Nove em cada dez brasileiros que comemoravam o pentacampeonato da seleção canarinho na manhã de 30 de junho de 2002 não apostariam sequer um real furado na "família Scolari" alguns meses antes. Tudo porque o Brasil classificara-se com dificuldades nas Eliminatórias sul-americanas e, mais importante, porque sua rival Argentina era cotada como a grande favorita para conquistar a primeira Copa do Mundo a ser disputada na Ásia. Mas o time treinado por Marcelo Bielsa, além de cair no "grupo da morte", com Suécia, Nigéria e Inglaterra, esteve muito aquém das expectativas e foi eliminado (por pouco, é verdade) ainda na primeira fase, enquanto os desacreditados brasileiros voltaram com mais uma estrela verde no peito. Mas como seria se a Argentina tivesse confirmado seu favoritismo?
Ao convocar os 23 jogadores que representariam a Argentina em terras orientais, Marcelo Bielsa fizera uma concessão à imprensa pró-Boca Juniors e convocara o meia Riquelme, figura do bicampeonato dos xeneizes na Libertadores (2000 e 2001), além de um jovem inexperiente chamado Carlos Tevez. Os garotos somar-se-iam a estrelas tarimbadas como Batistuta, Simeone, Verón, Crespo, Samuel e Sorín para compor uma equipe de respeito. Enquanto isso, Luiz Felipe Scolari andava às turras com a imprensa carioca pela não convocação do sempre efetivo Romário, Roger Lemerre afirmara que Zidane estava sem condições físicas de jogar o Mundial e Sven-Goran Eriksson lamentava-se pelo fato de que Beckham poderia desfalcar a Inglaterra nos primeiros jogos da Copa, por uma lesão no pé.
O jogo de estréia dos favoritos argentinos foi contra a Nigéria, em Ibaraki. O domínio das ações por parte dos albicelestes foi flagrante - e apenas a boa atuação do veterano goleiro Rufai impediu que o placar fosse mais dilatado que o 2 x 0 final. O esquema tático de Bielsa funcionara à perfeição contra os africanos: Sorín apoiava o ataque sem descuidar da defesa, Simeone tomava conta do meio-campo e Batistuta convertia os tentos aproveitando dois cruzamentos perfeitos de Ortega.
Se a atmosfera do jogo contra os "Super Águias" fora relativamente amena, o mesmo estava longe de se dizer a respeito de Argentina x Inglaterra. Na terra do Black Sabbath, tablóides reacionários como o The Sun e o Daily Mirror tratavam o jogo como "vingança" pela derrota diante dos albicelestes em 1998, retratando os jogadores platinos como vilões e mal-intencionados. Tal desespero era compreensível pela situação dos ingleses no grupo: a derrota para a Suécia na primeira rodada, com gol nos acréscimos de Ljungberg, obrigara o English Team a bater os argentinos para manter as esperanças de classificação. A sempre indesejável presença de hooligans e barrabravas manteve em alerta a prefeitura de Sapporo, cuja polícia mobilizou nada menos que 500 efetivos para garantir a ordem no recém-inaugurado Sapporo Dome.
Jogo truncadíssimo, com quase todas as ações desenvolvendo-se no meio-campo. Ainda recuperando-se de lesão, Beckham fez um lançamento primoroso para Michael Owen, travado na hora do chute pelo zagueiro Pellegrino. Mas o árbitro egípcio Gamal Ghandour viu pênalti na jogada: Beckham abriu o placar com um chute seco, forte, no meio do gol. Os argentinos demoraram a se encontrar em campo e com muita dificuldade chegavam ao gol de Seaman. No segundo tempo, o técnico sueco do English Team cometeu um deslize fatal: tirou Owen e Lampard, dois homens de frente, e pôs dois volantes, Gerrard e Neville, para tentar segurar o resultado. A covardia teve seu preço: aos 42 minutos da segunda etapa, num escanteio cobrado por Verón, Seaman saiu mal e permitiu a cabeçada de Sorín no ângulo esquerdo. Gol que praticamente sacramentara a eliminação inglesa, confirmada com um pífio 0x0 diante da já eliminada Nigéria.
