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4/01/07

Histórias

O último Italiano que a Inter ganhou em campo

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A Serie A nem está na metade, mas a Internazionale parece fadada a conquistar o bicampeonato italiano. Com 48 pontos em 54 disputados e uma seqüência – que ainda pode aumentar – de 11 vitórias, os nerazzurri só têm a Roma como perseguidor de fato. Como o título de 2005-06 foi atribuído na Justiça, uma eventual conquista certamente teria um gosto diferente, que os interistas não sentem desde 1989. Um ano em que o time de Via Durini assombrou pela superioridade que teve diante dos rivais.

Quando a temporada 1988-89 começou, os favoritos eram Milan e Napoli, campeão e vice do campeonato anterior. A Juventus, renovada, correria por fora. No papel, havia poucos motivos para duvidar dessa relação. O time base do Milan era assustadoramente forte: Giovanni Galli; Tassotti, Franco Baresi, Costacurta e Maldini; Ancelotti, Rijkaard, Evani e Donadoni; Gullit e Van Basten. O Napoli não ficava muito atrás, com Maradona, Careca, Carnevale, Ferrara, Alemão e Crippa. A Juve confiava no seu trio de estrangeiros (o máximo permitido na época, quando não havia Lei Bosman e o conceito de “atletas comunitários”) Rui Barros-Zavarov-Michael Laudrup, além dos italianos De Agostini, Tacconi e Marocchi.

Nesse cenário, a Internazionale era considerada uma força secundária, ao lado de Roma e Sampdoria na luta por um lugar na Copa da Uefa (apenas o primeiro colocado ia para a Copa dos Campeões). Em 1987-88, a equipe terminara o campeonato em quinto lugar, aparentemente aceitável se os números – 32 pontos em 30 jogos – não mostrassem um desempenho apenas regular. Por isso, o técnico Giovanni Trapattoni decidiu reformular bastante a formação nerazzurra, apostando em alguns jovens que começavam a ganhar espaço no clube.

As principais mudanças foram nos estrangeiros, uma escolha estratégica em uma época com limitação de não-italianos. Saíram o argentino Passarella (já veterano) e o belga Scifo (que não apresentou bom futebol em Milão) e teve início a era alemã, com Brehme e Matthäus. O terceiro estrangeiro contratado foi o argentino Ramón Díaz, que chegou nos últimos momentos de abertura de mercado depois de problemas na negociação com o argelino Madjer, do Porto.

Trapattoni teve o mérito de remontar uma grande defesa – Passarella voltara ao River Plate e Giuseppe Baresi (irmão de Franco) passara dos 30 anos – com as peças que já tinha à disposição. O discreto e seguro Zenga permaneceu no gol. Bergomi se transformou no líder do setor, com Ferri ganhando mais importância jogando pelo meio da zaga e o versátil meia Mandorlini assumindo a função de líbero. A única cara nova era Brehme.

No meio-campo, Matthäus era a referência. Técnico ao extremo e dono de grande capacidade de liderança, o alemão logo mostrou sua capacidade de se encaixar taticamente a qualquer esquema. O incansável Nicola Berti dava fôlego ao setor, por mais que ainda fosse apenas uma promessa na época. O veterano Matteoli vivia sua melhor fase, usando sua experiência para ser o homem de criação da Inter. O outro meia titular era o discreto Alessandro Bianchi. Na frente, Serena e Ramón Díaz

Analisando a Internazionale daquela temporada, parece um time bastante forte. Mas era um grupo novo, com grande possibilidade de ser instável durante o campeonato. De fato, o início da temporada não foi dos melhores, com desclassificação na segunda fase da Copa da Itália para a Lazio (recém-promovida da Serie B). No entanto, os nerazzurri se encontraram rapidamente no Campeonato Italiano.

A campanha começou com vitórias tranqüilas sobre Ascoli (3 x 1 em Ascoli-Piceno) e Pisa (4 x 1). Na terceira rodada, um empate fora de casa com o Verona (0 x 0) manteve o time de Via Durini na liderança, com cinco pontos, ao lado de Milan e Sampdoria. Em seguida, a vitória sobre a Roma (2 x 0) permitiu aos nerazzurri se livrarem dos rivais rossoneri e, na sexta rodada, o triunfo sobre os blucerchiati no confronto de líderes (1 x 0) colocou a Internazionale na ponta de forma isolada.

A partir daí, ninguém mais alcançou o time de Trapattoni. Após algumas rodadas, o Napoli se apresentou como única escolta ameaçadora aos nerazzurri, já que Atalanta e Sampdoria não pareciam ter fôlego e Milan e Juventus decepcionavam. Ainda assim, os milaneses mantinham uma distância segura de dois ou três pontos (a vitória só valia dois). Na 14ª rodada, após uma vitória sobre a Lazio (1 x 0), a Internazionale abriu quatro pontos de distância.

