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14/03/07

Histórias

Os leões que viraram cachorros

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Poucos aficionados terão paciência para isso, mas quem olhar a classificação da Zona Ocidente da Segunda División (equivalente à terceira) mexicana perceberá que o último colocado é um tal de Cachorros de Universidad de Guadalajara (UDG). O desatento passará direto por essa informação, sem saber que se trata de uma equipe que foi vice-campeã mexicana três vezes, já venceu o São Paulo na Copa São Paulo de juniores e tem até um título da Copa dos Campeões da Concacaf.

A falha seria desculpável, pois a história atribulada do time da UDG inclui mudanças de nome e até encerramento das atividades. Em agosto de 1970, ainda no embalo da Copa do Mundo que o México organizara com sucesso dois meses antes, a direção da Universidad de Guadalajara decidiu criar um clube profissional. Seria o quarto da cidade, que já contava com Chivas, Atlas e Nacional.

A UDG precisou de apenas duas temporadas para conseguir a promoção para a Segundona. Em 1973-74, os udegeístas chegaram à final, mas perderam para os tradicionais Tigres da UANL. A diretoria não quis esperar mais um ano para chegar à elite e comprou a franquia do Torreón, que estava em dificuldades financeiras.

Para a estréia na primeira divisão, o clube contratou um trio brasileiro: Nenê, Eusébio e Jair. Depois de um início titubeante, os tapatíos reagiram e terminaram a competição em oitavo lugar.

A temporada seguinte foi ainda mais brilhante. O trio brasileiro ganhava destaque com seu futebol rápido e habilidoso. Em homenagem a eles, o próprio time recebeu o apelido de “leones negros” (os três eram negros). A UDG chegou à final contra o poderoso América, que acabou se impondo: 4 x 0 no placar somado. No ano seguinte, mais uma vez os udegeístas foram à decisão, mas caíram diante dos Pumas da Unam.

O vice-campeonato deu direito aos Leones Negros de disputarem a Copa dos Campeões da Concacaf. Na Zona Norte-Americana, a UDG venceu os Pumas por 1 x 0 nas duas partidas e conquistou a chave. O regulamento previa um triangular final contra os vencedores das Zonas Centro-americana (Comunicaciones, da Guatemala) e Caribenha (Defense Force, de Trinidad e Tobago). Como os clubes não entraram em acordo para as datas da fase final, a Concacaf cancelou o triangular e considerou as três equipes vencedoras da Copa dos Campeões de 1978.

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Apesar do sucesso rápido, aos poucos os Leones Negros começaram a sentir os efeitos a falta de torcida. Tendo de concorrer com o gigante Chivas e o já tradicional Atlas (o Nacional já despencara), os colorines – apelido devido ao excesso de cores da camisa do clube – e tinham poucos torcedores. Ainda assim, os colorines integraram a Clube Unidos de Guadalajara, instituição também composta por Atlas, Chivas, Nacional e Club Oro que é proprietária até hoje do estádio Jalisco.

Os únicos jogos em que havia um pouco mais de apoio eram os duelos contra os Tecos da UAG (Universidad Autónoma de Guadalajara), fundado em 1971. Menos pelo futebol, mais pela histórica rivalidade entre as duas instituições, esses encontros mobilizavam as comunidades das duas universidades.

Com isso, as campanhas dos Leones Negros foram piorando. À exceção de 1984-85 e 1987-88, quando novamente alcançou (e perdeu) a final, a Universidad de Guadalajara se estabelecera como uma equipe mediana no México. Em 1988, o clube foi conhecido de perto pelos brasileiros, pois disputou a Copa São Paulo de juniores. Venceu o São Paulo na estréia, mas perderam para Bahia e XV de Jaú e foram eliminados na primeira fase.

A própria universidade já não tinha o mesmo pique para manter um time de futebol profissional. A equipe não era bem administrada e, com a pequena torcida, não tinha boa receita de bilheteria. Em 1994, a federação mexicana comprou da UDG a franquia dos Leones Negros e fechou o time.

Desde então, alguns saudosos tratavam os Leones Negros da UDG com certa nostalgia, imaginando um dia em que Guadalajara teria de volta sua terceira equipe. No início desta década, a direção da universidade decidiu retornar às disputas oficiais, apesar de não investir muito nisso.

O time, ainda frágil, reapareceu com novo apelido: Cachorros (que pode ser aplicado para animais pequenos, não necessariamente cães). A equipe ingressou direto na terceira divisão (que se chama Segunda División) e, em 2004, esteve a um jogo de subir para a Primera A (Segundona). Mas perderam para os Académicos, atual Coyotes de Sonora, e voltaram a decair. Hoje, estão na lanterna de sua chave na Terceirona. Pelo visto, ainda vai demorar para os udegeístas voltarem a ver seu time na elite do futebol mexicano.

Ubiratan Leal

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