Torcedor tem todo o direito de colocar a paixão à frente da razão. Essa é a sua função no futebol desde que não vire pretexto para fazer coisas ilegais. O pior é quando a imprensa fala mais com a emoção. E é isso que o Flamengo está tendo de enfrentar, justamente quando toma uma atitude mais do que acertada, como no caso de deixar a Taça Rio (segundo turno do estadual fluminense) de lado para priorizar de verdade a disputa da Copa Libertadores.
É realmente difícil argumentar contra a política de Ney Franco. O Flamengo tem um time em construção, que ainda apresenta problemas, mas cresce a cada partida. A torcida rubro-negra quer novo título continental, o segundo mais importante para um clube brasileiro, ainda mais pelo fato de o time não participar da Libertadores desde 2002 e não fazer uma campanha digna desde 1993. Enquanto isso, a equipe da Gávea ganha o Estadual do Rio com constância e, com a conquista da Taça Guanabara, já tem uma vaga na decisão do torneio doméstico.
Somando todos esses fatores, qual o motivo de o Flamengo usar o time titular em partidas contra Nova Iguaçu ou Volta Redonda? O que é mais conveniente no momento: lutar pela Taça Rio para ganhar o Estadual por antecipação ou ter o time em forma para a Libertadores? Se o time titular tropeça no segundo turno – que é cumprimento de tabela para o Flamengo –, não corre o risco desnecessário de entrar em crise? Parece óbvio que as respostas não são favoráveis à competição local.
O único argumento possível em favor do Estadual neste momento é a situação confortável do clube na Libertadores. Com um grupo fraco, em que o Paraná é o único concorrente que pode atrapalhar, a classificação está garantida. Ainda assim, o flamenguista (e a imprensa flamenguista) não pode esquecer que o elenco ainda tem muitos garotos e disputar partidas internacionais, por pior que seja o nível técnico delas, é importante para dar experiência. Até porque, nas próximas fases, os adversários serão mais fortes do que Real Potosí ou Unión Maracaibo.
Tudo isso parece muito óbvio, mas foi só o Flamengo jogar mal contra o Nova Iguaçu e perder do Volta Redonda com o time reserva para parte da imprensa carioca reclamar de modo contundente. As críticas certamente passaram do racional e, por isso, são perigosas. Ney Franco faz um trabalho cuidadoso e diretoria e jogadores acertam em dar respaldo a ele. O time não pode se influenciar por isso.
Ubiratan Leal