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14/02/07

O mundo não é uma bola...

Itália tem os mecanismos, mas não pune

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Em diversos aspectos, a Itália se parece com o Brasil. Os dois países têm, por exemplo, uma mania – por vezes justificada até culturalmente – de nem sempre levar a sério suas próprias regulamentações. O que acaba dando margem a que se perca o respeito pelas autoridades. Isso está por trás da violência de torcedores que tem tomado conta do futebol italiano nas últimas temporadas. A morte de um policial antes de Catania x Palermo foi apenas o aspecto mais triste disso tudo.

Antes do jogo, torcedores do Catania emboscaram policiais que faziam a segurança dos torcedores do Palermo (o jogo é o clássico da Sicília e há muita rivalidade entre as duas equipes) e um arremessou uma bomba, que acabou matando Filippo Raciti. Dentro de campo também houve confusão. As duas torcidas arrumaram confusão, obrigando os policiais a jogarem bombas de gás lacrimogêneo, que se espalhou pelo estádio e levou a partida a ser interrompida. Com a bola rolando, o duelo também foi lastimável, com um futebol fraco e todos apenas gols (os rosaneri venceram por 2 a 1) irregulares.

O jogo foi em uma sexta-feira, abrindo a rodada do Campeonato Italiano. Na mesma noite do dérbi siciliano, as autoridades do futebol italiano adiaram a rodada e, nos dias seguintes, cancelaram o amistoso entre Itália e Romênia. Em reunião em que até o primeiro-ministro Romano Prodi participou, foi anunciado um pacote de medidas para acabar com a violência dos ultras e, pior, o poder que elas têm.

A Itália nada mais fez do que exigir que a lei já existente fosse cumprida. O Decreto Pisanu – elaborado pelo ex-ministro do interior Giuseppe Pisanu – previa uma série de melhorias nos estádios de futebol da Itália para melhorar a segurança. Mas, como ocorre com parte do Estatuto do Torcedor no Brasil, só foram respeitados os itens que convinham aos clubes e proprietários dos estádios (quase sempre prefeituras). Não é à toa que os estádios italianos estão entre os piores das grandes ligas européias e que o projeto de candidatura para a Eurocopa de 2012 prevê reformas profundas ou reconstrução de todos os estádios que receberam a Copa de 1990.

Apenas os estádios que estivessem de acordo com o Decreto Pisanu poderiam receber público. Todos os demais seriam fechados ao público e teriam de passar por reformas corretivas antes de terem seus portões abertos. Além disso, anunciou-se a intenção de mudar a legislação penal de modo que ficasse mais fácil enquadrar torcedores por seus atos nos dias de jogos. A inspiração, ou pelo menos a suposta inspiração, era no relatório Taylor e na legislação britânica para o assunto.

Não se passaram nem duas semanas que já abriram várias exceções. Milan, Internazionale e outros times que não tinham estádios liberados, puderam receber os torcedores que já tinham comprado carnê de temporada. E, aos poucos, muitas das duras punições previstas foram afrouxando. E a perspectiva é que pouca coisa mude no calcio.

É nessa falta de fazer valer suas leis que tem minado o futebol italiano. A legislação futebolística do país, à parte a questão penal sobre os torcedores, é muito boa. Por exemplo, há um órgão como o Covisoc, que regula a situação financeira dos clubes e até determina rebaixamento para quem não se enquadrar em um padrão mínimo de sanidade econômica. O Decreto Pisanu também poderia melhorar muito as condições dos estádios no país. O problema é que, se as autoridades não fiscalizam o cumprimento dessa lei, a conseqüência natural é o caos.

Por exemplo, o assassinato de Filippo Raciti não foi o primeiro escândalo envolvendo o Catania. Em 2003, o clube foi rebaixado para a Serie C1. No entanto, o presidente do clube na época, Alessandro Gaucci, encontrou uma brecha legal que poderia salvar o clube, entrou na Justiça e conseguiu “melar” o Campeonato Italiano. Não houve rebaixamento (Salernitana e Genoa também se salvaram), aproveitaram a oportunidade para “pularem” uma divisão da Fiorentina e aumentaram a Serie A para 20 clubes e a B para 22.

Se a diretoria do Catania se deu bem confrontando as autoridades, que exemplo ficou para seus torcedores? E, se fosse só o Catania, até que estaria bom. Mas Roma, Lazio, Juventus, Fiorentina e uma série de outros clubes já tiveram punições inexistentes ou suavizadas por escândalos ou problemas com torcedores. A impunidade virou sistemática e isso só muda se as autoridades italianas impuserem a lei. Sem atenuantes.

Ubiratan Leal

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