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11/01/07

O mundo não é uma bola...

E agora, Beckham?

Adidas_Beckham.jpg

A torcida do Real Madrid ainda tentava entender a extensão da crise que tomou conta do clube no último mês, buscando informações sobre o que teria ocorrido na reunião entre a diretoria e Fabio Capello, quando surgiu a bomba: David Beckham acertou com o Los Angeles Galaxy da MLS. A partir daí, surgem um batalhão de perguntas: o que ele vai fazer lá? A MLS tem tanta grana assim? Vale a pena deixar a Europa e sumir nos Estados Unidos? Por que ele não deu certo no Real Madrid?

A tendência imediata é simplificar com base em alguns preconceitos comuns no Brasil. Beckham seria um jogador ruim (ou, no máximo, mediano), que não deu certo no Santiago Bernabéu porque foi contratado pelo marketing e, ciente disso, vai fingir que joga futebol nos Estados Unidos enquanto ganha dólares com propaganda. Há algumas verdades nessa explicação, mas nem tudo é tão fácil.

Primeiro, Beckham não é mau jogador. Pelo contrário. O futebol que apresentou no Manchester United deixou claro que se trata de um meia acima da média. Além de chutar na bola como poucos, tem poder de marcação razoável e sabe ocupar bem o espaço como ala ou meia-direita aberto. Além disso, tem poder de liderança e não foge dos momentos decisivos (expulsão infantil contra a Argentina em 1998 à parte). Por isso, inclusive, ganhou tanto espaço na seleção inglesa no final da década passada e no início desta.

O problema é que quase todos seus méritos como jogador foram para o espaço em Madri. A contratação foi motivada realmente pelo marketing, pela possibilidade de pagar a transferência apenas com venda de camisas e contratos publicitários e em inflar a megalomania madridista. Mais que o time, o inglês sentiu muito isso.

No Real Madrid, Beckham não tinha espaço. Pelo seu setor, já estava Luís Figo, que tem características muito mais condizentes com o futebol espanhol (avança com a bola no pé, buscando a linha de fundo ou cortando pelo meio) do que o ex-Manchester United. Encontrar um jeito de colocar os dois em campo (considerando que a faixa esquerda era de Zidane) fragilizou o time, que ficou com apenas um volante ou, para ter dois, teve de improvisar Beckham na posição.

Além disso, a falta de ambiente ajudou a piorar a situação do inglês. Clube e jogador se confundiram em onde devia terminar o marketing para começar o futebol. Esse fenômeno (sem trocadilhos com certo atacante brasileiro companheiro de trabalho de Beckham) afetou vários jogadores merengues. Considerando que taticamente já não tinha muito lugar na equipe, o inglês foi um dos que teve o rendimento mais afetado por isso. Depois de um tempo, ele mesmo já não sabia mais o que fazia no clube.

Do jeito que estava, era melhor sair. Aliás, atitude que deveria ter sido tomada já no meio de 2006. Assim, preservava um pouco de sua imagem (seu desempenho na Copa do Mundo não foi dos piores) e teria tempo de buscar um clube britânico de nível aceitável – como Newcastle, Everton, Liverpool, Celtic ou Tottenham – para mostrar sua técnica e recuperar um pouco seu status.

No final das contas, a ida para os Estados Unidos deixa claro que ele não consegue mais separar seu lado jogador do lado celebridade. E, se é assim, nada melhor do que ir para Los Angeles. Beckham levará a MLS a um novo nível de popularidade (no mínimo, muitos norte-americanos vão se lembrar que existe uma liga profissional de soccer no país) e a marca do Los Angeles Galaxy se projetará.

Considerando que o Galaxy e Beckham são patrocinados pela mesma empresa (a Adidas), dá para imaginar que essa negociação faça parte de um plano da fabricante de material esportivo alemã para se tornar referência de futebol nos Estados Unidos. Além disso, o time de Los Angeles ainda está vinculado à Anchutz Entertainment, dona de metade dos clubes da MLS e, principalmente, da própria liga.

Fica evidente que os futuros patrões de Beckham terão retorno imediato com a chegada do inglês na América do Norte (e por isso encaixaram o meia no caso de único jogador acima do teto salarial que cada clube da MLS pode ter). Claro que isso se refletirá no jogador. Atingir o mercado norte-americano é bom para qualquer pessoa que viva de sua imagem. Ainda mais na maior cidade da Califórnia, onde ele terá tempo para fazer participações especiais em quantos filmes e sitcoms quiser.

Em campo, Beckham tem boa chance de se sobressair nos Estados Unidos. O estilo de jogo da MLS é parecido com o inglês, mas com nível técnico bem abaixo. Se levar um pouco a sério sua passagem por Los Angeles, o meia londrino será um dos melhores jogadores da liga norte-americana. E pode até encerrar a carreira como estrela. Esquecido na Europa, mas como estrela.

Ubiratan Leal

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