O Uruguai estava pronto para deixar 80 anos para trás. O time jogava com segurança e mantinha o empate em 0 x 0 com a Argentina no último jogo do Sul-Americano Sub-20. Esse resultado daria aos charrúas sua primeira classificação para os Jogos Olímpicos desde 1928. Aos 47 minutos do segundo tempo, Acosta fez o gol argentino e o tabu continuou. E a seleção que mais marcou a história do futebol olímpico terá de esperar mais quatro anos.
Em 1924 e 1928, o Uruguai surpreendeu o mundo com um futebol habilidoso e competitivo, apresentando aos europeus o embrião do que seria conhecido como “escola sul-americana”. O impacto dos celestes foi tão grande que seu país foi escolhido para sediar a primeira edição da Copa do Mundo, em 1930, a seleção ganhou o apelido de Celeste Olímpica e um gol de escanteio marcado por um argentino contra os uruguaios foi batizado de “gol olímpico”.
Os Jogos de 1932, em Los Angeles, não tiveram torneio de futebol, pois a organização de um torneio mundial próprio deixou em dúvida se a modalidade continuaria no programa olímpico. Além disso, os norte-americanos não estavam dispostos a se esforçar tanto para ter partidas de futebol no evento.
Assim, pode-se dizer que essa busca uruguaia pelas Olimpíadas começou em 1936. Para os Jogos de Berlim, a classificação sul-americana seria pela Copa América de 1935. Com vitórias sobre Peru (1 x 0), Chile (2 x 1) e Argentina (3 x 0), os charrúas ficaram com o título sem perder um ponto sequer. No entanto, a AUF (federação uruguaia) não tinha dinheiro para enviar um time para a Alemanha no ano seguinte e os celestes abriram mão da vaga. A Argentina, vice-campeã sul-americana, fez o mesmo e o representante sul-americano foi o Peru.
Após a Segunda Guerra Mundial (os Jogos de 1940 e 1944 foram cancelados), as Olimpíadas voltaram em 1948. Os países sul-americanos, com problemas financeiros, não enviaram seleções para o torneio de futebol. Também por falta de condições, os uruguaios não foram aos Jogos em 1952 e 1956.
A partir de 1960, os Jogos Olímpicos já tinham importância consolidada e o interesse em participar do evento crescera. O torneio de futebol já não comportava o número de inscritos e foram criados os Pré-Olímpicos continentais. Nessa época, já imperava o modelo olímpico de amadorismo. Com isso, países como Uruguai, Argentina e Brasil eram obrigado a usar seleções não-profissionais, normalmente juniores com alguns jogadores de ligas amadoras e militares.
Na primeira edição do qualificatório americano (as Américas disputaram como uma só), o Uruguai caiu na fase preliminar. No jogo de ida, tomou 6 x 0 do Peru e a vitória por 3 x 2 em Montevidéu não impediu a desclassificação. Curiosamente, enquanto o Uruguai ficou de fora do hexagonal final, México e Suriname (!!!) disputaram a fase decisiva.
Em 1960, com as Américas já separadas entre Norte-Central-Caribe e Sul, o Uruguai teve uma participação muito fraca. Jogando no Peru, a Celeste empatou três partidas (0 x 0 com Chile, 1 x 1 com Equador e 1 x 1 com Colômbia) e perdeu duas (0 x 2 com Peru e 1 x 3 com Argentina).
O torneio foi cancelado a duas rodadas do fim devido a uma confusão no jogo Peru x Argentina (briga de torcida com polícia vitimou 328 pessoas, no que é considerada a partida com mais mortes oficiais na história do futebol) e o Uruguai nem jogou contra o Brasil. Mas nem precisaria, pois a seleção cisplatina já estava eliminada.
Em 1968, os uruguaios chegaram bem perto. Depois de ficar em segundo lugar no Grupo 2 da primeira fase, os charrúas conseguiram uma vaga no quadrangular final. O Uruguai venceu o favorito Brasil (2 x 1) e empatou com o Paraguai (3 x 3), chegando à última rodada como líder da chave. No entanto, perderam para os anfitriões colombianos o jogo decisivo e caíram para a terceira posição, perdendo a oportunidade de voltar aos Jogos Olímpicos depois de 40 anos.

Em 1971, os uruguaios fizeram uma campanha melancólica. Ficaram em quarto lugar no Grupo 2, à frente apenas da Venezuela. Terminaram a trajetória com uma vitória (2 x 0 na Venezuela), um empate (1 x 1 com Paraguai) e duas derrotas (1 x 2 contra a Colômbia e 0 x 1 contra o Peru).
