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15/02/07

O mundo não é uma bola...

Flamengo reclama certo, mas do motivo errado

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Todo ano é a mesma coisa. Basta um clube brasileiro (pode ser a seleção) jogar na altitude para reclamar da falta de condições de se praticar futebol com o ar rarefeito dos Andes. Desta vez, os argumentos ainda são um pouco mais fortes, pois o Flamengo teve problemas mais graves do que o normal – como Renato Augusto inalando oxigênio durante a partida e Bruno quase desmaiando após cobrar um tiro de meta – e Potosi é uma cidade que consegue ser mais alta que as já tradicionais La Paz, Quito, Cidade do México e Bogotá. Ainda assim, a discussão é mal conduzida.

Depois de voltar ao Brasil, o Flamengo divulgou uma nota oficial em que anunciou que não jogará mais em altitudes acima da “recomendada pela medicina esportiva” (segundo o Flamengo, 1,5 mil metros, o que é um claro exagero pois é menos até que Guadalajara). Além disso, elevou seus jogadores à categoria de heróis, o que é populismo mesmo se considerado que o esforço dos rubro-negros em campo foi elogiável. A diretoria flamenguista ainda aproveitou para fazer pose de líder de um processo de restabelecimento da justiça.

Até há argumentos corretos por parte do Flamengo. Mas a forma de conduzir a indignação abusa da prepotência e da predisposição a tomar atitudes autoritárias ao invés de ouvir o outro lado. Determinar o que é aceitável “pela medicina esportiva” é típico de quem não sabe quão complexa são as questões. No mesmo dia da reclamação rubro-negra, especialistas respeitados do Brasil se pronunciaram a favor e contra a nota flamenguista. Claro, se nem a engenharia pode ser considera uma ciência 100% exata pois há questões técnicas polêmicas entre profissionais da área, não é a medicina que seria diferente.

O argumento de que a altitude equivale a doping também é condenável. Primeiro, porque insinua que os bolivianos são, em português claro, “sacanas”. Porque doping é contravenção esportiva passível de punição. Se jogar na altitude é equivalente a isso, os bolivianos estariam se dispondo a burlar as regras do esporte. Ao que consta, não há regulamento esportivo que proíba um jogo em La Paz ou Potosi. Em 1992, o São Paulo fez 3 a 0 no San José em Oruro (3,7 mil m).

Além disso, os brasileiros costumam achar “malandro” e “legal” expedientes como usar o calor do Rio de Janeiro e do Nordeste para mandar alemães e italianos se esfalfarem na Copa Davis de tênis. Daí, uma equipe formada por Jaime Oncins e Luis Mattar bate Boris Becker e a imprensa aplaude a esperteza.

Essa reação do caso de Potosi (o Flamengo não está sozinho, pois boa parte da mídia mostra apoio à decisão) reflete uma arrogância brasileira. Dificilmente haveria uma mobilização tão grande contra quem joga na altitude se a Bolívia fosse um país mais respeitado futebolística ou economicamente. Como, digamos, Argentina ou Espanha. Afinal, os bolivianos são pequenos e teoricamente é mais fácil impor-se politicamente diante deles.

A questão de jogar na altitude é de direito. Um clube tem todo o direito de jogar em sua cidade, desde que ela ofereça condições logísticas e de segurança – nos parâmetros previsto no regulamento da competição – para torcedores e equipes. Não seria injusto obrigar Bolívar ou LDU a jogarem longe de sua torcida simplesmente porque cometeram o “crime” de terem sede nos Andes?

Os bolivianos encararam como uma afronta a nota flamenguista. O técnico da seleção, Erwin Sánchez, propôs que a Bolívia mande em Potosi seu jogo contra o Brasil nas elimiantórias para a Copa. A diretoria do clube potosino foi mais ainda provocadora e disse que se nega a jogar no calor úmido do Rio de Janeiro. Tudo falácia, claro, além de replicar um erro original, pois impor a altitude sem conversar também é autoritarismo. E um erro não justifica o outro.

Ainda assim, a recusa a jogar no calor úmido alerta para uma questão que os brasileiros raramente se lembram. Até pela nossa cultura, tempo bom, bonito e ideal é o calor tropical de uma praia. Pois esse clima pode ser estranho a muita gente.

Em entrevista ao Balípodo, o técnico do Colo-Colo, Cláudio Borghi, disse que as equipes chilenas sofrem muito para jogar em clima úmido. Certas regiões do Chile têm um clima seco de dar inveja a muito deserto. Sem esquecer que, para um time de Santiago, jogar na altitude contra Cobreloa e Cobresal é um sacrifício. Mas, para países andinos, essa é uma condição natural que eles são obrigados a aceitar. A forma como os colocolinos tentam encarar os Andes é parecida com a dos clubes brasileiros. Como chegar ao local do jogo horas antes da partida. Mesmo para eles, não há mágica.

Tudo isso significa que o jogo em Potosi foi normal? Não. Significa que o Flamengo e outros clubes brasileiros têm de respeitar os direitos do adversário de jogar diante de seus torcedores. E, a partir daí, desenvolver modos de diminuir os problemas. Basta dialogar ao invés de forçar uma imposição.

Se a tabela for bem feita e reconhecer a dificuldade de jogar na altitude, jogos acima de X metros (e o valor da incógnita deve ser definido após um congresso técnico para discutir a questão) podem ser marcados apenas em quintas ou sextas, para que o clube visitante possa chegar cinco dias antes e sentir menos os efeitos do ar rarefeito. Outra possibilidade é exigir que essas cidades tenham aeroportos em boas condições, para que a delegação visitante tenha a possibilidade de chegar apenas algumas horas antes do jogo. Como Potosi não tem, o Flamengo foi obrigado a ficar dois dias nos Andes, piorando muito sua condição para o jogo.

Ou seja, o Flamengo tinha razão em reclamar, só atirou para o lado errado porque é mais fácil e cômodo. Mas a culpa não é da altitude de Potosi, mas de logística. A cidade tem o direito de receber jogos de futebol, desde que ofereça condições para ser mais confortável para o visitante. Por exemplo, um time acostumado com o frio, se tiver de jogar em Belém ou Salvador, que o jogo seja à noite. Se o jogo é na altitude, que o clube possa elaborar um trabalho para não sentir os efeitos da falta de ar. E isso não havia em Potosi.

A polêmica de jogos na altitude é algo mais complexo no futebol sul-americano do que o Flamengo parece fazer crer. Países como Equador, Peru e Bolívia tratam isso como questão até de orgulho nacional e autodeterminação. Do outro lado, é inadmissível que jogadores de futebol sofram como Bruno e Renato Augusto só porque tentam praticar sua profissão. É um problema sério que merece ser tratado com cuidado e diálogo. Não com notas populistas.

Ubiratan Leal

Obs.: texto originalmente publicado na Trivela

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