Na década de 1960, a Guerra Fria estava no auge e era difícil imaginar os Estados Unidos se curvando a representantes de um exército comunista. No máximo, se fosse no distante Vietnã, mas jamais em Nova York. Pelo menos era assim até um grupo de tchecoslovacos mostrar a força do Leste Europeu e conquistar o público norte-americano. Era o Dukla Praha, que se transformou em sinônimo do bom futebol da Tchecoslováquia no cenário internacional e, hoje, está esquecido.
O clube foi fundado pelo exército de seu país em 1947 como ATK (Armádní Telovychovny Klub, Clube de Educação Física do Exército em tcheco). O clube manteve esse nome até 1953, quando mudou para UDA (Ústrední Dum Armády, Casa Central do Exército em tcheco). Até 1956, quando finalmente passou a se chamar Dukla Praha, o time conquistou uma Copa da Tchecoslováquia, em 1952.
Com o novo nome, o clube explodiu. Logo na primeira temporada, conquistou o título nacional com uma grande campanha, vencendo inclusive o Spartak Praha Sokolovo (atual Sparta Praha) por 9 x 0. O time conquistou sete Campeonatos Tchecoslovacos em um intervalo de 11 anos.
Nessa época, o Dukla se aproveitava da grande geração de jogadores que surgira nas categorias de base do clube. O maior ícone era o meia Masopust, talvez o maior jogador da história do futebol da Tchecoslováquia e capitão na campanha do vice-campeonato mundial de 1962, mas também se destacavam o zagueiro Novák e o volante Pluskal.
Em competições internacionais, o desempenho era mais modesto. Apesar de praticar um futebol que ganhou fama na Europa por ser vistoso e técnico, o máximo que o time grená e amarelo conseguiu foi alcançar as quartas-de-final da Copa dos Campeões em três oportunidades.
Isso só mudou em 1961, quando o clube foi convidado para participar da International Soccer League em Nova York. O torneio foi criado pelo empresário Bill Cox, que achava viável promover o futebol profissional nos Estados Unidos, aproveitando o público de imigrantes de primeira geração que haviam se mudado para o país.
O Dukla ficou na Divisão II, ao lado de Español (ESP), Concordia Montreal (CAN), Crvena Zvezda (IUG, conhecido no Brasil como Estrela Vermelha), Monaco (FRA), Petah Tikva (ISR), Rapid Wien (AUT) e Shamrock Rovers (IRL). A campanha na primeira fase foi quase perfeita com seis vitórias (entre elas 4 x 2 no Crvena Zvezda, 5 x 1 no Español e 6 x 0 no Rapid Wien) e apenas um empate (2 x 2 com o Concordia Montreal) e assegurou um lugar na final contra o Everton (ING), vencedor da Divisão I depois de superar o Bangu, campeão do ano anterior.
Na decisão em duas partidas, o Dukla massacrou o time inglês. No intervalo do jogo “de ida”, os tchecoslovacos já venciam por inacreditáveis 5 x 0. Depois de enfiar 7 x 2 na primeira partida, o clube do exército da Tchecoslováquia apenas administrou o segundo jogo e ganhou por 2 x 0. O jornalista e escritor tcheco Ota Pavel se inspirou nessa conquista para escrever o livro “Dukla mezi mrakodrapy” (“Dukla entre Arranha-Céus”).

O Dukla impressionou tanto que não foi convidado para defender seu título da ISL. O torneio foi disputado normalmente e seu campeão enfrentaria o clube do Leste Europeu na American Challenge Cup. Em 1962, os tchecoslovacos superaram o América-RJ, campeão da ISL, com um empate (1 x 1) e uma vitória (2 x 1) na final. Em 1963 e 64, o Dukla manteve seu título ao bater, pela ordem, West Ham United e Zaglebie Lubin, da Polônia. A hegemonia dos tchecoslovacos no torneio amistoso nova-iorquino caiu apenas em 1965, com a vitória do Polonia Bytom.
Com o final da geração vitoriosa da década de 1960, o Dukla teve uma pequena queda. Apenas na segunda metade da década seguinte, com um time em que se destacavam o goleiro Viktor (famoso por correr desesperado para sua meta quando Pelé tentou fazer um gol do meio-campo no jogo Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia na Copa de 1970) e o atacante Nehoda. O Dukla conquistou mais três títulos nacionais (1977, 79 e 82), seus últimos até hoje.
Na década de 1980, o time perdeu força diante dos rivais locais Sparta e Slavia. Esse processo se intensificou após a queda do governo comunista, pois a antipatia pelos símbolos do antigo regime – incluindo o Exército e seu clube – cresceu em todo o país. Uma das poucas glórias do clube nessa época foi revelar o meia Nedved.
Em 1993-94, na primeira temporada após a Separação de Veludo (entre República Tcheca e Eslováquia), o Dukla foi lanterna, com apenas uma vitória em 30 jogos. Com graves problemas econômicos, o ex-time do Exército comunista foi rebaixado diretamente para a terceira divisão. Jogando no grupo de Praga, o Dukla foi promovido em sua segunda tentativa.
Na verdade, houve uma mãozinha para isso. O empresário Bohumil Duricko decidiu recuperar a grandeza do Dukla e comprou o clube, fundindo-o com o Pribram, que estava na Segundona. Em 1996-97, o time recebeu grandes investimentos e foi campeão da segunda divisão, além de ficar com um surpreendente vice da Copa da República Tcheca.
Quando aprecia que o Dukla Praha finalmente voltaria aos tempos de glória, o clube voltou a enfrentar problemas. Duricko não entrou em acordo com o exército tcheco (ainda dono do estádio Na Julisce) e a equipe se mudou para Pribram (inclusive, o termo “Praha” foi excluído do nome oficial do clube). Depois de três temporadas discretas, o Dukla Pribram mudou de nome para Marila Pribram, no que parecia ser o fim da trajetória do clube do exército comunista que encantou os Estados Unidos.
No entanto, o time que dominou o futebol tchecoslovaco no seu auge voltou. Em 2005, o Dukla Dejvice, da quarta divisão, recuperou o nome Dukla Praha. Apesar de estar apenas em uma liga regional, a escalada talvez não seja tão demorada. Para a próxima temporada, já há conversações para o novo Dukla Praha comprar o lugar do Jakubcovice na Segundona.

O time do Dukla para a temporada 2006/7. Sem despertar o temor de versões anteriores
Ubiratan Leal