Que contratações bombásticas para o Corinthians a imprensa anunciou neste período de pré-temporada? Até que ponto houve excesso de euforia com as possibilidades de Flamengo e Fluminense para 2007? Quantos craques apareceram para manter São Paulo e Internacional na elite do futebol internacional? De fato, até agora, a cobertura do mercado de jogadores tem sido mais cuidadosa que o normal. Há casos negativos, como sempre. Mas, em geral, vê-se que diminuíram as especulações surreais para aumentar um pouco a análise de como os clubes se planejam.
Essa mudança no comportamento da mídia é conseqüência direta das trajetórias de Corinthians, Fluminense, São Paulo e Internacional em 2006. Os dois primeiros alimentaram os jornalistas com factóides e contratação de pseudocraques durante o ano para, no final, lutar contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro simplesmente porque não sabiam o que fazer com seus jogadores. Enquanto isso, são-paulinos e colorados foram mais discretos, mantiveram a política das temporadas anteriores e terminaram o ano comemorando títulos importantes.
A torcida parece ter entendido o que ocorreu. Muito mais do que contratar nomes de peso, corintianos e tricolores cariocas querem que a diretoria de seus clubes planeje a temporada. Pela experiência recente, sabem que é melhor ter um elenco condizente com as condições estruturais do clube a colecionar atletas caros e desmotivados. A imprensa, que sabe acompanhar o pensamento do torcedor para vender (ou dar audiência, depende da mídia), foi junto.
Realmente, o tom é de “apostar na molecada e em jogadores que quiserem se dedicar ao time” ou “montar um time com jogadores baratos e com vontade de mostrar futebol”. Nada das loucuras típicas dos dois anos de MSI no Parque São Jorge, em que só faltou colocarem Zidane, Ronaldinho e Shevchenko na lista de compras de Kia Joorabchian.
É como se o modelo deixasse de ser o Corinthians para se tornar a dupla São Paulo e Internacional. Até na cobertura do Flamengo de Kleber Leite, dirigente que adora dizer que a seleção do mundo está para chegar na Gávea, vê-se isso. A imprensa e o clube chegaram a ensaiar uma euforia pela “iminente” chegada de jogadores como Tevez e Mascherano, mas tal postura foi deixada de lado aos poucos para buscar valorizar contratações realista para um clube endividado e que tenta se reestruturar.
Ainda é cedo para dizer que, do nada, a cobertura do mercado futebolístico é boa. Ainda há exaltação exagerada para determinadas contratações e vista grossa para o enfraquecimento evidente de certas equipes. Também há casos de jovens que serão profissionalizados neste ano cuja capacidade é superestimada. O caso mais claro é Alexandre Pato, que tem apenas 17 anos e vai ser realmente um grande jogador em duas ou três temporadas, não em 2007.
Por isso, não se pode abrir demais a guarda. O comportamento do torcedor é tão variável quanto suas emoções e pode ocorrer de, em alguns meses, eles só quererem saber de reforços bombásticos. Da mesma forma, a imprensa pode acompanhar esse movimento e voltar alimentar o noticiário com boatos. Ou então, os jornalistas podem mostrar que aprenderam de verdade que, no futebol brasileiro de hoje, o planejamento é mais importante e manterem o discurso atual. Além de ser o correto, representaria um fato raro na mídia nacional: a imprensa perceber que informar nem sempre é entreter.
Ubiratan Leal