Nem sempre se pode confiar em números, mas um, mostrado enfaticamente pela Rede Globo ao final de Brasil x Portugal, foi sintomático: a Seleção não deu um chute a gol sequer no segundo tempo. Mais do que mostrar a inofensividade brasileira após o intervalo, deixou evidente que Dunga, como treinador, ainda precisa crescer para comandar uma equipe em um confronto internacional de alto nível.
O resultados positivos depois da Copa do Mundo passaram a sensação de que Dunga fazia um bom trabalho na Seleção. De fato, há pontos positivos, como tentar criar um novo clima em torno do grupo, com menos festa e aura de “Joga Bonito” e mais trabalho e determinação. O discurso e as atitudes do ex-volante às vezes foram primários, mas funcionaram em alguns casos.
No entanto, até agora o Brasil não tem esquema. Dunga distribuiu jogadores em que confia pelo campo usando alguma coerência e viu que começava a surgir algum entrosamento. Contra a Argentina, jogadas como Elano aparecendo como elemento-surpresa pela direita e Kaká puxando contra-ataque deram certo. Mas em outras partidas, isso não funcionou. Sinal de que ainda é um sistema de jogo em consolidação.
Diante de Portugal, Dunga cometeu erros primários, como colocar Adriano e Fred juntos no segundo tempo. Com dois jogadores fixos na área, o ataque brasileiro ficou lento e facilmente marcável pela defesa adversária. O meio-campo passou a ter mais trabalho na armação e também se viu dominado pelos portugueses. Disso surgiu a ausência de arremates brasileiros no segundo tempo. Não lembrou muito a Seleção que fracassou na Alemanha?
Se o Brasil de Dunga tivesse um esquema tático mais sólido, os jogadores buscariam naturalmente por opções ofensivas. Os laterais avançariam mais para da suporte aos meias, volantes apareceriam no apoio e, claro, a equipe não se deixaria surpreender tão facilmente em um contra-ataque que nem foi tão veloz como ocorreu no gol de Simão Sabrosa.
Claro, esse trabalho tem apenas seis meses e ainda não se pode cobrar por um conjunto afinado. Mas já poderia ter surgido alguma coisa. Houve bons resultados contra adversários decentes (Suíça, Equador e Argentina em formação), o que confirma que Dunga acertou em algumas medidas. O técnico, porém, parece mais preocupado em se impor para mostrar que merece estar no cargo – só isso para justificar a colocação de Ronaldinho no banco de reservas – do que em começar a montar uma equipe competitiva de verdade.
Já não é mais hora de ficar apenas em experiências. Depois de seis jogos, uma base, com um esquema, tem de começar a surgir. Mas, até agora, não se pode imaginar como o Brasil jogará na Copa América e no início das Eliminatórias.
Ubiratan Leal
Imagem: Agência CBF