Cinco anos depois, a Celeste voltou a passar perto da vaga olímpica. O torneio realizado em Recife foi um hexagonal direto entre todos os participantes. A Argentina estava enfraquecida, pois foi representada por um combinado rosarino, com jogadores de Rosario Central e Newell’s Old Boys. Do lado cisplatino se destacava o goleiro Rodolfo Rodríguez.
O Uruguai fez uma campanha consistente, segurando o Brasil na estréia (1 x 1). Empataram ainda com Chile (1 x 1) e Colômbia (2 x 2) e superaram Peru (3 x 0) e Argentina (2 x 0). Os uruguaios terminaram com 7 pontos e o vice-campeonato. O azar é que, naquele ano, a América do Sul tinha apenas uma vaga nos Jogos Olímpicos e essa ficou com o Brasil.
Em 1980 e 1984, o Uruguai não disputou o Pré-Olímpico. O retorno se deu em 1987, quando tinha Seré, Bengoechea e Aguirregaray, mas fez apenas uma campanha regular. Venceu o Peru (1 x 0), empatou com Brasil (1 x 1) e Colômbia (0 x 0) e perdeu para o Paraguai (0 x 1). Os colombianos terminaram o grupo na primeira posição, com 7 pontos. Brasil, Paraguai e Uruguai dividiram a vice-liderança com 4, mas os brasileiros passaram para a segunda fase por terem maior número de gols feitos (houve triplo empate também no saldo de gols).
Em 1992, o Uruguai voltou a apresentar uma seleção promissora. Os destaques eram Saralegui, Dorta, Canobbio e, principalmente, Montero. Na primeira fase, os celestes perderam para o Equador na estréia (0 x 2), mas venceram os três jogos seguintes (1 x 0 no Chile, 4 x 0 na Bolívia e 2 x 1 na Argentina, resultado que eliminou os vizinhos de rio da Prata).
O jogo decisivo para a eliminação foi a derrota por 3 x 0 para a Colômbia. Em seguida, os charrúas se recuperaram ao fazer 1 x 0 no Equador e chegaram à rodada final precisando vencer os anfitriões paraguaios. As equipes empataram em 0 x 0 e o Uruguai foi eliminado no saldo de gols. Justamente pela Colômbia, que tinha o saldo positivo pelo resultado folgado da primeira rodada.
A campanha de 1996 foi parecida. Na primeira fase, os celestes passaram com um empate (contra o Brasil) e três vitórias (Peru, Paraguai e Bolívia). O problema é que, naquele torneio, brasileiros e argentinos estavam muito fortes e a equipe de Magallanes, Abeijón e Fleurquín não teve condições de segurar as duas potências no quadrangular final. Contentaram-se com a terceira posição, após vencer a surpreendente Venezuela.
Quatro anos mais tarde, o Uruguai apresentou sua melhor seleção pré-olímpica. O time contava com vários jogadores que estavam na Europa ou forma para lá pouco tempo depois, como Carini, Lembo, Sorondo, Giacomazzi e Olivera. Na primeira fase, os cisplatinos venceram todos os seus confrontos, contra Peru, Paraguai, Bolívia e Argentina, e chegaram à fase final como favoritos ao lado do Brasil.
O que os celestes não contavam era com a empolgação chilena. A Roja estava praticamente eliminado da primeira fase, pois não jogaram na última rodada e dependiam de uma improbabilíssima vitória do Brasil sobre a Colômbia por seis gols de diferença. O Chile já havia arrumado as malas no hotel quando souberam que, em um jogo surreal, o Brasil fizera 9 x 0 nos cafeteros.
Com essa nova chance, os chilenos ganharam vida. E impuseram 4 x 1 no Uruguai logo na primeira partida da segunda fase. Os charrúas perderam o rumo e caíram também diante da Argentina (0 x 3). Na última rodada, já estava eliminados e arrancaram um empate em 2 x 2 com o classificado Brasil.
Em 2002, os uruguaios voltaram a decepcionar. Até havia algum talento no time, como os atacantes Peralta e Vigneri, o meia Estoyanoff e o lateral Diogo. Ainda assim, ficaram na quarta posição do Grupo A. Perderam de Chile (0 x 3) e Paraguai (1 x 2) e empataram com Brasil e Venezuela (ambos 1 x 1).
Entre campanhas melancólicas e desclassificações por detalhes (como a desta semana contra a Argentina), o Uruguai completará, na melhor das hipóteses, 84 anos sem aparecer nos Jogos Olímpicos que o consagrou na década de 1920. Resta esperar por Londres 2012.
Ubiratan Leal
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