Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo. Foi recebida no Brasil como heroína, a história de sua vida passou pelos jornais, seu pé foi para a calçada da fama do Museu do Esporte em Maceió e seu nome definitivamente passou a ser conhecido do público médio. E voltou para a Suécia sem que o futebol feminino brasileiro fizesse algo para usar a projeção da imagem dela para aumentar a popularidade de toda a modalidade, o que daria novo fôlego aos poucos e amadores times e jogadoras que vagam pelo país mais por abnegação.
A culpa não é a atacante, que não esconde a decepção pela forma como a modalidade é tratada no Brasil. É da estrutura do futebol brasileiro, que considera de antemão que o futebol de mulheres é inviável. Talvez hoje esteja perto disso, mas não há nada que indique que a tendência não possa mudar com algum investimento e uma dose de boa vontade. Aí está o pecado em não aproveitar o sucesso da jogadora do Umeå.
Desde que o Brasil foi medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, há um certo senso comum de que os dirigentes precisam olhar com mais carinho para o futebol feminino. Talvez ninguém saiba exatamente o que precisa ser feito, mas a opinião pública, nem que seja pelo politicamente correto, admite a necessidade de apoiar a modalidade.
A resposta de confederação e clubes é que os (poucos) campeonatos que surgiram têm ou tiveram pouca aceitação comercial e da mídia. O argumento só poderia ser aceito se as tentativas que existem ou existiram foram bem organizadas. Por exemplo, em uma edição do Campeonato Paulista feminino, os times foram montados artificialmente, em peneiras que procuravam mais por garotas bonitas do que talentosas com a bola. Como se o esporte em si não fosse viável e a única alternativa seria apelar. Não é assim. Claro que o futebol feminino nunca terá a mesma popularidade do masculino (estamos em uma sociedade machista), mas tem condições de viver.
Marta seria um canal para isso. Se a CBF usasse a imagem dela para mostrar que o futebol feminino brasileiro gera ídolos, seria possível trazer dois ou três patrocinadores para um campeonato nacional. Nem que fosse um torneio curto, apenas com os vencedores de torneios regionais (muitos amadores, mas que existem hoje). Além disso, os grandes clubes perceberiam que criar times de mulheres pode aumentar a força diante do público feminino. E esse já é um mercado importante, tanto que os fabricantes de material esportivo, ao criar linhas de camisas oficiais, já fazem modelos para mulheres.
Nada disso. Pouca gente que poderia fazer algo pelo futebol feminino se aproximou dela. Não para explorá-la, mas para tê-la como referência para buscar um futuro. Os esportes, ainda mais no Brasil, precisam de ídolos. O futebol feminino já tem. Se deixar passar a oportunidade, vai ficar como o tênis brasileiro depois da decadência de Gustavo Kuerten. Largado e sem perspectiva por pura falta de boa vontade e inteligência.
Ubiratan Leal
Textos relacionados
Paulista feminino já começou com problemas