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5/01/07

O mundo não é uma bola...

Futebol húngaro parece não ter saída

Hungria%202006.jpg

Király; Fehér, Vanczák, Juhász e Leandro; Gera, Títh, Dárdai e Huszti; Szabics e Torghelle. Esse grupo de desconhecidos, em que o goleiro Király e o meia Dárdai são os nomes menos obscuros, é a seleção da Hungria que entrou em campo – e perdeu – para Malta (!!!) nas Eliminatórias da Euro 2008. Nem parece ser o mesmo país que gerou craques como Puskás, Albert, Kocsis, Farkas, Czibor, Kubala, Bozsik, Sárosi, Hidegkuti, Tichy, Bene e Zsengellér, entre tantos outros. Evidência clara de como o futebol húngaro está decadente.

O mais assombroso da escalação da Hungria é que não há um jogador que tenha um mínimo de expressão internacional. Nem que fosse em nível secundário, como Nyilasi, Esterházy, Détári, Fazekas e Kiss na década de 1980. Um fenômeno preocupante, que escancara os problemas estruturais do futebol no país.

A idéia mais imediata é creditar ao fim do comunismo a decadência do futebol húngaro, até porque, até a democratização, em 1989, os húngaros eram competitivos. Mas não se pode resumir as explicações ao fim do apoio governamental. A Hungria tem grande tradição no futebol e era uma potência continental mesmo antes de adotar o comunismo (por exemplo, em 1938, quando foram vice-campeões mundiais, os magiares viviam sobre um regime de extrema direita alinhado com a Alemanha nazista).

Nas décadas de 1920 e 30, a Europa Central – sobretudo Áustria, Hungria, Tchecoslováquia e Itália – começava a ameaçar o poderio dos britânicos criadores do futebol. Tanto que a Copa Dr. Gerö e a Copa Mitropa, precursoras da Eurocopa e da Copa dos Campeões, foram criadas para colocar frente-a-frente equipes da região. O aranycsapat (literalmente, “time de ouro”, conhecido internacionalmente como “Magiares Mágicos”) – time que tinha Puskás, Kocsis, Czibor, Bozsik e Hidegkuti e foi vice-campeão mundial em 1954 – é herdeiro dessa tradição, e não de eventual patrocínio do governo.

De qualquer maneira, o fim do comunismo não pode ser visto como um fator inescapável pois não impediu que outras nações do Leste Europeu reconstruíssem seu futebol. Por mais que não tenhamos mais equipes como a Hungria da década de 1950, a União Soviética dos anos 1960 e a Polônia da década seguinte, várias forças medianas se desenvolveram na região.

De fato, Rússia, Ucrânia, Polônia, Croácia, Iugoslávia/Sérvia-Montenegro, Romênia, República Tcheca, Bulgária e até Eslovênia e Letônia conseguiram disputar uma edição ao menos de Copa do Mundo ou Eurocopa desde o fim do comunismo na Europa Oriental. A Hungria, vice-campeã mundial duas vezes e tricampeã olímpica, não. Pior, à exceção da repescagem nas Eliminatórias para a Copa de 1998, nem perto da classificação os magiares chegaram.

O problema húngaro foi não saber realizar a transição entre o modelo de futebol da época do comunismo para um mais moderno. No Leste Europeu, a predominância foi de milionário do novo capitalismo comprando e bancando equipes. Além disso, os melhores talentos que apareciam logo iam para países mais tradicionais – sobretudo Inglaterra, Alemanha e Espanha – para ganhar experiência em futebol de alto nível.

Nada disso ocorreu na Hungria. O Nemzeti Bajnokság 1 (nome do Campeonato Húngaro) não tem credibilidade por causa das suspeitas de manipulação de resultados, o que afasta torcedores, investidores e até a televisão local, que paga valores baixíssimos para transmitir o campeonato nacional. Sem dinheiro, os clubes se arrastam e não conseguem nem ao menos montar um sistema decente de categorias de base.

Ferencvaros%202006.jpg

O caso mais sintomático é o Ferencváros, time mais popular do país. Os Zöld Sasok têm o mérito de ter sido o único húngaro (e isso foi em 1995-96) a disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões, mas estavam afogado em dívidas há anos. O Fradi escapou de punições previstas pela federação húngara devido à sua popularidade, mas acabou rebaixado em 2006 em uma tentativa das autoridades de demonstrarem um mínimo de credibilidade, já que o país concorre, em conjunto com a Croácia, para sediar a Euro 2012.

Nesse cenário, detalhes fazem diferença e permitiram que Újpest e Debrecen se destacassem. O primeiro, por ter um acordo de intercâmbio com o Feyenoord. O segundo, por conseguir crescer aos poucos na última década, se recriando da segunda divisão depois de terminar a fusão de dez anos com o DMTE (outro clube da cidade de Debrecen).

Isso não significa que essas duas equipes sejam fortes. Pelo contrário. Na primeira fase preliminar da Copa da Uefa, o Újpest conseguiu a façanha de perder em Budapeste para o Vaduz, de Liechtenstein, por 4 x 0. No momento, a liga húngara é a 24ª do ranking da Uefa, o que dá direito a um representante na Liga dos Campeões e dois na Copa da Uefa, sempre em fases preliminares.

A situação é desoladora porque os húngaros não conseguem sair dessa estagnação. O jogador mais talentoso do país, o meia Lisztes (ex-Werder Bremen e Stuttgart) está sem clube desde junho de 2006, quando terminou seu contrato com o Borussia Mönchengladbach. Outra promessa, o atacante Miklos Fehér, morreu de ataque cardíaco durante um jogo de seu Benfica contra o Vitória de Guimarães.

Nas categorias de base, as últimas aparições de destaque da Hungria ocorreram há dez anos. Em 1996, os magiares disputaram os Jogos Olímpicos, mas perderam todas as partidas da primeira fase em um grupo com Brasil, Nigéria e Japão. No ano seguinte, os húungaros disputaram o Mundial Sub-21, mas também voltaram para casa com zero ponto, após derrotas para Austrália, Argentina e Canadá.

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Hungria 1 x 0 Canadá em amistoso disputado em novembro. Em 2006, a Hungria ganhou de Nova Zelândia, Áustria, Bósnia-Herzegovina e Canadá, enquanto perdeu de Inglaterra, Noruega, Turquia e Malta

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A Hungria é o único país a ter três medalhas de ouro olímpicas no futebol (a Grã-Bretanha tem três também se for considerado o torneio de demonstração em 1900) e a estar invicto contra o Brasil em Copas do Mundo com mais de um confronto direto. Além disso, foi a primeira seleção fora das Ilhas Britânicas a bater a Inglaterra em Wembley e ficou invicta por 33 jogos entre 1950 e 1954, quando perdeu a final da Copa para a Alemanha Ocidental.

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Em competições de clubes, as principais conquistas húngaras vieram na década de 1960. Em 1964, o MTK foi vice-campeão da Recopa. Na Copa de Feiras (precursora da Copa da Uefa), o Ferencváros foi campeão em 1965 e vice em 1968, enquanto que o Újpest Dózsa foi segundo em 1969. Depois desse período, apenas dois vices: do Ferencváros na Recopa de 1975 e do Videoton na Copa da Uefa de 1985.

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Pauta sugerida por Vicente Limberger e Bruno Matos.

Ubiratan Leal

Imagens: MLSZ (seleção e Hungria x Canadá) e Ferencvaros (Gyirmót x Ferencvaros)

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