O empate com os ingleses não abalou nem de longe a campanha argentina: isso ficou confirmado pelos 3 x 1 sobre a Suécia, com gols de Batistuta, Ortega (de pênalti) e Crespo; apesar da derrota, os nórdicos também passaram, em segundo no grupo. Nas oitavas-de-final, a Argentina viajaria até Oita para enfrentar a grande surpresa do torneio: o Senegal só ficara atrás da Dinamarca pelo saldo de gols.
Não que os argentinos tivessem moleza: logo nos primeiros minutos, Bouba Diop e Camara trataram de infernizar a defesa platina, obrigando Cavallero a fazer espetacular defesa aos 9 minutos. No contra-ataque seguinte, Ortega deu passe cirúrgico para Batistuta chutar forte no ângulo de Sylva. O 1 x 0 desanimara os entusiastas africanos, que se perderam em campo definitivamente com o golaço de falta de Ortega, aos 20 minutos, e com uma bomba de Crespo no canto direito, cinco minutos depois. No segundo tempo, Bielsa deu descanso a seus principais solistas: Ortega e Batistuta deram lugar a Riquelme e Tevez.
Os jovens craques do Boca sentiram a falta de experiência em Mundiais, demorando a se encontrar mesmo diante da fraca defesa senegalesa. Não que a classificação corresse risco: recebendo lançamento de Riquelme, que aproveitara um mal passe de Diatta, Tevez deu uma caneta espetacular em Fadiga, driblou o goleiro Sylva e entrou com bola e tudo no gol. A insolência do jovem argentino não passou despercebida ao zagueiro Fadiga: os dois trocaram sopapos e foram expulsos. Mas o 4 x 0 reforçara o favoritismo argentino, ainda mais com as surpreendentes eliminações de França, Portugal e Itália, ainda na primeira fase. Apenas o Brasil - que não convencia - parecia ter forças para encarar o time de Bielsa.
Em 1998, a Argentina estreara na Copa vencendo o Japão por 1 x 0. Naquela ocasião, os nipônicos eram considerados figurantes. Mas jogando em Shizuoka, com um Ecopa Stadium lotado de camisas azuis (e com razoável ajuda da arbitragem para eliminar a Costa Rica nas oitavas-de-final), os orientais tomaram a iniciativa. No entanto, o abafa japonês esbarrara numa sólida retranca armada por Bielsa, que previra essa pressão, explorando a fragilidade do meio e da defesa japoneses a contra-ataques. Num escanteio cobrado da direita, Batistuta fez seu quinto gol na Copa (o terceiro de cabeça). Empurrados pela torcida, os nipônicos insistiram, mas para isso correram riscos: em outro contragolpe, Ortega - já apontado como o jogador mais efetivo da Copa - chutou de longe e acertou a trave esquerda. Mas a bola bateu nas costas do arqueiro Narazaki e entrou, calando 47.000 torcedores e levando os argentinos à fase seguinte.
Quem aguardava os argentinos na semifinal era o arqui-rival Brasil. Tendo eliminado Bélgica e Suécia, o time de Felipão estava motivado pelo retrospecto recente: o Brasil vencera ambos os jogos contra seus rivais nas Eliminatórias, em Belo Horizonte e Buenos Aires. As habituais provocações do jornal portenho Olé desta vez passaram dos limites: uma mulata seminua posara para a capa do dia da partida, irritando Felipão, que fizera um discurso inflamado para motivar Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e companhia. O duelo era apimentado - como se isso fosse necessário - pela briga pela artilharia entre o "Fenômeno" e Batistuta, ambos com cinco gols.
A defesa brasileira - como no restante da Copa - inspirava cuidados: Roque Júnior furou em bola, logo aos cinco minutos, e teve a cara salva pela fantástica defesa de Marcos em chute de Kily González. O tão esperado confronto entre goleadores não ocorreu no primeiro tempo: Ronaldo e Batistuta estavam bastante apagados, enquanto Simeone e Roberto Carlos trocavam empurrões, levando cartões amarelos. No caso do brasileiro, os insistentes pedidos do narrador Galvão Bueno por sua substituição foram calados pela abertura do marcador, na volta do segundo tempo: Ronaldo recebeu de Ronaldinho Gaúcho, passou como quis por Sorín e Ayala e tocou forte, de bico, longe do alcance de Cavallero.
