Neste fim-de-semana, ocorreu um fato que, por enquanto, tem pouco a ver com o futebol brasileiro. Mas, em médio prazo, pode ser muito importante e, por isso, não merecia ter sido ignorado. Em Los Angeles, Major League Soccer e federação mexicana anunciaram a criação da SuperLiga, um campeonato entre os melhores clubes da América do Norte. Mostra de como, por lá, o futebol se consolida como mercado e as instituições estão atentas a isso.
Na primeira edição, que será realizada em julho e agosto de 2007, haverá oito clubes, que se dividirão em duas chaves de quatro. Os dois primeiros de cada chave farão as semifinais e os vencedores se enfrentam na decisão. Todos os jogos serão em território norte-americano, o que garante um mínimo de neutralidade na competição (mas, claro, os mexicanos terão a maioria da torcida).
A organização já informou que haverá critérios técnicos bem definidos, mas em 2007 já há convidados. Do México, irão Chivas (campeão do Apertura 2006), Pachuca (campeão da Copa Sul-Americana), América (campeão da Concacaf) e Morelia (bem, esse não tem muita justificativa). Representando os Estados Unidos, estarão DC United (maior campeão da MLS), Dallas (campeão da Conferência Oeste em 2006), Los Angeles Galaxy (segundo maior campeão da MLS) e Houston Dynamo (atual campeão da MLS).
O torneio já é vendido como o que “definirá o melhor time da América do Norte”, mostrando que as entidades – MLS e Femexfut – não se importam muito com o que indica a Copa dos Campeões da Concacaf. E, de fato, a SuperLiga tem condições de se tornar muito mais relevante. Além de ter clubes das duas ligas mais importantes da região jogando para valer (o que não ocorre com os mexicanos na Copa dos Campeões), a organização já tenta se impor financeiramente também. Em 2007, o campeão da SuperLiga levará US$ 1 milhão, maior prêmio oferecido no futebol das Américas Central e do Norte.
Há números para balizar a aposta de mexicanos e norte-americanos. Em dezembro, o duelo América x Chivas, pelas semifinais do Torneo Apertura mexicano, foi a partida de futebol (soccer) com maior audiência da TV dos Estados Unidos desde 1994. Mais que isso: apenas uma partida – a final – da temporada 2006 da NHL (liga profissional de hóquei sobre o gelo) teve mais audiência. Considerando que o ‘Clásico de Clásicos’ foi transmitido pela Univisión, com público quase exclusivamente latino, esse índice mostra a força de mercado que os mexicanos e o futebol têm no país mais rico do mundo.

As perspectivas são muito boas para a SuperLiga. Neste ano, a competição poderá contar com a midiática presença de Beckham, que pode levar a liga dos Estados Unidos a um novo patamar de popularidade. Além disso, a MLS terá a estréia do Toronto FC, primeiro time canadense da liga. Assim, indiretamente, a competição recém-criada englobará toda a América do Norte a partir de 2008. A união de mexicanos e norte-americanos (com canadenses indo de carona) é o fato novo que pode impulsionar o futebol desses três países financeira e tecnicamente, oferecendo condições para a evolução que o sistema da Concacaf não permitia.
E o que o Brasil tem a ver com isso? Tudo! Os mexicanos não escondem que, além de se aproximarem dos Estados Unidos, querem aumentar o contato com os sul-americanos. A metade de baixo do continente não tem dinheiro como a de cima, mas Libertadores, Copa América e Copa Sul-Americana têm algo tão importante quanto: legitimidade histórica, a possibilidade de disputar um torneio que valha “de verdade”.
Assim, a Conmebol precisa descobrir um meio de entrar nesse processo. Libertadores está estagnada pela falta de perspectiva dos clubes argentinos e brasileiros. Nos outros países, a crise é ainda pior e – salvo surtos momentâneos – não se imagina um uruguaio, chileno ou paraguaio conquistando a competição. No atual cenário sul-americano, a chegada das principais forças da Concacaf poderia até melhorar um pouco o nível técnico do torneio, além, claro, de injetar milhões de dólares.
A América do Norte está disposta a usar um pouco de criatividade para mudar as regras e aproveitar melhor o potencial de seu mercado. A América do Sul precisa de algo novo também. Há obstáculos evidentes. A direção da Concacaf (sustentada pelas pequenas federações da América Central) não aceitará passivamente essa desvalorização. Além disso, alguns empresários norte-americanos preferem investir na aproximação com clubes europeus do que latino-americanos. Ainda assim, os sinais vindos daquela reunião em Los Angeles são inequívocos. Norte-americanos e mexicanos querem crescer. Brasileiros e argentinos não querem também?
Ubiratan Leal
Imagens: MLS e Concacaf (DC United x Pumas Unam)
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