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27/03/07

O mundo não é uma bola...

Os gols voltam e a Irlanda do Norte sobe

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Quando Sammy McIlroy foi demitido do cargo de técnico da Irlanda do Norte, o futebol de seu país não parecia ver saída. O time não fazia gol há mais de 10 partidas e era, de longe, o pior das ilhas Britânicas. Atrás até de Gales e da decadente Escócia. No desespero, a federação norte-irlandesa contratou Lawrie Sanchez, ex-jogador sem brilho que treinava o Wimbledon, também sem destaque. Pois a Norn Iron passou a crescer justamente aí. Primeiro, encontrou o gol. Depois, as vitórias. Agora, a ambição.

Historicamente, a Irlanda do Norte foi a representante mais forte do futebol irlandês por décadas. Em 1957, eliminou a Itália nas Eliminatórias da Copa do Mundo e, na competição propriamente dita, ficou à frente de Argentina e Tchecoslováquia para chegar às quartas-de-final. Na década seguinte, revelou ao mundo George Best, mas não conseguiu participar de uma competição importante.

Nos anos 1980, o Green & White Army voltou a apresentar uma geração talentosa, com destaques para o goleiro Pat Jennings e os atacantes Whiteside (jogador mais jovem a atuar em uma Copa do Mundo) e Armstrong. Com esse time, os norte-irlandeses fizeram uma boa campanha no Mundial de 1982 e outra nem tão positiva em 1986. Depois disso, restou apenas uma sombra que vagava como coadjuvante em Eliminatórias para Copas e Eurocopas.

A maré voltou a favorecer a Norn Iron em fevereiro de 2004, logo no primeiro jogo sob o comando de Sanchez. Em um amistoso, a seleção perdeu da Noruega por 4 x 1. Resultado ruim, mas, ao menos, Healy acabou com a série de 1.298 minutos sem marcar um golzinho sequer. No mês seguinte, os norte-irlandeses fizeram 1 x 0 na Estônia e acabaram com a seqüência de 14 jogos sem vitórias.

Aos poucos, a Irlanda do Norte recuperava sua confiança. No papel, a equipe é fraquíssima. Os nomes de maior destaque são o goleiro Roy Caroll (ex-Manchester United, atualmente no West Ham), o zagueiro Hughes (Aston Villa), os meias Gillespie (Sheffield United) e Damien Johnson (Birmingham City) e o atacante Healy (Leeds United).

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Mesmo desprovido de talento, o time ao menos ganhou consistência com o novo treinador. A Irlanda do Norte recuperou o espírito aguerrido dos jogadores e, na base da raça, tem se tornado mais competitiva. A equipe joga fechada, com a defesa pronta para aceitar o assédio adversário e ligar contra-ataques que abusam do jogo aéreo e de lançamentos longos.

Nas Eliminatórias para a Copa de 2006, a seleção cresceu gradualmente. Depois de estrear com derrota por 3 x 0 para a Polônia em Belfast e empatar sem gols com o Azerbaijão, os norte-irlandeses conseguiram resultado importantíssimo para a história recente: 1 x 0 sobre a Inglaterra em setembro de 2005.

Essa vitória recuperou a auto-estima da torcida e criou uma onda de patriotismo grande (algo significativo em um país em que parte da população – a católica – prefere a República da Irlanda à Irlanda do Norte, por mais que, hoje, os torcedores de uma parte da ilha já simpatizem com a outra). Em um ato de auto-ironia, os torcedores da Norn Iron passaram a cantar coisas como “Não somos o Brasil, somos a Irlanda do Norte” e “Isso é como assistir ao Brasil”.

Não havia tempo para realizar uma grande campanha ainda nas Eliminatórias da Copa, mas, ao menos, os norte-irlandeses ficaram à frente de Gales. A nova onda do futebol da Irlanda do Norte ganhou ainda mais força nas Elimiantórias para a Eurocopa 2008. Na estréia, a seleção fez uma apresentação pífia e perdeu por 3 x 0 da Islândia em casa. Lawrie Sanchez foi duramente criticado e ameaçou se demitir. Mas ficou.

Sorte da Irlanda do Norte. Na segunda partida, Healy fez três gols em uma espetacular virada sobre a Espanha por 3 x 2. Aos 27 anos, o atacante do Leeds United – com passagem anônima por Manchester United, Port Vale, Preston North End e Norwich City – assumia definitivamente o papel de líder e revelação da equipe. Depois de um hercúleo empate sem gols com a Dinamarca em Copenhague, os norte-irlandeses conseguiram duas vitórias seguidas, sobre Letônia e Liechtenstein. Para quem ficou quase 1,3 mil minutos sem fazer gol, a marca de cinco tentos (desses, quatro e Healy) em duas partidas é notável.

Nesta quarta, a Irlanda do Norte venceu a Suécia de virada, assumiu a liderança do Grupo F e se colocou como real concorrente a um lugar no Euro 2008. Isso em uma chave complicada, em que já estão Espanha, Dinamarca, Suécia e Letônia, todas essas seleções que disputaram a Eurocopa de 2004. Como ainda tem o segundo turno das Eliminatórias pela frente, a expectativa é que os norte-irlandeses percam fôlego. Ainda assim, já se vê o despertar do futebol no país que, historicamente, é muito mais que o vizinho pequeno da Irlanda.

*

Se alguém ficou curioso com o sobrenome de Lawrie Sanchez (ou Lawrence Philip Sanchez), seu pai é equatoriano.

Ubiratan Leal

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