Mas a reação argentina não tardou: Lúcio foi driblado duas vezes por Crespo antes do interista chutar na saída de Marcos. Em seguida, Ronaldinho Gaúcho disputou a bola com o insuportável Simeone. O argentino trombou com o brasileiro e caiu no chão. A encenação digna de Oscar do volante da Internazionale custou caro para o Brasil: Ronaldinho o chutara de leve, e o juiz dinamarquês Kim Milton Nielsen expulsou o craque do Paris Saint-Germain pela transgressão. Num só golpe, a manha argentina estava comprometendo a campanha brasileira.
Os platinos assumiram o controle de jogo, até que Ortega sentira uma fisgada na coxa, após disputa de bola com Émerson. Bielsa se viu forçado a colocar o imberbe Riquelme em campo. Ao contrário do que ocorrera contra Senegal nas oitavas, desta vez o craque boquense foi decisivo: sofreu falta desnecessária de Roberto Carlos na entrada da área. A cobrança perfeita do garoto de Don Torcuato (favela no subúrbio de Buenos Aires) foi realçada pela ausência de reação de Marcos. Faltando segundos para acabar, Riquelme começou a segurar a bola, culminando a festa argentina com um chapéu em Roque Júnior, cuja entrada maldosa lhe rendeu a expulsão - e um princípio de confusão, alimentado pelas provocações verbais de parte dos platinos. Na outra semi, a Alemanha superara a desastrosa arbitragem e batera a Coréia nos pênaltis após o 1x1 no tempo normal, com Oliver Kahn sendo o herói do dia, pegando as cobranças de Ahn Jung-Hwan e Park Ji-Sung.
Não é de se admirar que os brasileiros torceriam apaixonadamente pela contestada equipe de Rudi Vöeller na final, em Yokohama. Mas era inegável que, após a batalha contra o Brasil, os argentinos eram favoritos. As esperanças alemãs estavam em Oliver Kahn (disparado o melhor goleiro da Copa) e na ausência de Ortega por lesão. Mas Riquelme assumira o rol de protagonista, fazendo os argentinos esquecerem da ausência de "El Burrito". Não era surpresa que a Argentina criasse as melhores chances: uma espetacular cabeçada de Crespo foi salva em cima da linha por Kahn. Enquanto isso, Cavallero não era muito incomodado, até porque Klose e Ballack eram neutralizados pela zaga comandada pelo experiente Roberto Ayala.
Demoraria um pouco para que a Albiceleste traduzisse sua superioridade em gols: já no segundo tempo, Riquelme roubou a bola de um desatento Metzelder e chutou forte, mas no meio do gol. Acontece que Oliver Kahn cometeu sua única falha no torneio, permitindo a Crespo abrir o marcador. Pouco depois, um genial corta-luz de Sorín deixou Batistuta à vontade para ampliar, sem dar chances a Kahn. Festa completa para os argentinos no Oriente: o capitão Simeone levantou a taça, enquanto o Obelisco (ponto de comemorações esportivas em Buenos Aires) enchia-se de fãs cantando "Es un sentimiento/No puedo paraaaaar/Olé, olé, olé/Olé, olé, olé, olá/Olé, olé, olé/Y cada día te quiero más/Ooooo...¡¡Argentina!!
As conseqüências do título argentino alterariam muita coisa. Batistuta viria a público anunciar sua aposentadoria da seleção, indo encerrar sua carreira no Catar em troca de suculentos petrodólares. Tendo vendido Riquelme para o Milan, o Boca Juniors enfraqueceria e acabaria sendo eliminado na semifinal da Libertadores de 2003 para o futuro campeão Santos. A habilidade em puxar contra-ataques renderia a Ortega nova oportunidade no futebol italiano, onde ele assinaria com a Juventus, em negociação nebulosa envolvendo o cartola bianconero Luciano Moggi e o Valencia. A perícia tática de Marcelo Bielsa seria reconhecida por Florentino Pérez, que o levou para o Real Madrid onde “El Loco” treinaria ninguém menos que Ronaldo, Beckham, Zidane e Owen. Se bem que, na seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari seria substituído por Carlos Alberto Parreira, independente do resultado do Mundial em terras orientais.
Diogo Terra (colaboração especial)