Desde que José Mourinho se juntou ao projeto de Roman Abramovich no Chelsea, o clube londrino se mostrou um dos mais fortes do mundo. O português soube usar o talento que o dinheiro do russo podia trazer e montou uma equipe sólida. Venceu dois Campeonatos Ingleses com facilidade, mas decepcionou na luta por um título continental pela falta de um grande craque, algum que assumisse a responsabilidade nos momentos decisivos. Pensando nisso, o clube tirou Shevchenko do Milan, mas o ucraniano virou mais um problema do que solução.
A principal razão é tática. O Chelsea simplesmente não tinha lugar para Shevchenko. Em 2005, José Mourinho teve grande sucesso ao montar os blues com apenas um atacante. No caso, Drogba, um centroavante que sabe como poucos usar técnica e força para ganhar dos zagueiros e cavar espaço na área adversária.
No entanto, o que dava grande poder aos londrinos era o meio-campo. Essien e Makélélé ficavam mais atrás, com o ganense eventualmente avançando como fazia no Lyon. De qualquer forma, é uma dupla implacável na marcação e que sabe o que fazer com a bola assim que a rouba do oponente.
Um pouco mais à frente, ficava o trio de armação. Pela esquerda, Joe Cole ou Robben se revezavam. Mas ambos têm características semelhantes, com velocidade, habilidade e inteligência para jogar quase como pontas ou fecharem pelo meio para se aproximar de Drogba. Pela direita, Duff ou Wright-Phillips têm essa mesma função. Lampard joga pelo meio, buscando a bola com os volantes e abrindo a jogada para seus colegas que jogam mais abertos..
Com essa formação, os blues chegavam ao ataque com um homem fixo e três ou até mais (dependendo do apoio de um dos volantes ou dos laterais) vindo de trás. Mesmo com um time aparentemente fechado, não faltavam opções ofensivas para sufocar o adversário com boas opções aparecendo de todos os lados.
Com a chegada de Shevchenko, isso mudou. Para acomodar dois atacantes (e mais um meia de armação pelo meio, pois o clube ainda contratou Ballack), o esquema com cinco meias teve de ser desfeito. Mourinho optou por acabar com os dois meias abertos. Pela esquerda, Robben, em má fase, foi para o banco e Joe Cole se contundiu no início da temporada. Na direita, Wright-Phillips também perdeu lugar e Duff foi vendido.
Mesmo estando com um 4-4-2 teoricamente mais ofensivo do que o 4-2-3-1 (aliás, prova que esses números são apenas referência, pois o que define um time ofensivo ou defensivo é a postura dos jogadores), o time de Mourinho tinha menos opções ofensivas. Pior, Ballack e Lampard não se encaixaram bem como dupla de armação e o poder de fogo dos blues despencou.
Sobrou para Shevchenko. A nova realidade do time era muito mais propícia para Drogba, mais corpulento e fixo na área. Com essas caracterísicas, seu futebol até cresceu em um time que ficou mais dependente de seu homem de área. O ucraniano, que costuma jogar em velocidade e muitas vezes caindo pela direita, ficou sem lugar. A partir daí, sua perda de motivação e de status foi conseqüência natural.
Mourinho até tentou voltar ao esquema de 2006 ao deixar o ex-milanista no banco para o retorno de Robben. Claro que futebol e esquemas táticos não são ciências exatas e é possível que o técnico português encontre uma forma de Shevchenko reencontrar seu futebol (até porque seria muita tecnocracia não tentar usar o talento do ucraniano em nome de esquemas táticos). Por exemplo, recuando Lampard e permitindo que Ballack seja o único meia mais avançado. Assim, o ucraniano poderia ter mais espaço para se movimentar. De qualquer maneira, ficou evidente que Shevchenko, por mais que fosse o talento que o Chelsea precisava, sofre porque ainda não descobriu como entrar no time.
Ubiratan Leal