O Lyon avança com tamanha tranqüilidade no Campeonato Francês que a sensação é de que não há novidades no país. Impressão falsa, resultado de como a campanha dos lioneses tem ofuscado outros fenômenos. Como o reaparecimento do Saint-Étienne nas primeiras posições. Algo que para os mais novos pode não ter significado, mas que representa o retorno de um clube que foi por anos o maior da França e é, até hoje, o maior campeão da Ligue 1.
Hoje, o Saint-Étienne é visto apenas como vizinho menor do Lyon, com quem faz um dos raros clássicos regionais com real rivalidade na França. Mas a história dos verts é muito mais rica que a do time da capital gastronômica francesa. O clube foi fundado em 1933 pelo Grupo Casino, ligado a supermercados e comércio varejista com sede na cidade. A política era comum na França da época. Tanto que a Peugeot havia já fundado o Sochaux em Montbéliard.
A ligação do clube com a Casino era tão forte que o nome original do time era l'Amicale des Employés de la Société des Magasins Casino (abreviado como ASC). As cores, verde e branco, são as mesmas da empresa e o primeiro presidente foi Geoffroy Guichard, fundador do grupo.
Em 1920, a federação francesa determinou que, para ser aceito em campeonatos oficiais, o clube deveria tirar a referência à Casino em seu nome. Para manter as iniciais ASC, o nome escolhido foi Amical Sporting Club. Em 1928, Pierre Guichard (filhode Goeffroy) assumiu a presidência do clube e mudou o nome para Association Sportive Stéphanoise. Em 1933, ao entrar no profissionalismo, foi adotada a denominação atual: Association Sportive de Saint-Étienne (ASSE).
Rapidamente o time passou a se destacar como o mais forte da região de Lyon. Os jogos contra equipes lionesas já tinham rivalidade, pois traziam ara o futebol a rixa entre a sofisticada capital da região contra a industrial Saint-Étienne. Em 1938, os verts chegam à primeira divisão do futebol francês, mas a real consolidação nacional veio apenas duas décadas depois.
O primeiro título veio em 1955, com a Copa Charles Drago (espécie de torneio de consolação para os eliminados prematuramente da Copa da França). Dois anos depois, o ASSE conquistou seu primeiro campeonato nacional, façanha repetida em 1964. Entre 1967 e 1970, o Saint-Étienne foi tetracampeão francês, se tornando definitivamente o maior clube do país na época ao lado do Olympique de Marseille.
Com grande capacidade de revelar jogadores, os verts tinham sempre alguns dos melhores jogadores franceses da geração. Em 1974 e 75, o clube foi bicampeão da liga e da copa da França. Nessa equipe se destacavam Santini (ex-técnico da seleção francesa), Janvion, Lopez e o promissor Rocheteau. Todos teriam passagem nos bleus
Em 1976, o clube fez sua melhor campanha na Copa dos Campeões. Na primeira fase, os franceses venceram o KB, da Dinamarca, sem dificuldade (2 x 0 e 3 x 1). Em seguida, os verts passaram por Rangers (2 x 0 e 2 x 1), Dinamo de Kiev (0 x 2 e 3 x 0) e, nas semifinais, PSV (1 x 0 e 0 x 0).

Assim, com apenas uma derrota, os bicampeões franceses estavam na final contra o poderoso Bayern de Munique de Benckenbauer, Meier, Gerd Müller, Rummenigge, Hönness e Schwarzenbeck. Diante de adversário tão forte, o Saint-Étienne não resistiu. Ainda assim, deu muito trabalho e perdeu apenas por 1 x 0, gol de Roth aos 12 minutos do segundo tempo.
Em 1981, no time em que brilhava Michel Platini, o Saint-Étienne conquistou seu décimo e último título nacional. O clube ainda tinha potencial para crescer, mas envolveu em um escândalo que provocou sua súbita decadência. Em 1982, o presidente Roger Rocher foi acusado de se envolver em um esquema de manipulação de resultados com a federação francesa.
O dirigente foi preso e o ASSE perdeu seu rumo. Os verts passaram a freqüentar a metade de baixo da tabela da Ligue 1, com eventuais rebaixamentos para a Segundona. O impacto só não foi maior porque sua torcida, ainda uma herança da época de glórias, está entre as mais fanáticas da França. Um fenômeno que foi reconhecido quando Saint-Étienne foi escolhida como uma das sedes da Copa de 1998, mesmo sem atrativos turísticos e tendo a vizinha Lyon já recebendo partidas.
Aos poucos, o clube de reconstrói. O Saitn-Étienne ainda sofreu reveses, como em 2001, justamente um ano após o time terminar em sexto lugar na Ligue 1. A Justiça descobriu que o brasileiro Alex Dias e o ucraniano Levitsky tinham passaporte comunitários falsos. A federação francesa ameaçou retirar pontos do clube, mas os verts foram rebaixados em campo.
De qualquer maneira, o clube encontrou forças para se reconstruir mais uma vez. Com o apoio incondicional de sua torcida e a referência do rival Lyon, o maior campeão da Ligue 1 voltou à primeira divisão e, lentamente, sobe na tabela. Por isso, uma eventual conquista de vaga em copa européia pode (e deve) ser saudada.

A fanática torcida stéphanois merece ver seu clube voltar a lutar por títulos
Ubiratan Leal