A saída de Ronaldo simboliza o fim de uma era no Real Madrid. O Santiago Bernabéu dos galácticos, das contratações bombásticas no início da temporada, acabou. Pelo menos oficialmente, pois o último dos jogadores trazidos por Florentino Pérez por dezenas de milhões de euros – os outros eram Figo, Zidane e Beckham – deixou o clube. Agora, a missão é saber construir uma nova política.
Não será fácil. Apesar das três temporadas sem título, a filosofia de Pérez era extremamente conveniente ao Real Madrid. O ex-presidente foi hábil em alimentar o imaginário do torcedor madridista, que tem como ideal repetir a era de Santiago Bernabéu, com os maiores craques do mundo reunidos em nome do futebol bonito e vencedor. Tudo para que não haja dúvidas que o Real Madrid é o maior clube do mundo. É verdade que Pérez ganhou pouca coisa como presidente, mas ele permitia que o torcedor tivesse a esperança de ver esse Real Madrid de volta.
Por isso, o processo por que passa o clube dá a sensação de que será doloroso de alguma forma. A atual direção tem radicalizado e precisa bancar politicamente essa atitude até o final da temporada. Até agora, não houve meias medidas. Quem Fabio Capello achou que não servia para seu projeto de longo prazo, saiu – Beckham e Ronaldo – ou foi colocado em situação que a saída é iminente – Cassano e Cicinho. Os jogadores que estão em sursis – Reyes, Raúl e Robinho – sabem muito bem de suas condições e têm até o final da temporada para se acertarem.
O maior problema é a nova base que está sendo construída. Cannavaro e Émerson são veteranos e não devem estar em um projeto de mais de dois anos. Além deles, os demais reforços recentes dos madridistas – Marcelo, Higuaín e Gago – ou, no caso de Diarra, não é um jogador consolidado. O Real Madrid, pelas cobranças e pelo imaginário de excelência que torcida e imprensa têm, precisa de algo mais sólido.
Se os resultados não aparecerem rapidamente, os jovens não terão capacidade de segurar a pressão. Casillas e Raúl têm, mas já estão descontentes com o presidente Ramón Calderón e não devem se matar pelo patrão. Seria importante ter nomes de experiência internacional, mesmo que não fossem “galácticos” na acepção madridista do termo. Pensando rápido, jogadores como Schweinsteiger, Makélélé, Klose, Deco ou Juninho Pernambucano.
O Real Madrid terá de provar que consegue sobreviver a esse período de turbulência. Ter Ronaldo e Beckham era confortável porque servia sempre de álibi, jogando a culpa no passado. Agora, o clube tem de assumir a responsabilidade por seus atos. Sob o risco de ver a pressão por contratar novos “galácticos” voltar.
Ubiratan Leal
Obs.: texto originalmente publicado na Trivela
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