pior, o governo se vê obrigado a, de última hora, arcar com despesas imprevistas para salvar o evento e manter o espírito de euforia em torno da competição. Se Carlos Arthur Nuzman tanto disse que o Pan-Americano serviria de piloto para uma eventual candidatura olímpica, ele acertou. No caso, o Pan já deu uma amostra do que se pode esperar de uma pretensão brasileira de organizar grandes eventos esportivos. Como a Copa do Mundo.
Receber o maior torneio de futebol do planeta seria ótimo para o Brasil. O evento alavancaria uma série de investimentos que o país precisa fazer, mas não tem motivação política ou pretexto para realizá-los. Com a Copa, poder-se-ia reurbanizar as principais cidades, organizar os sistemas viários, investir em transporte coletivo, reequipar os aeroportos, investir na imagem do país no exterior, movimentar a vida cultural e, claro, modernizar os estádios ou construir novos.
Se tudo isso fosse feito, a Copa seria bem-vinda, independentemente de o Brasil ter outras prioridades, como educação, saúde e diminuição da desigualdade social. Afinal, é legítimo argumentar que os investimentos do Mundial impulsionariam a economia e as áreas prioritárias acabariam se beneficiando indiretamente. Até porque o fato de uma área ser prioritária não significa que as outras devam ser abandonadas.
O problema é a sociedade confiar que isso realmente será feito. A tradição nos grandes eventos no Brasil é fazer as obras de última hora, sem cumprir as promessas, estourando orçamento e invocando o orgulho para pedir ajuda do governo. No meio do caminho, expedientes como contratos estranhos e contratações de serviços nebulosas.

No processo de candidatura para o Pan-Americano, a promessa era de uma revolução no Rio de Janeiro. Novas linhas de metrô, linha de transporte marítimo ligando a Barra da Tijuca com o centro, novas praças esportivas, despoluição da baía da Guanabara e uma série de outras obras. Tudo isso a um orçamento baixíssimo, tão baixo que gerava desconfianças desde o início.
Parte da imprensa e da sociedade alertou para os riscos desse projeto (os mesmos de dois parágrafos acima). Em vão. O Rio de Janeiro bateu San Antonio (o que nem tem tanto mérito quanto parece, pois a Odepa – Organização Desportiva Pan-Americana – declaradamente prioriza um revezamento entre Américas do Norte, Central/Caribe e do Sul na organização do Pan e em 2007 era vez dos sul-americanos) e não houve pudor em fazer tudo o que se imaginava. Chegou-se perto do absurdo de fazer um Pan-Americano no Rio de Janeiro sem competição de vela por falta de local para competição.
Por isso, fica a forte sensação que uma eventual Copa do Mundo no Brasil teria os mesmos problemas, mas em proporções muito maiores pelo próprio tamanho do evento. E isso independe de a imprensa alertar, de a sociedade reclamar e de o poder público fingir que fiscaliza. É algo que está na raiz da estrutura do esporte brasileiro. E, enquanto isso não mudar, sonhar fica muito difícil.
Ubiratan Leal
Textos relacionados
O perigo da candidatura colombiana à Copa
O poder político que a Copa de 2014 dá
O Brasil tem de levar a sério os eventos que recebe
O futebol também usa a política
Três anos e vinte passos para trás