A eleição de um ex-craque internacional para a presidência da segunda entidade mais importante do futebol não poderia passa incólume no noticiário do mundo. Tanto que muito foi falado sobre o que representa Michel Platini assumir o poder na Uefa. Seria muito bom se isso significasse uma melhoria efetiva no futebol europeu – o que teria reflexos rápidos em todo o mundo –, mas a tendência é que seja um período de mais turbulência.

Por mais que se fale romanticamente do simbolismo de um ex-jogador comandar os rumos do esporte, o fato de o francês ter um passado de atleta é apenas um detalhe. Desde que abandonou o cargo de técnico da seleção da França em 1992 para liderar a candidatura dos gauleses à Copa do Mundo de 1998, Platini se tornou um dirigente convencional. Ele sabe fazer política, usar sua imagem para angariar aliados, falar o que os outros querem ouvir, deixar o idealismo de lado quando é preciso e, sobretudo, entende que o futebol é um grande negócio.
Foi assim que fez um grande trabalho na Copa de 1998. Por mais que tenha enfrentado problemas sérios com a venda de ingressos, o evento francês foi um sucesso na época. O que deu força política para Platini dentro da Fifa, tanto que Joseph Blatter se tornou próximo do ex-craque. A partir daquele momento, o ex-meia de Saint-Etienne e Juventus já se tornava um potencial futuro presidente da Uefa.
Quando oficializada, sua candidatura à entidade européia causou grande rebuliço nas federações do continente. Lennart Johansson, que já havia anunciado sua aposentadoria, voltou atrás para tentar a reeleição. Até porque apenas o sueco e Beckenbauer, que disse que não concorreria com Johansson, teriam força para vencer Platini.
A grande virtude do francês foi saber usar o mesmo discurso que mantém a mesma turma no poder da Fifa desde a eleição de João Havelange em 1974: agradar os pequenos que são mais numerosos e acabam pesando na votação. Platini disse que a Liga dos Campeões está muito concentrada em poucos países e que, por isso, aumentará a competição para 128 clubes e permitirá que cada campeonato nacional tenha, no máximo, três representantes.
Os românticos, saudosos da antiga Copa dos Campeões em que clubes iugoslavos, portugueses, holandeses, poloneses, romenos e turcos eventualmente faziam grandes campanhas pela imprevisibilidade do mata-mata, gostaram. Mas as federações desses países gostaram mais ainda, pois seus filiados não seriam apenas sacos de pancadas para as fases preliminares da LC ou, com alguma sorte, da primeira fase de grupos do torneio.
Mais do que idealismo e democratização da Liga dos Campeões, Platini mostrou esperteza política e capacidade de fazer populismo. O problema é cumprir essa promessa. Os grandes clubes não gostariam de ver seu poder diminuir. Na década passada, eles não tiveram pudor em ameaçar o rompimento com a estrutura da Uefa para criar uma liga continental independente. Se o francês “inventar moda”, eles podem perfeitamente reativar o plano. Empresas interessadas em apoiá-lo não faltam.
Com tudo isso, Platini terá de se afastar ainda mais de seu passado como jogador e abraçar a nova carreira de político para viabilizar sua administração na Uefa. Os dois lados pressionarão – os pequenos, pelo cumprimento das promessas, os grandes, pela manutenção do sistema atual – e ele terá de mediar esse conflito. Que ele mesmo criou ao adotar o tom populista.
Ubiratan Leal
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