O norte do Paraná e o Mato Grosso do Sul são duas regiões vizinhas e esquecidas no cenário futebolístico brasileiro. Do lado paranaense, o Londrina perdeu espaço, o Grêmio Maringá fechou e vive travestido como Galo Maringá, que se fundiu à Adap, e o União bandeirante se licenciou. No lado sul-mato-grossense, Campo Grande capitula para times do interior como Coxim e Chapadão e até time de igreja evangélica se torna potência. E pensar que, há três décadas, essas regiões projetaram o interior no Campeonato Brasileiro.
A Copa Brasil (nome do Brasileirão na época) de 1977 era das mais confusas. Os 62 clubes foram divididos em seis grupos, dois com 11 times e os demais com dez. Depois de jogos em turno dentro das chaves, os cinco melhores de cada grupo passavam para os grupos dos vencedores, enquanto os demais iam para o dos perdedores (ou seja, ninguém era eliminado na primeira fase).
Havia seis chaves de vencedores, com cinco clubes em cada. Depois de jogar em turno, os três primeiros se classificariam para a terceira fase, onde encontrariam o melhor de cada um dos seis grupos dos perdedores. Os 24 classificados se dividiriam em quatro chaves de seis equipes, com o vencedor de cada uma passando para as semifinais em mata-mata. Para complicar ainda mais, a vitória dava dois pontos, mas se fosse por dois gols de diferença ou mais, valia três.

O Operário de Campo Grande ficou no Grupo A, com Avaí, Caxias, Coritiba, Dom Bosco, Grêmio, Grêmio Maringá, Internacional, Joinville e Juventude. Por mais que os alvinegros tivessem sido campeões mato-grossenses (na época, o Mato Grosso do Sul ainda não existia e Campo Grande era uma cidade do interior) com folga e tivessem nomes como o goleiro Manga e o ex-goleiro Carlos Castilho (esse como técnico), não dava para apostar neles diante, por exemplo, do Internacional bicampeão brasileiro (com Manga no gol) e do Grêmio.
Os mato-grossenses começaram mal, com empate (0 x 0 com Internacional) e derrota (0 x 1 com Grêmio Maringá). Depois, se recuperaram com vitórias sobre Juventude, Dom Bosco, Joinville e Avaí, assegurando a quarta posição do grupo e um lugar no grupo dos vencedores.
O Londrina ficou no Grupo D, ao lado de Americano, Atlético-PR, Botafogo-RJ, Brasília, Goiás, Goiânia, Goytacaz, Vasco e Vila Nova-GO. Vindo de uma sexta colocação no Campeonato Paranaense, os alvicelestes corriam por fora, por mais que alguns adversários não fossem dos mais fortes.
A expectativa se confirmou. Depois de vitórias nas duas primeiras partidas (3 x 2 sobre o Goiânia e 3 x 1 sobre o Vila Nova), os paranaenses afundaram. Ficaram sete jogos sem vencer e caíram para a oitava (antepenúltima) posição da chave, à frente apenas das duas equipes às quais havia batido. Com isso, estava relegado aos grupos dos perdedores na segunda fase.
O Operário deu sorte na segunda fase, pois pegou um grupo acessível, com Botafogo-RJ, Botafogo-SP, CSA e Fluminense. Considerando que três avançavam, era de se esperar que os campo-grandenses disputariam com alagoanos e ribeirão-pretanos a terceira posição.
Os operarianos venceram o Fluminense e empataram com o Botafogo no Maracanã em seguida, se colocando nas primeiras posições da tabela. Esses dois resultados foram decisivos para o time do Mato Grosso terminar a etapa ao lado do Botafogo carioca na primeira posição. O Botafogo paulista ficou em terceiro e o favorito Fluminense foi eliminado.
Enquanto isso, no Grupo P, o Londrina começava a se soltar. Os adversários tinham tradição (Goiás, Atlético-PR, Goiânia e Vila Nova-GO) e uma derrota no estádio do Café contra o Furacão quase tirou os londrinenses da disputa. Mas a vitória contra todos os times goianos foi suficiente para deixar os alvicelestes com chances de classificação. Na última rodada, precisariam bater o líder Goiás na casa do adversário. Com dois gols de Brandão, o Londrina conseguiu a vaga na terceira fase.
A partir daí, já era difícil apostar nos clubes do interior. Além de Londrina e Operário, também sobreviviam Caxias, Botafogo-SP, Ponte Preta e XV de Piracicaba. O caso dos londrinenses era o mais crítico, pois dividiriam o Grupo S com potências como Corinthians, Vasco, Santos e Flamengo, além do Caxias.