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O único momento de incerteza foi na 17ª rodada, a última do primeiro turno. Os nerazzurri perderam sua invencibilidade para a Fiorentina da dupla-revelação Borgonovo-Roberto Baggio e viram o Napoli ficar um ponto atrás. Mas, no início do returno, a Internazionale venceu oito jogos seguidos – incluindo importantíssimas vitórias sobre Roma e Sampdoria, ambas fora de casa – e abriu quase inalcançáveis sete pontos de vantagem a nove rodadas do final.

Os interistas ganharam ainda mais confiança e se tornaram um time sólido, quase inexpugnável. No ataque, Serena se distanciava de Careca e Van Basten na luta pela artilharia. Mesmo como visitante contra Milan e Juventus, os nerazzurri sobreviviam sem derrota e mantiveram a vantagem sobre os napolitanos, que não tinham o mesmo ritmo e já viam o Milan se aproximar na classificação.

Na 30ª rodada, os líderes se enfrentaram em Milão, no que seria a última chance do Napoli de tentar o título. Uma vitória lombarda levaria o título à Via Durini com quatro rodadas de antecipação. Careca abriu o marcador e assustou a torcida milanesa, mas um gol contra de Fusi e um tento de Matthäus perto do final da partida deram a vitória e o título à Inter.

Com o título já assegurado, os nerazzurri perderiam sua segunda partida na penúltima rodada, contra o ameaçado Torino (que foi rebaixado depois de perder do Lecce na última rodada). Ainda assim, a Internazionale terminara o campeonato com uma campanha magnífica: 26 vitórias, seis empates e apenas duas derrotas, 67 gols marcados (melhor ataque) e 19 sofridos (melhor defesa). E, mais impressionante, foi líder em todas as 34 rodadas. Números impressionantes em uma época em que qualquer clube da Serie A italiana tinha grandes jogadores.

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Veja a campanha da Internazionale campeã italiana de 1988-89: 3 x 1 Ascoli, 4 x 1 Pisa, 0 x 0 Verona, 2 x 0 Roma, 1 x 0 Sampdoria, 2 x 1 Como, 1 x 0 Cesena, 2 x 0 Pescara, 1 x 0 Milan, 1 x 1 Juventus, 3 x 0 Lecce, 1 x 0 Bologna, 0 x 0 Napoli, 1 x 0 Lazio, 1 x 1 Atalanta, 2 x 0 Torino, 3 x 4 Fiorentina, 3 x 1 Ascoli, 3 x 0 Pisa, 1 x 0 Verona, 3 x 0 Roma, 1 x 0 Sampdoria, 4 x 0 Como, 2 x 1 Cesena, 2 x 1 Pescara, 0 x 0 Milan, 1 x 1 Juventus, 2 x 0 Lecce, 6 x 0 Bologna, 2 x 1 Napoli, 3 x 1 Lazio, 4 x 2 Atalanta, 0 x 2 Torino e 2 x 0 Fiorentina.

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Veja a classificação final do Campeonato Italiano 1988-89: 1 – Internazionale, 58 pontos; 2 – Napoli, 47; 3 – Milan, 46; 4 – Juventus, 43; 5 – Sampdoria, 39; 6 – Atalanta, 36; 7 – Fiorentina e Roma, 34; 9 – Lecce, 31; 10 – Ascoli, Bologna, Cesena, Lazio e Verona, 29; 15 – Pescara e Torino 27; 17 – Pisa, 23; e 18 – Como, 22.

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Para se ter idéia do nível técnico do futebol italiano na época, o Torino foi rebaixado mesmo contando com Müller, Fuser, Skoro e Marchegiani no time. O Pescara também caiu e tinha Júnior, Edmar e Tita.

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Um sinal de como aquela foi uma temporada fora do normal para aquela Internazionale é que a mesma base foi mantida nos anos seguintes (com o reforço de Klinsmann), mas o desempenho caiu. Em 1989-90, os nerazzurri fizeram “apenas” 44 pontos e ficaram com a terceira posição. Em 1990-91, 46 pontos e o vice-campeonato. Em 1991-92, 37 pontos e a oitava posição. Em 1992-93, os interistas voltaram a fazer uma boa campanha (foram vice-campeões, com 46 pontos), mas já tinham uma base bastante diferente: Matthäus, Klinsmann e Brehme saíram e a aposta era em Shalimov, Rubén Sosa, Pancev e Schilacci.

Ubiratan Leal

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