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1/03/07

Brazil

O pior do Corinthians é a falta de perspectiva

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Há tempos, os campeonatos estaduais significam pouco para os grandes clubes brasileiros. Ainda mais em São Paulo, onde a dedicação exclusiva ao Paulistão é até vista como coisa de time pequeno. Por isso, a má campanha do Corinthians na competição não deve ser vista com preocupação. E teoria, ela poderia ser apenas um amontoado de números. O problema realmente é que os resultados ruins refletem uma falta de perspectiva para a equipe nesta temporada.

Até agora, não se sabe exatamente que tipo de time o técnico Émerson Leão ou a diretoria de futebol (se é que ela existe) pretende ter para o Brasileirão. No início da temporada, até que o time titular ideal não era dos piores: Marcelo; Eduardo Ratinho, Betão, Marinho e Wellington; Marcelo Mattos, Magrão, Rosinei e Roger; Amoroso e Nilmar. O problema é que essa equipe não é resultado de planejamento, mas apenas uma organização feita com base nos atletas que compunham o elenco corintiano.

Há vários exemplos de como o Corinthians está largado à própria sorte. A diretoria, ao contratar jogadores, não trouxe reservas para compor um elenco mais sólido. Também ficou evidente que algumas contratações não tiveram observação criteriosa, como Jean (goleiro), Wellington, Daniel e Jaílson. Em casos como esse, pareceu o fracassado time do Paulistão de 2005, em que os jogadores foram contratados mais pela disponibilidade no mercado do que pela necessidade técnica.

Outro exemplo da falta de projeto foi o excesso de gastos com atacantes (Jean ex-Flamengo, Arce, Jaílson e Christian) para quem já tinha Amoroso, Nilmar e Wílson. Enquanto isso, o único lateral-esquerdo é o fraco Wellington, só há três reservas para o miolo de zaga (setor em que constantemente há jogadores suspensos) e o único armador além de Roger são os inexperientes Willian, de 18 anos, e Élton, de 20 e de saída para a Romênia.

O elenco é torto e suas vulnerabilidades são expostas facilmente. E aí a culpa é do técnico Leão, que é o responsável por montar o grupo e cobrar reforços. E ele realmente fez isso, mas com vários equívocos. O próprio treinador tem pagado por isso.

Contra Guaratinguetá e São Paulo, não havia um lateral-esquerdo à disposição e Leão improvisou Élton na função, como ala em um 3-5-2. A única coisa que qualifica Élton para a ala esquerda é o fato de ser canhoto. De resto, o jogador tem perfil muito ofensivo e tem porte físico de atacante, não de alguém que será obrigado a voltar para marcar o lateral adversário. Esse caso deixou evidente como Leão não domina seu elenco. Não na questão de comportamento, mas no conhecimento das possibilidades táticas que esse grupo oferece.

O que a torcida mais tem a lamentar é que esse Paulistão é estratégico para o futuro próximo do Corinthians. Com a MSI claramente abandonando a parceria, o clube voltou a ser responsável por cuidar do futebol. Não apenas na contratação de jogadores, mas no gerenciamento financeiro do time. O problema é que alguns atletas têm os salários estipulados no período de bonança – casos de Nilmar, Roger, Marcelo Mattos, Magrão e Amoroso –, o que é fora da realidade corintiana atual. Para que eles possam permanecer no elenco, a diretoria tem de ser inteligente para gastar adequadamente os poucos recursos que sobram.

Por não ser um torneio particularmente importante, o Campeonato Paulista permitiria que o Corinthians se organizasse com calma, se redimensionando para implementar uma nova filosofia de trabalho e usar adequadamente os jogadores baratos que contratasse para compor o elenco. Eventuais maus resultados seriam aceitáveis, desde que fossem conseqüência do processo de adaptação e experimentação de uma equipe que cresce aos poucos.

É justamente o que não ocorre. O clube contratou sem pensar direito e, agora, está desesperado para conseguir qualquer dinheiro que possa aparecer. Por isso, não teve pudor em vender Jaílson e Élton – Christian não conta porque foi à revelia do clube – assim que surgiram proposta por ambos. Assim, ao invés de se montar, o Corinthians está se desmontando. Resta ver em que nível estará esse processo quando o Brasileirão começar.

Ubiratan Leal

Imagem: Wander Roberto/VipComm

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