Foi justamente neste momento que os londrinenses explodiram. Com um futebol surpreendente e confiante, o time do norte do Paraná venceu todos os jogos. O atacante Carlos Alberto Garcia foi a grande figura, marcando quatro gols em cinco partidas, incluindo um na vitória decisiva por 2 x 0 sobre o Vasco no Rio de Janeiro.
Com isso, o Londrina estava nas semifinais. O futebol foi tão surpreendente e avassalador que o time recebeu o apelido de “Tubarão”, pois lembrava a voracidade do animal, na moda pelo filme homônimo de Steven Spielberg (de 1975).
No Grupo V, o Operário ainda era visto como azarão. Mas, novamente, tivera sorte na divisão das chaves e tinha um grupo mais acessível. Por exemplo, enquanto os invictos Atlético-MG e Botafogo-RJ iriam se matar no Grupo T, os operarianos pegariam América-RJ, Deportiva-ES, Palmeiras, Remo e Santa Cruz.
Nessa fase, os mato-grossenses souberam tirar proveito da regra de três pontos por vitória a partir de dois gols de diferença. Os alvinegros perderam do Remo e empataram com o Santa Cruz, mas venceram todas as demais partidas por folga, incluindo aí um 5 x 0 sobre a Desportiva e um 2 x 0 no decepcionante Palmeiras. Dessa forma, o Operário tirou a diferença do invicto (na fase) Santa Cruz e ficou em primeiro lugar no saldo de gols.
As trajetórias erráticas, mas surpreendentes e históricas, de Londrina e Operário não passariam das semifinais. Ainda assim, as primeiras equipes do interior a chegarem nas semifinais do Brasileirão fizeram bom papel. Os londrinenses empataram em 2 x 2 com o Atlético-MG de Reinaldo e Toninho Cerezo no estádio do Café e caíram por 4 x 2 no Mineirão. O Operário assustou o São Paulo de Waldir Peres, Darío Pereyra, Serginho e Rubens Minelli e venceu por 1 x 0 em Campo Grande, mas caiu por 3 x 0 no Morumbi.
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Veja a campanha do Londrina no Brasileirão de 1977 e a ficha técnica de um jogo marcante: 3 x 2 Goiânia (c), 3 x 1 Vila Nova-GO (c), 1 x 2 Goytacaz (c), 0 x 2 Atlético-PR (f), 1 x 2 Brasília (f), 1 x 1 Americano (f), 0 x 3 Botafogo-RJ (f), 2 x 2 Vasco (c), 1 x 1 Goiás (c), 4 x 1 Goiânia (c), 2 x 3 Atlético-PR (c), 1 x 0 Vila Nova-GO (f), 2 x 1 Goiás (f), 2 x 0 Caxias (c), 1 x 0 Flamengo (c), 2 x 1 Santos (f), 1 x 0 Corinthians (c), 2 x 0 Vasco (f), 2 x 2 Atlético-MG (c) e 2 x 4 Atlético-MG (f).

Londrina 1 x 0 Flamengo
Terceira fase do Campeonato Brasileiro de 1977
Data: 1º de fevereiro de 1978
Local: estádio do Café (Londrina)
Árbitro: Abel Santos (MG)
Londrina: Paulo Rogério; Claudinho, Carlos, Arenghi e Dirceu; Zé Roberto, Ademar e Xaxá; Carlos Alberto Garcia, Brandão e Everton (Carlos Alberto Silva). T: Armando Renganeschi
Flamengo: Cantarelli; Toninho, Rondinelli, Nélson (Dequinha) e Júnior; Merica, Paulo César Carpegiani e Adílio; Osni, Cláudio Adão e Zico. T: Jaime Valente
Gol: Zé Roberto (32/2º)
Cartões amarelos: Brandão e Merica
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Agora confira a campanha do Operário-CG: 0 x 0 Internacional (c), 0 x 1 Grêmio Maringá (c), 1 x 0 Juventude (c), 3 x 1 Dom Bosco (c), 2 x 0 Joinville (c), 0 x 1 Coritiba (f), 1 x 0 Avaí (f), 3 x 3 Caxias (f), 3 x 3 Grêmio (f), 0 x 0 Botafogo-SP (c), 2 x 1 Fluminense (c), 1 x 1 Botafogo-RJ (f), 2 x 0 CSA (f) , 0 x 0 Santa Cruz (c), 5 x 0 Desportiva (c), 2 x 0 América-RJ (f), 0 x 2 Remo (f), 2 x 0 Palmeiras (c), 1 x 0 São Paulo (c) e 0 x 3 São Paulo (f).

Operário-CG 2 x 0 Palmeiras
Terceira fase do Campeonato Brasileiro de 1977
Data: 22 de fevereiro de 1978
Local: estádio Morenão (Campo Grande)
Público: 38.122 pagantes
Árbitro: Valquir Pimentel (RJ)
Operário: Manga; Paulinho, Silveira Biluca e Escurinho; Édson, Marinho e Roberto César; Tadeu, Everaldo (Élcio) e Peri. T: Carlos Castilho
Palmeiras: Leão; Marinho Peres, Jair Gonçalves, Beto Fuscão e Vacaria; Pires, Ivo e Jorge Mendonça; Edu Bala (Sílvio), Toninho (Adriano) e Nei. T: Jorge Vieira.
Gols: Tadeu (38/1º) e Everaldo (10/2º)
Cartões amarelos: Toninho, Jair Gonçalves e Peri
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O Operário-MS voltaria a brilhar em dois outros Brasileirões. Em 1979, o time ficou em quinto lugar. Em 1985, foi sétimo.
Ubiratan Leal