Em março, o Flamengo causou polêmica por ter de ir a Potosi para enfrentar o Real Potosí, a quase 4 mil m de altitude. Não é o máximo possível de altura, mas está perto disso. Curiosamente, o Rubro-negro, por ser carioca, joga ao time do nível do mar, o que aumenta o contraste entre as duas equipes. Ainda assim, não é o maior contraste possível. Porque, nem ao nível do mar, o clube do Rio de Janeiro é o mais baixo do mundo.
Se, realmente, o limite fosse o nível do mar, haveria milhares de clubes litorâneos que poderiam se chamar de “o mais baixo do mundo”. A diferença se daria por centímetros, em algum que tivesse sede mais próximo do mar ou um relevo mais plano possível desde a praia. No entanto, a resposta poderia estar em locais abaixo do nível do mar.
O ponto mais baixo da superfície terreste não coberta de gelo é o mar Morto, entre Israel, Cisjordânia e Jordânia, a 417 m abaixo do nível do mar Mediterrâneo (e dos oceanos em geral). Assim, o que houver de futebol nas cidades da região é forte candidato a time com menor altitude do planeta.
Nem é tão difícil chegar ao local. Jericó, uma das cidades mais antigas do mundo (as primeiras ocupações humanas datam de cerca de 11 mil a.C.), está a 240 m abaixo do nível do mar e se diz a mais baixa do mundo. Pela sua importância na região, é de se imaginar que haja futebol por lá, por mais profundos que sejam os problemas políticos e religiosos na cidade.
Aí é que complica. Com os problemas políticos, é difícil organizar campeonatos na Palestina. O território está dividido em duas partes (Cisjordânia e Faixa de Gaza) e não é possível uni-las. Além disso, a instabilidade com a mais recente intifada tornou o futebol profissional quase um sonho. Nem a seleção palestina consegue jogar direito.

Ainda assim, há resquícios de futebol que permitem que se apontem alguns clubes como os mais baixos do mundo. Apesar de todos os problemas, existe uma liga da Palestina, a West Bank Premier League. O torneio é organizado pela federação palestina e conta apenas com equipes cisjordanianas. Há equipes de Jenin, Nablus, Ramallah, Hebron, Jerusalém (parte árabe), Balata, Askar, Tulkarem e, claro, Jericó.
O principal clube da capital da Cisjordânia é o Hilal Areeha, o que seria de fato o clube mais baixo do mundo e teria todos os motivos de reclamar caso enfrentasse o Real Potosí. Aliás, o Hilal já se estabelece como um dos grandes da Palestina, sobretudo após vencer o Campeonato da Liberação de 2005, disputado em comemoração da desocupação israelense na Faixa de Gaza e em partes da Cisjordânia.
O mais interessante é que, além da liga palestina, é disputado uma espécie da Copa da Palestina, toda ela em Jericó. Assim, pode-se dizer que o Campeonato de Inverno de Jericó é a competição mais baixa do mundo. Na edição 2007, oito times participaram do torneio: Albirah, Gabal el Mokaper, Hilal Areeha, Jerusalem Hilal, Shabab al-Amaari, Shbab Alkhaleel, Silwan e Wade al-Nes.
Os clubes se dividiram em duas chaves. No Grupo A ficaram Hilal Areeha, Shbab Alkhaleel, Silwan e Wade al-Nes. Shbab Alkhalel e Wade al-Nes surpreenderam o Hilal Areeha, campeão de 2006, e conquistaram as vagas nas semifinais. No Grupo B, Albirah, Gabal el Mokaper, Jerusalem Hilal e Shabab al-Amaari fizeram uma disputa equilibrada, com Gabal el Mokaper e Jerusalem Hilal se classificando na última rodada.
Nas semifinais, o segundos colocados da fase anterior venceram por 1 x 0 e foram para a decisão. Com um gol de Khader Josef, o Wade al-Nes venceu o Jerusalem Hilal por 1 x 0 na final e se sagrou o campeão do Campeonato de Inverno de Jericó. O torneio dos clubes mais baixos do mundo.
Ubiratan Leal
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